31 de março de 2009

Dos boatos

Lembrei-me deles por causa de uma conversa com o Iandu, no twitter, acerca de jogos de cartas. Eu sei que uma coisa não tem a ver com a outra, mas na minha cabeça fez tanto sentido que me lembrei.
Pelo que sei, sempre houve muitos boatos associados às mulheres da minha família, mas eu só me dei conta desse grande fenómeno que é o boato, penso que nos meus 18 anos. Dizia-se que alguém na minha rua tinha feito um aborto. Ninguém sabia quem tinha sido (ou se tinha sido alguém), mas toda a gente, por exclusão de partes, sabia de certeza absoluta que tinha sido eu. Basicamente porque das raparigas da minha rua eu era a única que não ia à Igreja, por isso, só podia ter sido eu. Além disso, supostamente eu estava muito mal no Hospital porque o dito cujo aborto não tinha corrido bem. Na altura ri-me. Depois comecei a chatear-me.
Eu sei que os olhares não arrancam bocados de nós. Eu sei que cochicharem quando nós passamos não devia ferir, mas fere. Pensamos sempre que se não dermos importância que as coisas passam, mas não passam. Ficam para sempre. Mais de dez anos passados e eu ainda sou a que fez o aborto. Pior, entretanto já me arranjaram mais dois abortos, por isso sou a que fez 3 abortos. Pelo menos por enquanto a contagem mantém-se assim.
Numa destas Páscoas, penso que há dois anos, a minha mãe ficou na recém-inaugurada casa da minha irmã para abrir a porta ao padre, para a bela da benção. Um dos senhores que ia com o padre estranhou ver ali a minha mãe e perguntou-lhe o que ela fazia ali (como se tivesse alguma coisa a ver com isso). A minha mãe, ingénua, sem saber o que dali ia vir, respondeu que aquela era a casa da filha. Soube por uma amiga que alguém abordou a mãe dela a contar a novidade. Eu estava amantizada, com um homem imagine-se, naquela casa onde viram a minha mãe. A mãe da minha amiga riu-se e disse que não era verdade, que aquela era a casa da minha irmã. A sra. respondeu "nada disso! Eu sei bem onde mora a irmã dela e não é ali". Gostava de viver a minha vida com tantas certezas como tem esta senhora, coitada.
Os boatos não tiram bocados, mas chateiam. Porque embora sejam mentiras puras e duras, permanecem no mesmo saco das verdades. Fazem parte da nossa bagagem. Naquela terra eu vou ser sempre a que fez 3 abortos (por enquanto!) e que vive amantizada com um homem na casa da minha irmã. Isto já não me irrita. Chateia-me. Não posso ignorar os olhares, nem as palavras jocosas quando passo, nem as certezas absolutas que têm da minha vida. Eu vivo ali. Habituei-me a não sair muito de casa. Quando saio é para ir para fora. Não vou sequer tomar café, a não ser ao Domingo, com a famelga toda. Não fiz nada que justificasse isto. Ainda assim...
Portanto, se ouvirem contar estas coisas, sorriam. É o que tento fazer. :)

Sou um guardador de rebanhos

Sou um guardador de rebanhos.
O rebanho é os meus pensamentos
E os meus pensamentos são todos sensações.
Penso com os olhos e com os ouvidos
E com as mãos e os pés
E com o nariz e a boca.

Pensar numa flor é vê-la e cheirá-la
E comer um fruto é saber-lhe o sentido.

Por isso quando num dia de calor
Me sinto triste de gozá-lo tanto,
E me deito ao comprido na erva,
E fecho os olhos quentes,
Sinto todo o meu corpo deitado na realidade,
Sei da verdade e sou feliz.


Alberto Caeiro


Não se pode viver sem sentir. Não se pode sentir sem viver. Não se pode viver sem viver.

30 de março de 2009

Cuba


Adoro histórias de conspirações e de como os portugueses foram mais espertos que os espanhóis e os enganaram :) Já sei que quem se concentra nos Descobrimentos se está a focar num passado longínquo e numa glória passada que está longe de se concretizar novamente. Mas tem alguma coisa de mal ter orgulho do nosso passado e do grande estadista que foi D. João II? O melhor governante que este país já teve e que, curiosamente, só foi enganado por uma mulher. Go figure!

29 de março de 2009

Campeonatos Nacionais de Natação


Ah pois é. O balanço destes 3 dias de provas é fantástico. Ora, a Sara é campeã nacional junior nos 50m, 100m e 200m mariposa e ainda nos 100m livres. Além disso, fez mínimos para os Europeus nos 100m e 200m mariposa. E hoje... hoje eu estive lá. Hoje eu consegui não me perder em Lisboa e chegar lá (2h antes...). Hoje eu vi. A prova dos 100m mariposa que ela ganhou e que fez record nacional! Record Nacional Junior. :) Foi muito muito difícil conter a emoção e fiquei com as mãos a tremer durante muito tempo. Foi o premiar de anos de treino. Treinos às 6 da manhã. Um dia de aulas, sem benesses, tal qual os outros colegas da turma e ao fim do dia mais treino. Todos os dias. Sempre. Sempre. Não é só quando está calor. Não é só quando apetece. É sempre, para além da vontade, para além da dor, para além de tudo. A persistência hoje premiada.
Agora... na 4ª à noite segue para a Grécia para o Multinations, com a Selecção Nacional. Go Sara GO! (Parabéns miúda!)

28 de março de 2009

Alvito



Portugal profundo e ostracizado.
Vim por um dia, pouco mais. E vinha a pensar que um dia era pouco para conhecer Alvito e algumas vilas no raio de acção: Viana do Alentejo, Cuba e Vidigueira. Não há quase nada para ver. As vilas são bonitas e simpáticas, mas sem pontos de interesse. Em Viana do Alentejo não há um restaurante. Pronto. Há churrasqueiras, mas nenhum lugar onde se possa comer comida tradicional. Em Cuba tirei uma foto na estátua do Cristóvão Colombo. A Vidigueira parece mais desenvolvida. Há umas ruínas romanas lá perto, mas fechavam às 17h30 e nós chegámos às 17h33 e então não vimos nada. Em Alvito perguntámos a uma senhora onde havia um quiosque para comprarmos um jornal ou uma revistinha e ouvi qualquer coisa como "ai menina... revistas? Só se for a Beja...". Beja?! Não tivémos de ir a Beja por causa de uma revista, mas quase. De notar que estas vilas são sede de concelho e não lugarejos perdidos na serra.
Fiquei chocada. Mesmo. A falta de pessoas na rua. Não se vêem jovens. A falta de bens essenciais. Aqui, tão perto da cidade, sinto-me tão longe de tudo que dói. Ficámos num quase turismo de habitação (uma quinta que teve obras recentes e que está mesmo muito bem decorada) que não tem tv nos quartos. Sinto-me fora de tudo. Sei que há quem pague, e bem, para ficar assim fora de tudo, mas não era esse o objectivo... não estou chateada. Estou espantada com tudo o que vi neste dia. Agora entendo um bocadinho o que é o Portugal esquecido e ostracizado. Mas vá... a pousada é gira :) E tem sido muito divertido. Mesmo.
Ah... e assim a modos que para manter o pessoal informado, a minha Sara ganhou até agora todas as provas em que participou no Campeonato Nacional de Natação. E hoje. Pessoal... hoje, nos 200m mariposa, ela conseguiu apenas e só os mínimos para os europeus :) Amanhã há mais!

27 de março de 2009

Dia Mundial do Teatro


Já disse muitas vezes que não gosto de dias instituídos. E este dia Mundial do Teatro é outro de que não gosto. Para que é que o Teatro quer um dia? E tinha de ser este dia? Penso agora que nunca tive nada só meu... o nome era sempre partilhado por meia dúzia de pessoas da mesma turma. Até o dia de aniversário foi sempre partilhado, até ao 12º ano pelo menos. Depois... depois começaram com esta coisa do dia do Teatro. Cromos.


Eu gosto do Teatro. Tive duas experiências enquanto actriz (isto soa bem!). Uma na 2ª classe em que fui a protagonista. Só me lembro que fazia de velhota e tinha imenso texto para decorar e recebi óptimas críticas. E depois no 9º ano. No inefável e inevitável Auto da Barca do Inferno. Fui o Anjo (what else?) na cena do sapateiro e levei tudo decorado e nunca olhei para o livro.
E pronto. A partir daí a minha relação com o teatro foi mais de leitora. Principalmente na Faculdade. Sófocles, Ésquilo, Eurípides, Aristófanes, Plauto, Séneca. Lá havia uma grupo de teatro, o Thyasos. Lembro-me de ser caloira e de ver o DJ fazer o Epídico. Brutal. Acho que nunca ri tanto na vida. Depois o mesmo DJ foi o Sósia, do Anfitrião. Fizeram algumas tragédias, mas o dom deles era para a comédia. Lembro-me de ver o público a rir à gargalhada nas Traquínias (acho que foi nesta) e de eu dizer ao ouvido da minha companhia "não te rias que isto é uma tragédia". Lembro-me de uma amiga que deixou o curso a meio para fazer o curso de teatro da Escola Superior de Educação. Uma verdadeira actriz.
Tenho o desejo de ver uma Medeia. Um Rei Édipo. As minhas tragédias preferidas. Acho que são os livros mais pequenos e ao mesmo tempo mais densos que li na vida. Um dia...


Pronto. Hoje é o dia Mundial do Teatro. Hoje sai a 1ª edição da Playboy portuguesa. Hoje muitas coisas... :)

1980-2009



A ursa azul faz anos hoje. Não sei se faz mesmo mesmo anos hoje, mas contam-me que foi no dia de hoje, há muitos anos atrás que ela me chegou às mãos. Por isso, mais dia menos dia, o dia 27 de Março foi o dia instituído para o aniversário da ursa azul. Tantas histórias. Tantos anos. Tantas lágrimas. Tantos sorrisos. E nós sempre juntas. A minha confidente. A minha amiga. Tempos houve em que tentei arranjar-te um nome e sabes tão bem como eu que a imaginação nunca foi o meu forte e ficaste para todo o sempre "ursa azul". Tantas vezes te colei os olhos. Tantas vezes te pus a esponja para dentro. Tantas vezes desesperei quando a minha mãe me disse que estavas na máquina de lavar... e fiquei a ver-te rodar e rodar e rodar. E voltaste sempre para mim. Fiel. Inteira. O vestido é outro, mas a essência do que és continua.

Fica uma música, numa versão nova. Porque por mais anos que passem e que pesem, seremos sempre novos se tivermos a capacidade de nos renovarmos, de renascermos como a fénix. E tu tens renascido, sempre, com as tuas cicatrizes, mas tens conseguido sempre renascer, sempre com esperança no olhar, sempre na partilha das minhas lentes cor-de-rosa. E seremos jovens mesmo a cair de velhas minha querida. Enquanto mantivermos o sonho e o brilho no olhar. Mesmo com a esponja a sair-nos dos poros, mesmo com os olhos a cair, mesmo a rodar na máquina de lavar, a centelha mantém-se. Forever young, um original dos Alphaville, aqui rejuvenescida pelo Youth group. Penso que é o som adequado. Sei que vais gostar.






Lets dance in style, lets dance for a while
Heaven can wait were only watching the skies
Hoping for the best but expecting the worst
Are you going to drop the bomb or not?

Let us die young or let us live forever
We dont have the power but we never say never
Sitting in a sandpit, life is a short trip
The musics for the sad men

Can you imagine when this race is won
Turn our golden faces into the sun
Praising our leaders were getting in tune
The musics played by the madmen

Forever young, I want to be forever young
Do you really want to live forever, forever and ever

Some are like water, some are like the heat
Some are a melody and some are the beat
Sooner or later they all will be gone
Why dont they stay young

Its so hard to get old without a cause
I dont want to perish like a fading horse
Youth is like diamonds in the sun
And dimonds are forever

So many adventures couldnt happen today
So many songs we forgot to play
So many dreams are swinging out of the blue
We let them come true



Parabéns ursa azul. Parabéns por 29 anos de vida em comum. Ninguém nos entende, mas nós entendemo-nos e isso é que importa. Dizem que temos de cometer uma loucura antes dos 30...os 30 estão à distância de um ano... qual é a tua loucura? A minha é viver. :)

26 de março de 2009

Verdade

"Em suma, não se pode observar uma onda sem levar em conta os aspectos complexos que concorrem para formá-la e aqueles também complexos a que essa dá ensejo. Tais aspectos variam continuamente, decorrendo daí que cada onda é diferente de outra onda; mas da mesma maneira é verdade que cada onda é igual a outra onda, mesmo quando não imediatamente contígua ou sucessiva; enfim, são formas e sequências que se repetem, ainda que distribuídas de modo irregular no espaço e no tempo." (Palomar, Italo Calvino)

O que Palomar percebe é que nunca vai poder ver uma onda. Porque não a pode ver de frente, de trás, de baixo, de cima e de cada um dos lados ao mesmo tempo. Só tem a sua perspectiva. É assim com tudo o que vemos e vivemos. Só temos a nossa perspectiva que pode estar certa, mas não impede que outras perspectivas, mesmo que completamente opostas, não sejam correctas também. Como é que duas coisas opostas podem ser verdade? Não sei, mas podem. É tudo uma questão de perspectiva.

Ontem recebi um telefonema de uma pessoa com quem não falava há muito tempo. Estranhei quando vi o nome a piscar no visor, mas atendi. E ainda bem. Foi muito bom falar com ela e relembrar os tempos de quando trabalhava na Amadora.


É engraçado como as coisas acontecem. Ela estudou na FLUC ao mesmo tempo que eu e nunca nos cruzámos. O Johny é de Coimbra e nunca nos tínhamos cruzado. Vi duas casas e escolhi uma delas sem conhecer as pessoas com quem a ia dividir. Sem os ver. Desde logo estranhámos as coincidências. Uma Coimbra que partilhávamos, mas que nunca nos juntou. E agora estávamos ali, a dividir um apartamento em Queluz. Havia ainda uma outra pessoa, mas... nem sequer me quero lembrar.

E falámos. Relembrámos. O Johny que era só um anito mais novo que eu, mas de quem tomávamos conta como se fosse um irmão. Fazíamos sempre jantar a contar com ele. E ele comia e lambuzáva-se e levantava-se para lavar a louça sem ser preciso dizer nada. E lavava a louça com a cabeça encostada aos armários da cozinha... e dormia de boca aberta no sofá da sala. Tantas fotos que lhe tirámos. Foi à conta dele que comecei a perceber o que era o rugby e foi a equipa que ele treinava que eu fui ver, num Domingo à tarde cheio de senhores com camisolas lacoste aos ombros a fumarem charuto e a tratarem os filhos de 3 anos por você. "Ó Rosarinho, venha cá, Zé Maria já o avisei que o menino não pode estar aí...".


Era ele que, acabado de tomar banho e de vestir, de chave na mão para sair, me encontrava de pijama acabada de acordar no sofá da sala. Sentava-se ao meu lado e dizia, vai tomar banho e vestir-te porque vamos sair. E esperava.


Era ele que me levava a jantar fora e pagava apenas e só porque eu lhe fazia o jantar algumas vezes. Foi com ele que vivi uma das noites mais hilariantes, no Panças, na Buraca, com um grupo muito divertido ao nosso lado, numa festa de aniversário, já com os copos. Um dos senhores falava mal de alguém que não estava presente que "usava óculo porque é um preto fino, porque não tem problema na vista, é um preto fino". Ou comentava que a prenda que lhe tinham dado vinha num saco da Decénio e "tu pensa, é uma sandália, é um sapato, uma camisola, e vai a ver e é uma talocha" e saca da talocha de dentro do saco da Decénio para todo o restaurante ver. Nessa altura já ninguém continha o riso.

Noites no Bairro Alto a beber margaritas de tudo e mais alguma coisa. A comer pão com chouriço não sei onde. Um show.

Foram tempos muito divertidos, muitos vividos a dois (porque ao fim-de-semana a outra Ana ia para casa) e muitos vividos a três. Até estávamos unidos contra as maluqueiras da 4ª pessoa da casa. Os jogos da selecção, as bebedeiras, os frangos da churrasqueira ao pé do Pingo Doce,... tantas coisas. Ele deu aulas de futebol aos meus miúdos do ATL, ela deu umas explicações de Francês. Foi muito bom. Partilhámos tantas coisas.

E mal desliguei o telefone lembrei-me do Palomar e de como nenhuma verdade é absoluta. Aquele que foi o pior ano da minha vida teve tantas tantas tantas coisas boas.

Obrigada Ana por me lembrares, que mesmo na noite mais escura, em tempo de servidão, há sempre alguém que.... :)

25 de março de 2009

Grandes livros

Um recado. Não sei se os programas vão ser bons, mas... prometem. Narração de Diogo Infante. No 1º programa, sobre os Maias, já vi que vão ter o Carlos Reis (que não podia faltar), por isso, rigoroso também há-se ser.
Grandes livros (e não apenas livros grandes), 6ªfeiras às 21h na RTP. Podem consultar o site, aqui.
Cada programa terá como base um grande livro da literatura portuguesa e, a 1ªtemporada, é composta pelas obras abaixo. A ver se não fazem disto um programa chato. :)

Lista de obras para a primeira série de "Grandes Livros":
- Os Maias (Eça de Queirós)
- Os Lusíadas (Luís Vaz de Camões)
- O Delfim (José Cardoso Pires)
- Aparição (Vergílio Ferreira)
- Histórias da Terra e do Mar (Sophia de Mello Breyner Andresen)
- Livro do Desassossego (Fernando Pessoa)
- Sinais de Fogo (Jorge de Sena)
- Sermão de S. Ant. aos Peixes (P. Ant. Vieira)
- Viagens na Minha Terra (Almeida Garrett)
- Mau Tempo no Canal (Vitorino Nemésio)
- Peregrinação (Fernão Mendes Pinto)
- Amor de Perdição (Camilo Castelo Branco)

Bairro Alto

"O Bairro Alto, em Lisboa, é um espaço de tertúlia e de boémia, de lojas vanguardistas e de espaços tradicionais, de cultura contemporânea e de tradições bairristas. No Bairro Alto funcionaram muitos jornais e é ainda ali que se encontram as elites culturais e uma nova geração cheia de ideias, de projectos e de histórias para contar.

Na RTP2, o Bairro Alto é isso mesmo. Um espaço de conversa com figuras que têm algo para dizer sobre si e sobre o que fazem. José Fialho Gouveia entrevista artistas, ensaístas, cientistas, gente da moda e do espectáculo, gente do pensamento e da acção, portugueses e estrangeiros. O tom é próximo, informal. E as perguntas pedem mais que as habituais respostas politicamente correctas. Bairro Alto é um face a face com ritmo e sem mesa." (no site da RTP)

Ontem o convidado foi o Nicolau Breyner. E por mais que olhasse para o relógio e visse que tinha de ir para a cama, não consegui levantar-me do sofá enquanto o José Filaho Gouveia não me olhou nos olhos e se despediu.

Gosto do Nicolau. Lembro-me de ver as rábulas do Sr. Contente e do sr. Feliz (em reposição, lógico), lembro-me do Nico d'Obra e da Vila Faia. É uma daquelas pessoas que não nos conhece, mas que cresce connosco. Era muito bom em comédia e é muito bom em drama. Para quem quiser espreitar as suas "confissões", pode espreitar, aqui.

O José Fialho Gouveia é giro. Tem pinta. Encontro-o ainda um pouco inseguro. A olhar muito para as perguntas que tinha programado. Ainda assim destaca-se. Imagino uma Manuela Moura Guedes num formato daqueles e sorrio. O José tem calma. Ouve. Neste programa ouve-se muito. Dá-se tempo ao convidado para que respire, pense, para que responda curto ou longo. Espaço para dizer o que quer. Perguntas directas, mas sem ofensas muito menos com pressão. Parece uma conversa de café e nota-se. Os convidados estão relaxados e às vezes, parece-me, até dizem mais do que tinham planeado.

E é bom. Quando os convidados são menos conhecidos, consigo desligar e ir dormir. Ontem não fui capaz. Foram 45 minutos de conversa, sem intervalo. Fiquei presa às palavras, bem ditas, bem pronunciadas, tranquilas, serenas, duras, sinceras.

Gosto muito deste Bairro Alto. Para quem quiser espreitar, às 3ªfeiras (logo após a Anatomia), pelas 23h30 na RTP2. Vale a pena.

24 de março de 2009

Irritada

Ando irritada. Não sei porquê. Não chego a estar triste. Nem desiludida. Nem nada disso. Estou cheia de trabalho e os dias têm sido feitos de 12 horas de trabalho sem hora de almoço, sendo que eu sei que ninguém vai ver nem dar valor e ainda sou capaz de ouvir por não ter terminado isto antes. Estou sozinha na recepção ao segundo piso. As minhas colegas fecharam a porta que dá acesso a elas e ao resto do mundo civilizado e então estou sozinha. E depois ainda me perguntam se estou chateada porque não falo com elas. Helllooo! Estou aqui encerrada e cheia de trabalho! Hoje andam aqui uns senhores muito simpáticos com berbequins. Hoje tenho companhia. Somos eu e a minha dor de cabeça e o trabalho vai render mesmo muito, basicamente porque nem sequer me consigo ouvir pensar. Para piorar, isto no mundo do futebol anda em brasa. Eu sou muito benfiquista, mas costumo ter uma atitude muito calma no que respeita às arbitragens. Tirando uns casos estranhos nos anos 90, relativamente ao sr. Papa, não acredito que os árbitros façam de propósito. Acho que são humanos e ninguém mais do eles reza para que não haja "casos". A maré vai e vem e uns são favorecidos hoje e outros são favorecidos amanhã. Isto faz com que neste momento seja odiada por sportinguistas e por benfiquistas também. E ter acabado o dia a ouvir um "benfiquista de merda", não me caiu muito bem.
Não estou triste. Estou irritada. Estou irritada porque a pessoa incumbida de me ajudar se foi embora às 18h como se nada fosse. Estou irritada porque toda a gente pensa que eu estou chateada só porque não converso. Estou irritada por não conseguir ter apenas e só silêncio. Não o tive ontem à noite e não o vou ter hoje. Mais 12h de trabalho, sem tempo para almoços. E a minha colega vai chegar toda contente a dizer que fez 1/100 do trabalho quando tem de estar tudo pronto amanhã. Irritada porque quando estou chateada, da última coisa que preciso é de um interrogatório dos papás. Irritada porque sim. Não estou triste. Não estou deprimida. Não estou de mal com a vida nem ela está de mal comigo. Da última vez que falámos estava tudo bem. Estou irritada comigo e com o Mundo, o que é uma coisa completamente diferente. Esta semana nunca foi semana de me correr muito bem... vamos ver o que acontece este ano... desliguem a porcaria dos berbequins!!!!!!

23 de março de 2009

Bad day

Cheguei a casa depois de 12 horas de trabalho. Extremamente cansada. Saturada. Farta. Cheguei para uma casa vazia. O silêncio. Soube tão bem o silêncio. Sem cobranças, sem perguntas, sem asneiras de quem não tem mais o que dizer. Preparei o meu jantar e comi. Em silêncio. Só eu e os meus pensamentos. Tomei um banho a ferver e deixei o cansaço ir pelo ralo. Liguei um pouco a TV. Gosto de chegar a casa e ser recebida por esta paz que me inunda... Depois acordei. A verdade é que não há dia mau que não se possa tornar pior. Não era já a minha vez?





Where is the moment we needed the most
You kick up the leaves and the magic is lost
They tell me your blue skies fade to grey
They tell me your passion's gone away
And I don't need no carryin' on

You stand in the line just to hit a new low
You're faking a smile with the coffee to go
You tell me your life's been way off line
You're falling to pieces everytime
And I don't need no carryin' on

Cause you had a bad day
You're taking one down
You sing a sad song just to turn it around
You say you don't know
You tell me don't lie
You work at a smile and you go for a ride
You had a bad day
The camera don't lie
You're coming back down and you really don't mind
You had a bad day
You had a bad day

Well you need a blue sky holiday
The point is they laugh at what you say
And I don't need no carryin' on

You had a bad day
You're taking one down
You sing a sad song just to turn it around
You say you don't know
You tell me don't lie
You work at a smile and you go for a ride
You had a bad day
The camera don't lie
You're coming back down and you really don't mind
You had a bad day

(Oh.. Holiday..)

Sometimes the system goes on the blink
And the whole thing turns out wrong
You might not make it back and you know
That you could be well oh that strong
And I'm not wrong

So where is the passion when you need it the most
Oh you and I
You kick up the leaves and the magic is lost

Cause you had a bad day
You're taking one down
You sing a sad song just to turn it around
You say you don't know
You tell me don't lie
You work at a smile and you go for a ride
You had a bad day
You've seen what you like
And how does it feel for one more time
You had a bad day
You had a bad day

Had a bad day
Had a bad day
Had a bad day
Had a bad day
Had a bad day

20 de março de 2009

Lost

Esta música é para mim. Esta música é para as pessoas que poderão estar por aí a sentirem-se perdidas. O caminho tem muitas condicionantes e não depende só de nós. Cada vez mais acredito que o que conta não é mesmo o caminho, mas a forma como se caminha. Por isso, se caminharmos com convicção, com verdade, o caminho será sempre certo. Às vezes é só preciso parar, olhar para os lados e então retomar a caminhada... pode ser em frente, para cada um dos lados, ou até mesmo um recuo estratégico. Não podemos viver parados, mas parar faz falta, de vez em quando, para reavaliar. Coldplay, Lost.



Just because I'm losing
Doesn't mean I'm lost
Doesn't mean I'll stop
Doesn't mean I'm across


Just because I'm hurting
Doesn't mean I'm hurt
Doesn't mean I didn't get what I deserved
No better and no worse

I just got lost!
Every river that I tried to cross
Every door I ever tried was locked
Oh and I'm just waiting til the shine wears off

You might be a big fish
In a little pond
Doesn't mean you've won
'Cause along may come
A bigger one

And you'll be lost!
Every river that you tried to cross
Every gun you ever held went off
Oh and I'm just waiting til the firing's stopped
Oh and I'm just waiting til the shine wears off

[Jay-Z]
Yeah
...just waitin' til the... the... yeah
Aha, I gotcha, uh...
With the same sword they knight you, they gon' good night you with
Shit, that's only half if they like you
That ain't even the half what they might do
Don't believe me, ask Michael
See Martin, see Malcolm
See Biggie, see Pac, see success and its outcome
See Jesus, see Judas
See Caesar, see Brutus, see success is like suicide
Suicide, it's a suicide
If you succeed, prepare to be crucified
Media meddles, niggas sue you, you settle
Every step you take, they remind you you're ghetto
So it's tough being Bobby Brown
To be Bobby then, you have to be Bobby now
And the question is,
"Is to have had and lost
Better than not having at all?"

Because I'm...

[Chris]
Oh and I'm just waiting til the shine wears off
Oh and I'm just waiting til the shine wears off


Just because you're loosing, DOESN'T MEAN YOU'RE LOST.

Liar - o momento da verdade

            Chegou o momento da verdade! Da verdade verdadeira... aqui vai :)

                    1. Detesto cortar as unhas dos pés, mas não consigo deixar que seja outra pessoa a fazê-lo. (precisamente... todas as vezes que alguém me tentou ajudar, cortando as unhas dos meus pés, eu cheguei a casa e voltei a cortá-las. Tenho de as ter sempre impecavelmente limpas e cortadas, peles incluídas. Portante, VERDADE)


                    2. Adoro ir a sítios diferentes, mas detesto viagens (carro, barco, avião, seja o que for...) (adoro passear, conhecer sítios diferentes e até mesmo revisitar lugares. Adoro mesmo. Detesto a parte dos meios de transporte. Não gosto de carros, enjoo imenso. Detesto aviões... Logo, VERDADE)


                    3. Já levei pancada de miúdos, no ATL. (Se considerarem murros e pontapés porrada a sério, pois podem apontar esta como sendo VERDADE. Foi num ATL na Amadora e no fim os que me bateram foram os que mais choraram pela minha partida, mas, nada apaga a porrada!!)

                    4. Adoro História e adoro ensinar Literatura, mas detesto gramática e não gostei de dar aulas de Latim. (Parece um sacrilégio, não é? A parte de que gostei nas aulas de Latim foi quando dava Cultura, o que se parecia mais com uma aula de História. Não gosto de picuinhices. De coisas exactas e afins. Gosto de Literatura, de estórias, de História, de enredo... isso sim, dá-me (dava-me) pica... VERDADE)


                    5. Não gosto mesmo nada de cerveja, nem de vinho, nem de pimentos, nem de azeitonas, nem de pepino, nem de grelos, nem de favas... (VERDADE... Não há muito a explicar... não gosto e pronto.)


                    6. Adoro o cheiro das pessoas, inclusivamente, confesso, o meu próprio. A minha almofada anda sempre atrás de mim. (Eu sei que é difícil de acreditar, mas a minha almofada anda mesmo atrás de mim. Quando passo só uma noite fora, controlo-me e não a levo. Mas quando são mais noites, desculpem-me, mas vai comigo sim senhores! VERDADE)


                    7. Durmo com a ursa azul todas as noites, bem agarradinha. (VERDADE e não vale gozar)


                    8. Já tive a mania que sabia tudo, hoje sei que há coisas em que sou mesmo mesmo muito boa :) (e sei que não sei tudo) (VERDADE... Aprendi a ver-me pelo que tenho de bom e de mau. Aprendi, com dificuldade, que não tenho sempre razão. E hoje é sem dificuldade que digo que não sei tudo :)


                    9. Vamos lá ver.... a última... Sou incapaz de dizer que não... as poucas vezes que o digo fico sempre com sentimento de culpa... (VERDADE sem mais...)


                    Confusos? Eu disse que era mentirosa. Lembram-se do programa do Herman? Ah pois é... com a verdade me enganas! :) Era tudo verdade pelo que ninguém passou no desafio! Eheheheh

                    As palavras

                    As palavras

                    São como um cristal,
                    as palavras.
                    Algumas, um punhal,
                    um incêndio.
                    Outras,
                    orvalho apenas.

                    Secretas vêm, cheias de memória.
                    Inseguras navegam:
                    barcos ou beijos,
                    as águas estremecem.

                    Desamparadas, inocentes,
                    leves.
                    Tecidas são de luz
                    e são a noite.
                    E mesmo pálidas
                    verdes paraísos lembram ainda.

                    Quem as escuta? Quem
                    as recolhe, assim,
                    cruéis, desfeitas,
                    nas suas conchas puras?

                    Eugénio de Andrade

                    19 de março de 2009

                    Speechless






                    Nós somos mais animais que eles. Nós excluímos. Nós não aceitamos a diferença. Nós descriminamos. Nós infligimos dor nos outros. Nós não temos piedade. Nós somos cruéis. Nós somos os verdadeiros animais. (Obrigada à mana pelo mail... lindo!). Está na hora de abraçarmos as diferenças... as nossas e as dos outros.

                    18 anos de Pearl Jam

                    Faz 18 anos que lançaram o primeiro album, TEN, que vai ser agora reeditado. Embora tenha começado a gostar de Pearl Jam com o Vitalogy e depois com o fantástico Yield, a verdade é que este Ten está cheio de grandes músicas.


                    Once
                    Even Flow
                    Alive
                    Why Go
                    Black
                    Jeremy
                    Oceans
                    Porch
                    Garden
                    Deep
                    Release


                    Pelo que tenho ouvido na Antena 3, a reedição vai ter algumas músicas que não estiveram neste primeiro alinhamento do Ten. E pelo que percebi vem com DVD também. Nhamy! O Eddie é lindo. A voz é quente e confortante e linda. As letras fantásticas. E a música, tão 90's! Tão camisa de flanela. Tão Seatle.


                    And now my bitter hands cradle broken glass
                    Of what was everything?
                    All the pictures have all been washed in black, tattooed everything...

                    All the love gone bad turned my world to black
                    Tattooed all I see, all that I am, all I'll be... yeah...
                    Uh huh... uh huh... ooh...

                    I know someday you'll have a beautiful life,
                    I know you'll be a sun in somebody else's sky, but why
                    Why, why can't it be, can't it be mine



                    A grande lição a repetir, I'm still alive.... Parabéns Pearl Jam. Venham muitos mais!
                    O amor é mesmo uma coisa bonita e contagiante.
                    "Assisti" ao início desta relação, às notícias da gravidez e tenho "acompanhado", como ouvinte regular da Antena 3, o que se passa na vida deles. É estranha esta proximidade... e hoje, dia 19, dia do Pai (e não gosto de dias instituídos porque são descriminatórios e porque já vi crianças a chorar a um canto de uma sala de aula por não terem a quem oferecer a prenda do "dia do pai" que fizeram com a professora titular durante todo o dia...), ele fez em directo na rádio a mais bonita declaração de amor que ouvi. E sim, ele tem razão, dizer a alguém que o amamos, sem saber que resposta vamos ouvir, é mais corajoso que saltar de paraquedas. Parabéns pelo vosso primeiro aniversário e pelo vosso bebé e pelo amor. Tão estranho sentir-me inundada por um amor que não é meu.

                    18 de março de 2009

                    Liar

                    Isto anda por aí a correr as Internetes todas há algum tempo. Já vi. Já li. Hoje li o que escreveu a Vera e decidi que era hoje que escrevia a minha lista. Ora, 9 coisas sobre mim, 6 são verdadeiras e 3 são falsas. Vejam lá onde é que eu estou a mentir... e vamos ver quem me conhece um bocadinho...

                    1. Detesto cortar as unhas dos pés, mas não consigo deixar que seja outra pessoa a fazê-lo.
                    2. Adoro ir a sítios diferentes, mas detesto viagens (carro, barco, avião, seja o que for...)
                    3. Já levei pancada de miúdos, no ATL.
                    4. Adoro História e adoro ensinar Literatura, mas detesto gramática e não gostei de dar aulas de Latim.
                    5. Não gosto mesmo nada de cerveja, nem de vinho, nem de pimentos, nem de azeitonas, nem de pepino, nem de grelos, nem de favas...
                    6. Adoro o cheiro das pessoas, inclusivamente, confesso, o meu próprio. A minha almofada anda sempre atrás de mim.
                    7. Durmo com a ursa azul todas as noites, bem agarradinha.
                    8. Já tive a mania que sabia tudo, hoje sei que há coisas em que sou mesmo mesmo muito boa :) (e sei que não sei tudo)
                    9. Vamos lá ver.... a última... Sou incapaz de dizer que não... as poucas vezes que o digo fico sempre com sentimento de culpa...

                    E então? Digam de vossa justiça... :)

                    Coração pequenino



                    Por estes dias vou andar assim... de coração apertado. A passar os dias a tentar pensar em outras coisas, mas a não conseguir. Esta sensação de impotência é castrante. Odeio ser assim. Odeio sentir-me assim.
                    Houve uma vez um rapaz que foi jantar a minha casa em Coimbra. Era meu conhecido, mas amigo da minha colega de casa. A meio do jantar ele virou-se para mim e disse qualquer coisa como "tu vais ser uma boa mãe". Não é um comentário usual, muito menos vindo de uma pessoa que só me conhecia de vista. Perguntei o que ele queria dizer com isso e ele disse-me que eu tomava conta das pessoas, via isso nos pequenos pormenores daquela noite, e que tratava os outros com um jeito maternal.
                    Estranhei. Afinal eu tenho muito mau feitio. É isso que consta por aí nas ruas e não deixa de ser verdade. Mas estranhei fundamentalmente por ser tão verdade, embora a maioria das pessoas não o saiba. Tenho uns instinto protector muito forte. Tomo conta das minhas pessoas e tenho coração de manteiga por trás do mau feitio. E preocupo-me. A minha irmã disse-me uma vez, há uns anos, que eu parecia a nossa mãe. E eu até admito que isto não é normal... não é normal levantar-me a meio da noite a ver se o meu irmão já chegou. Não é normal desesperar porque os meus pais não telefonaram de Madrid à hora marcada... não é normal ligar a TV à espera de notícias de queda de aviões... não é normal que para desviar a atenção de tragédias eu tivesse, nesse dia, descongelado e lavado a arca e o frigorífico. (E não ligaram porque o telemóvel não tinha actualizado a rede e não se lembraram de ir a uma cabine e afinal só atrasaram o telefonema hora e meia, mas a mim pareceu-me uma eternidade!).
                    Tento controlar ao máximo. Sei que sou um pouco maníaca, mas não consigo deixar de me sentir assim. Tive um namorado que dizia que eu o controlava e ele não gostava de ser controlado. Pois eu também não gosto de ser controlada. Dizia-lhe, e era verdade, que não queria saber com quem ele estava nem onde estava, mas apenas que estava bem. Só isso. Poucas pessoas me entendem. Vivo com o medo constante de que algo aconteça. E quando há alguma coisa fora do normal, fora do que é rotineiro, o coração aperta mais.
                    Ele não vem a este blog e eu tão pouco sou pessoa de dizer estas coisas. De mostrar este meu lado maníaco. Mas o brother vai viajar. E o meu coração está apertado. E só vai aliviar quando ele voltar a pôr o pézinho em terras de Portugal outra vez.
                    Passei alguns anos da minha vida a tentar apagar este meu lado. Mas ele continua lá. Faz parte de mim. Aprendi a aceitá-lo e a controlá-lo. É inevitável que eu pense sempre o pior, mesmo quando a opção optimista é mais plausível. Sou assim. É inevitável. E não preciso de muito. Basta um toque. Um toque diz "cheguei e estou vivo". E pronto. É o suficiente para me descansar. Não preciso de conversas nem de relatos de como foi isto ou aquilo. Preciso só de aliviar o peso na alma. Um toque.

                    Walking...

                    As estórias das caminhadas. Já fomos duas vezes, e queira o sr Tempo ajudar e iremos sempre a partir de agora. Faz bem ao corpo e, sobretudo, faz bem à alma.



                    A minha irmã é mais alta, logo tem pernas maiores, logo anda mais depressa. E não, eu ter parado para tirar fotos não teve nada que ver :) ... a sister sempre two steps ahead. :)

                    Já aqui tinha falado no imenso investimento da CM Marinha-Grande nas praias do concelho. Para além da ciclo-via que liga a cidade às praias e as praias entre si, há ainda uns caminhos em madeira pelas dunas. Por isso, o mesmo percuso pode ser feito de duas formas diferentes.


                    Conversa entre irmãs:

                    Ela: as ciclo-vias já vão daqui até ao Sítio (Nazaré).

                    Eu: Tchiii... não sabia.

                    Ela: Se calhar a pé não, mas de bicicleta era fixe de fazer.

                    Eu: Sabes também como era fixe?

                    Ela: Diz...

                    Eu: De carro!

                    17 de março de 2009

                    Esmagando abóboras

                    Só porque o Billy Corgan faz anos hoje. E porque eu gosto. Muito. :)



                    I used to be a little boy
                    So old in my shoes
                    And what I choose is my choice




                    The world is a vampire, sent to drain
                    Secret destroyers, hold you up to the flames
                    And what do I get for my pain?
                    Betrayed desires, and a piece of the game

                    Golden

                    O prometido é devido. Aqui estão eles... os saltos dourados de 9cm. E eu não era uma pessoa muito dada a sapatos, mas desde que comecei a trabalhar aqui tive de começar a ter outros cuidados. Estes sapatos foram a minha maior excentricidade. E eu gosto. :)

                    16 de março de 2009

                    O outro lado do espelho


                    O outro lado do espelho. O lado lunar. O olhar de Medeia. Há uma série de acontecimentos que nos podem fazer passar para o outro lado. Cada um terá os seus. Para uns será mais fácil, outros terão mais auto-controle e conseguirão resistir a mais coisas. Uns serão mais frágeis às vicissitudes, outros serão mais resistentes. Mas, independentemente de pertencermos a um grupo ou a outro, independentemente de estarmos algures entre os dois grupos... independentemente de onde quer que estejamos... independentemente de credos, cores, crenças... independentemente de tudo, todos nós estamos sujeitos a cair.

                    A queda é um dos mitos mais antigos e mais recorrente em mitologias antigas e distantes. O homem está sempre sujeito ao pecado, à perdição, à queda. Não há pessoas virtuosas que não possam deixar de o ser. The dark side of the force... o Bem só existe porque há o Mal que se lhe opõe. E, entre um e outro há muitas grey areas. E todos podemos ir de um extremo ao outro num ápice. Todos podemos matar. Todos somos capazes das maiores barbaridades. Todos somos capazes de ferir de morte. Todos somos capazes de humilhar... todos somos capazes de tudo, se o Universo nos puser nesse sítio. Nesse sítio onde passamos para o outro lado do espelho. Nesse sítio onde os inversos de tocam. Nesse lugar em que o lado solar troca de lugar com o lado lunar. Nesse lugar em que a loucura toma posse. Todos somos Medeia em potência. Vivemos as nossas vidas em calmia, sossegados, com as nossas certezas, com o nosso sistema de valores... até ao dia em que o Mundo se vira de pernas para o ar e somos outra pessoa que é nós. Para Medeia foi a traição do homem que amava, para nós o que será? Não sei. Penso nisso às vezes. Penso no que me faria perder o controle e fazer com que o meu eu do outro lado do espelho tomasse conta da minha vida. Não sei. Todos poderemos imaginar o que seria a nossa reacção em determinada situação, mas não saberemos até estarmos lá.
                    Diz-se que só revelamos o nosso verdadeiro carácter em tempos de crise. Eu concordo. Acho mesmo que só em crise é que somos postos à prova e é nesses momentos que mostramos o nosso verdadeiro eu. É muito fácil sermos boas pessoas quando tudo nos corre de feição. Não é à toa que a maioria das parábolas no Antigo Testamento incluem provas. O problema é que nós não somos santos e falhamos. Cedemos ao nosso dark side demasiadas vezes. Não sabemos dar a outra face e, vai daí, nem sei se deveríamos. A verdade é que não gosto de mim em momentos de crise e não gosto do meu dark side. Enquanto a crise dura consigo ser forte. Domino tudo. Tenho auto controlo. Tenho sentido de humor e consigo persistir. O pior vem depois. Depois, quando tudo passa. Depois, quando atravesso para o lado de lá do espelho. E penso se haverá o dia em que eu não volte.

                    A verdade é que não consigo já seguir sem esta consciência, sem esta certeza deste olhar que me segue. Sem o outro lado do espelho. Não sei se o ter esta consciência me ajuda a evitar que o dark side me invada, se torna tudo mais inevitável.

                    Por enquanto são coisas pequenas. Pequenos desabafos. Pequenas perdas de controle. Pequenos acessos de mau feitio. Pequenos descontrolos hormonais. Sessões de choro compulsivo. Irritabilidade. Discussões por coisa nenhuma. Pequenas coisas. Pequenas coisas que me fazem pensar no que seria preciso para dar o salto e não mais voltar. O que me faria cometer uma loucura. À partida não seria um amor por qualquer homem. Não sou pessoa disso, pelo menos, acho que não. Talvez um amor maternal. Não sei. Mas penso nisso. Já sei que vai haver quem me vá recriminar por pensar em coisas que não são positivas e por pensar em coisas que não acontecem e por "pensar demais". Mas quando vejo o meu lado negro a apoderar-se de mim. Quando vejo como consigo magoar pessoas que não têm culpa. Quando vejo estas coisas, quando penso nos mitos, quando vejo notícias estranhas na tv, reflicto. Tento olhar para mim e perceber se eu seria capaz da mesma coisa. E percebo que todos somos capazes de loucura. Todos somos capazes de sair de nós e sermos o outro nós. Todos caminhamos sob o olhar de Medeia.

                    15 de março de 2009

                    Fascina-me este olhar... como uma presença segunda, terceira, outra. Este olhar que me fixa, que me prende e que não me deixa prosseguir. Um olhar penetrante, revelador. Um olhar que queima, que gela, que me dilacera. Aquela presença, aquela omnipresença. Só o saber que está lá me incomoda. Só o sentir o seu olhar a queimar-me na nuca já me arrepia, já me queima, já me vence. Preferiria prosseguir sem saber que me olha. Preferiria não saber que me persegue, que me segue, que me segue o rastro, que é eu. Preferiria seguir na ignorância da sua presença em mim. Medo de ser tomada por este olhar. Medo de ser dominada por algo mais forte e mais avassalador que eu e que sou eu. O outro eu. Aquele. Aquela Ana que me vê, que me espreita, que me queima com o olhar e que ameaça, assim só com a sua presença. Que ri. Ri por me ver impassível, ri por me ver manietada, e ri porque sabe que no dia que quiser ser ela o eu, será. Sem oposição. Inevitavelmente será eu. E o saber disso assusta e fascina. Assusta porque ela é destruidora, implacável, louca e fascina porque é destruidora, implacável, louca... Vence-me pelo cansaço da perseguição... pelo cansaço do caminho... pela dor da caminhada... pela dor do olhar... vence-me apenas por existir.
                    Por enquanto persisto e sigo. Ainda eu. Ainda eu. Ainda eu. Sigo. Com aquele olhar no meu encalço. Sempre. Presente. Zombatório. Olho para trás e parece-me que vejo ainda uma réstia de sorriso e sinto um calafrio. E sigo. Até ao dia...

                    13 de março de 2009

                    Sob o olhar de Medeia


                    Sob o olhar de Medeia é um romance escrito como poesia que nos transporta até a um idílico bucolismo ao estilo de Hesíodo ou de Virgílio.

                    Fiama Hasse Pais Brandão, com este seu romance de estreia, presta justa homenagem a uma antiguidade clássica que esteve sempre presente na sua obra poética. Desde a primeira linha até à última, não conseguimos deixar de seguir este caminho que nos leva da luz ao fogo da renovação interior.

                    Medeia é filha de Eetes, da Cólquida, neta do sol e sobrinha da feiticeira Circe. A imagem que perpassa pela tradição é a de uma feiticeira que, por encantos mágicos, ajuda os Argonautas e conquistar o velo de ouro. Jasão promete-lhe casamento em troca da sua ajuda. Todas as atitudes posteriores de Medeia, se bem que não sejam desculpadas, são pelo menos explicadas pelo perjúrio de Jasão.

                    Os rigores amorosos conduzem as personagens ao limite do racional. O Amor é igualmente o rei que comanda e subordina os mais nobres valores do homem. E Medeia é escrava dele, ela que “mede a grandeza do ódio pela grandeza do amor.” Medeia que se entregou a Jasão, que por ele matou o irmão e traiu o pai, para mais tarde ser por ele traída. Todas as versões do mito se têm centrado em transmitir toda a face irracional, obscura, inconsciente da personagem, visualizar a deformação que o ultraje de Jasão e o exacerbado desejo de vingança infligiram na mens de Medeia, numa palavra, denotar a sua profunda e anti-estóica subordinação às paixões.

                    Mas, ao contrário do que à primeira vista poderíamos pensar, não encontramos esta Medeia no romance de Fiama. Em Sob o olhar de Medeia, encontramos a Medeia da Cólquida, entregue ao quotidiano campestre e feliz. Mas a outra, aquela Medeia louca de paixão, essa está à espreita.
                    O romance está dividido em nove partes: luz, terra, ar, água, exílio, vida, saudade, morte e fogo. No primeiro capítulo, a luz surge como elemento ligado à felicidade. Aqui nos é relatada a infância feliz de Marta, vivida no quarto materno feito de luz e amor. Mas a luz também é capaz de distorcer a realidade, uma vez que cria mais sombras. E é do outro lado da luz, nas trevas, que Marta vai viver o resto do seu tempo naquela casa desde o dia em que a exilam do quarto materno. É este o seu primeiro exílio e Marta vive-o intensamente e com profundo desgosto. Porque sente a dor intensíssima, a de ser amada e depois expulsa e desterrada. Este tema do exílio vai ser uma constante ao longo de todo o romance, até porque este “desterro” marca definitivamente a vida de Marta.

                    Acompanhamos Marta no seu dia-a-dia com o caseiro, os seus trabalhos e os seus dias. Uma vida tranquila, cheia de paz, num bucolismo rodeado do Bem, que existe em oposição ao Mal, Lázaro “portador de fuga (…) e de morte”. Um Mal necessário para que exista o Bem.

                    À medida que Marta cresce, cresce o seu amor à terra a que se misturam os mitos contados pelo seu Ulisses. O mestre que lhe narra as aventuras de Ulisses e depois narrará as de Jasão e dos Argonautas confunde-se no imaginário infantil de Marta com a própria personagem. No fundo do espelho, onde Marta revive as histórias contadas, Ulisses confunde-se com o professor, o mito confunde-se com a vida, como será ao longo de toda a sua vida. “Foi o espraiar da água, ali nas leiras de batata e de couve, e as leituras quase diárias dos clássicos, de Homero a Apolónio ou Hesíodo, que a puseram a meditar no Cosmos, em termos de vácuo e de caos, ela, que antes tanto se empenhava na matéria viva, no mundo e na sua repartição abundante ou suficiente entre todos os homens.”

                    “Amar a terra é aceitar o duro poder e a benevolência de toda a Natureza, os relâmpagos destruidores, ventos e águas agrestes e, da mesma maneira, vento e água pacificados e benfazejos para o homem, noutro momento.” O dia-a-dia de Marta é feito de deslumbramento com o ciclo da vida e com o Bem, que não depende de nenhum deus católico, mas do que de melhor está dentro de cada um e na Natureza. Deslumbra-se com as tarefas rotineiras da quinta como com o amigo Jesus, que dá a sua vida para salvar um pássaro. Com estes amigos, cujos nomes falam, Marta aprende a reconhecer o mal (os lenhadores), o perdão (que dará mais tarde a Lázaro) e o sacrifício (Jesus). E Marta sorve todos estes ensinamentos e constrói a sua própria religião, feita de amor aos outros e à Natureza.

                    “A forma de Marta se exprimir sobre as coisas ir-se-á modificando com a idade, dizendo o que viveu, na infância e juventude, com um modo de dizer posterior, feito da memória dos factos e da memória de outros pensamentos, imiscuídos, sem destrinça, nos factos. Como poderia distinguir um mito e a sua própria vida, quando, por vezes, episódios e símbolos comuns os confundiam?” Porque os pomares da quinta se confundem com os “pomares sem tempo” da Cólquida, porque o seu mestre é o Ulisses de Penélope, porque a saída do quarto materno foi um exílio, porque as ovelhas da quinta, sob o olhar de Apolo, pareciam de ouro, como as da mítica Medeia, porque vida e sonho se confundem e são um só.

                    Marta vive um tempo mítico, vive no isolamento da quinta que encerra em si todo o conhecimento do mundo. Como os antigos, Marta “imaginava o passado e o futuro, ambos fundidos na mesma imagem da cor e da claridade, ambos perdidos e recuperados, na mesma memória, constantemente recomeçada com a passagem dos anos, conforme concluiu depois.”

                    A felicidade encontra-a assim. Na certeza das pequenas coisas que a maioria das pessoas tem como garantidas. Do seu primeiro exílio, o involuntário, segue-se um outro, voluntário e pensado. A sua entrega aos trabalhos na quinta e às histórias da avó ou do professor não são mais que mais um exílio, uma fuga dos sentimentos que lhe atormentam a alma. Mas é neste exílio que ela encontra a paz do amor à Natureza, encontra companheiros de vida, os bucólicos e os cultos, mediados e aproximados por Marta, uma vez que, para ela, são mundos complementares, o da Natureza e o dos mitos. “Faltava-lhe pensar a relação fundamental do trabalho em comum, do afecto partilhado, das surpresas, entre o nascer e o florir, o madurar, o colher, o secar, o morrer, o renascer, o reflorir, o sempre.” E é sob o olhar de Medeia que Marta vive na sua Cólquida. “Cólquida a que Marta se sente, cada vez mais, pertencer, partilhando na capacidade mágica de uma Medeia marcada pela leitura do mito na modernidade (…): Medeia, a sacerdotisa de um tempo original, mítico e sagrado, uníssono com a natureza. Tempo em que a palavra é mágica e criadora do real, em que a palavra tem o poder de convocar o que nomeia.”


                    Este é, de facto, um romance que reflecte uma ideologia, um modo de pensar, que sendo actual é também clássica. O campo é um exílio como o é para os exilados de Roma (que têm de sair da urbe e viver no campo) e é lá que Marta reconhece a verdade e a simplicidade da vida, sob o olhar de Medeia, que espreita, como o nosso outro lado, louco, está sempre connosco.

                    12 de março de 2009

                    Das coincidências e da amizade

                    Há coisas que não se explicam. Há coisas que não se convertem em palavras. Há coisas que nos escapam à explicação, à racionalização. Há coisas que são assim e pronto. Como o gostar de pessoas. Por mais que tentemos, não o explicamos, sentimo-lo. Até porque as pessoas são para serem vividas, experimentadas, sentidas e não explicadas.
                    Em relação aos namorados tenho uma explicação muito relacionada com o cheiro. O olfacto é o meu sentido mais apurado e tenho plena consciência do cheiro das pessoas. Não falo dos maus cheiros, mas do cheiro a sério. :) Aquele que se sente no pescoço... e sei que me sinto atraída por homens cujo cheiro me atrai. Apaixono-me pelo pacote cheiro+sentido de humor+ inteligência. :)
                    Nas amizades é diferente. As compatibilidades são mais difíceis de explicar. Até porque não gosto de yes-people, de pessoas que concordam comigo em tudo. Os meus amigos são pessoas com quem posso falar, conversar e discutir sem que haja amuos. Pessoas que me põem à prova, que me desafiam e me tiram desta confort zone em que insisto em me pôr. Pessoas que me dizem o que preciso de ouvir e não o que quero ouvir.
                    Já falei aqui dos meus amigos algumas vezes. E quando olho para o meu leque de amigos surpreendo-me com os caminhos que nos juntaram. Com as coincidências que nos levaram ao mesmo sítio e que nos juntaram para sempre. Penso em como as coisas podiam ter sido muito diferentes, em como podíamos ter sido amigos antes, em como somos tão diferentes que até podíamos nunca ter falado na vida. Penso em como fui buscar os meus amigos a lugares tão remotos e como todos partilham características fantásticas: inteligência, sentido de humor e independência. Gosto de pessoas assim e gosto que o Universo as ponha no meu caminho e a gostar de mim também.
                    Pronto... aqui está um post parvo dedicado a pessoas importantes e ao Universo e às suas coincidências. Quanto mais vivo, mais percebo que tudo acontece quando tem de acontecer, quando estamos prontos. E as pessoas certas aparecem quando estamos prontos para elas. E ficam para a vida. E lembro-me de repente de um filme ainda mais parvo que eu, Instantes decisivos, com a Gwyneth Paltrow. Às vezes questionamos o caminho onde estamos, os pormenores minúsculos que nos puseram neste caminho e não noutro, e não pensamos que o Universo nos pode estar a poupar de algo muito pior.
                    Parvoíces à parte... gostava de poder sair daqui e poder estar numa esplanada com as minhas pessoas. Pessoal, vai uma caracolada? (caracóis não têm colesterol, pois não?)

                    11 de março de 2009

                    DIETA! :(


                    Estou oficialmente de dieta. O colesterol a 250 assim o ordena.
                    O primeiro passo foi deixar de comer no refeitório da empresa. A Eurest é uma empresa conceituada, mas aqui o serviço é péssimo. Até o peixe grelhado vem embebido em gordura. Horrível. Passei a ir almoçar ao Pingo Doce que tem sopas frescas e muita variedade de pratos a preços acessíveis. O grande inconveniente é ter de almoçar sempre sozinha (ou como diram algumas pessoas, na minha companhia). Mas até me faz bem sair daqui e almoçar num sítio onde não tenho que ver as pessoas de quem não gosto aqui do sítio.
                    O calor veio ajudar. Bebo mais água, o que para mim é mesmo um grande sacrifício. E comecei a ir para as famosas caminhadas com a sister.
                    Mas há coisas muito difíceis. No fim-de-semana dizia ao meu irmão que não comesse do fiambre de frango, que era para mim, porque estava de dieta. Havia lá fiambre de porco para ele. No dia seguinte, Domingo e dia de almoço de família, quando me vê encher a taça de gelado straciatella, diz, oportunamente: "não estavas de dieta?".
                    Há coisas que não consigo mesmo controlar. Como comer gelado de sobremesa quando toda a gente come. Ou recusar a fatia de bolo de aniversário. Ou não comer o chocolate que eu sei que está na prateleira...
                    Por isso, porque há coisas às quais eu sei que não vou resistir nem que tente, porque quanto mais penso que não como mais chocolate mais me apetece comer chocolate, nas outras coisas sou absolutamente radical. Não como manteiga, nem queijo, nem fiambre que não seja de frango. Não como enchidos, nada de morcelas nem chouriças nem presunto... Não como batatas fritas (ok... hoje comi 3...). Não como nada que não seja grelhado ou cozido. Não como molhos, nem natas, nem nada dessas coisas. E não me custa ser assim radical, sabendo que de vez em quando cedo ao pecado chocolate ou gelado. Será que compensa?
                    A maioria das pessoas não entende e acha-me parva. Mas daqui a dois meses, nas próximas análises, já vemos se resulta. Não o faço para perder peso, porque esse não se altera, graças aos comprimidos azuis (sim, são azuis) que tenho de tomar para o hipotiróidismo todos os dias de manhã, em jejum. Aliás, a maior culpa desta situação toda é mesmo da tiróide que não funciona e que não produz hormonas daquelas que destroem o colesterol (será que posso processar a tiróide por não querer trabalhar e por me ter feito engordar 30 kg?)! Estamos, eu e o que resta da minha força de vontade, na luta contra o colesterol e contra a tiróide preguiçosa.
                    Por isso... vejam-me a comer carne grelhada com salada. Vejam-me a comer sopa e salada de frutas. Vejam-me a comer peixe cozido que é das coisas de que menos gosto. Vejam-me a lanchar iogurte de soja. Vejam-me a beber menos leite de vaca. Vejam-me a recusar uma chouriça assada ou morcela (estou a salivar). Vejam-me a beber água de empreitada. Mas não me peçam para me divorciar definitivamente do chocolate... isso nunca!

                    Ulysses

                    Não é a minha personagem mitológica preferida. Longe disso. O dos mil artifícios. Uma inteligência fora do comum que tanto servia para enganar os inimigos, como para enganar a esposa, Penélope. Cromo! Mas gosto muito desta música dos Franz Ferdinand, que vêm a Paredes de Coura este ano (este ano está cheio de grandes concertos, mas, se tiver companhia, eu era mais Killers e Duffy... no mesmo dia, deve ser bombástico). Ulysses.


                    My Ulysses
                    My Ulysses
                    Now, what you want now boy?
                    So sinister
                    So sinister
                    But last night was wild
                    Whats the matter there?
                    Feeling kinda anxious?
                    That hot blood grow cold

                    Yeah everyone, everybody knows it
                    Yeah everyone, everybody knows it
                    Everybody knows aah

                    LA LA LA LA LA
                    Ulysses
                    I found a new way
                    Well I found a new way baby [x2]

                    No, no
                    Then suddenly you know
                    You're never going home

                    You're never [x6]
                    You're never going home
                    You're not Ulysses
                    Baby
                    No, la la la la,
                    You're not Ulysses
                    Baby
                    No, la la la la

                    Balanço

                    1 ano de GM.

                    O medo. Uma nova vida, um novo caminho que se abria. A difícil decisão de deixar o Ensino definitivamente para trás. Doeu muito, mas era já inevitável. 1 ano depois, conquistei o meu lugar... agarrei o meu espaço. Comecei de baixo e dei já alguns passos para cima, já subi alguns degraus. Tenho o grande inconveniente de nunca ter hora para sair. Já saí daqui à 1h da manhã e no outro dia às 9h estava aqui, como sempre. Não foram muitos dias assim, apenas os necessários.

                    Os colegas são porreiros. Um ambiente jovem e descontraído. Não há diferenças de tratamento entre administrativas e engenheiros. Temos quase todos a mesma idade e toda a gente se dá bem. Há casos à parte. Há a mimada que chora muito e faz birra e diz que não quer fazer determinado trabalho. Chora até lhe tirarem o trabalho que não quer fazer e receber um aumento. Depois há a outra croma que sai sempre às 18h. E é engraçado como nem são os patrões que olham para ela de lado, mas nós. Nós os colegas de trabalho que ficam além das 18h porque estão cheios de trabalho e ela que se vai embora indiferente a isso. O advogado que tem a minha idade e que é super picuinhas e tem a mania que ser tratado como doutor. Eu chamo-lhe dr. no dia em que ele me tratar por dra. (e sim, eu tenho assim mau feitio!).

                    Os patrões. O big boss demorou a aprender, mas já sabe o meu nome. Já me chamou jeitosa e é basicamente porreiro. A esposa é um caso estranho... estava cá há dois dias e ela disse que não gostava de mim porque tinha uma deficiência na fala... mas que, em último caso, passavam as chamadas para a minha colega da recepção da BT. (?!?!?!). O filho... acho que nunca me ralhou. Se calhar porque tinha consciência que me pagava mal. É super intimidador e olhem que não sou pessoa de se deixar intimidar. Ele consegue sempre levar-nos a dizer que sim a tudo. Acho que é porque elogia. Se ele me ralhasse, eu ganhava força e dizia o que pensava... mas como, quando vou falar com ele, ele só me elogia... eu vejo as palavras fugirem. Foi ele que recusou que eu desse aulas na Escola Superior de Educação, mas também foi ele quem disse logo que sim ao aumento que pedi.

                    Sempre que alguém não quer ou não consegue fazer alguma coisa, sobra para mim. (No resultado do choro, parte do trabalho da mimada do sítio passou para mim). Não me importo. Ainda estou na fase de mostrar o que valho para poder crescer mais. Talvez no próximo ano receba o suficiente para arrendar um apartement :) working on a dream.
                    No fim de contas, é um balanço positivo. Fiz bem em deixar o Ensino.

                    10 de março de 2009

                    Beautiful Day

                    Jerusalem

                    Uma música com um óptimo ritmo... daquelas que me deixam bem disposta logo de manhã... como a Jo'anna, um bom ritmo com uma letra daquelas bem potentes, de alerta. Já estava na hora de esta história acabar. Mas... aproveitem o sol e dancem. E se não puderem fazer nada pelas guerras, pela fome, pela pobreza, pelo outro que sofre ao nosso lado, pelo menos não se queixem tanto do país e da vida que vivem... olhem... abram os olhos e vejam o Mundo que nos rodeia.




                    Rebuild the temple and the crown of glory
                    Years gone by, about sixty
                    Burn in the oven in this century
                    And the gas tried to choke, but it couldn't choke me
                    I will not lie down, I will not fall asleep

                    They come overseas, yes they're trying to be free
                    Erase the demons out of our memory
                    Change your name and your identity
                    Afraid of the truth and our dark history
                    Why is everybody always chasing we
                    Cut off the roots of your family tree
                    Don't you know that's not the way to be

                    [chorus]

                    Caught up in these ways, and the worlds gone craze
                    Don't you know it's just a phase
                    Case of the Simon says
                    If I forget the truth then my words won't penetrate
                    Babylon burning in the place, can't see through the haze
                    Chop down all of them dirty ways,
                    That's the price that you pay for selling lies to the youth
                    No way, not ok, oh no way, not ok, hey
                    Aint no one gonna break my stride
                    Aint no one gonna pull me down
                    Oh no, I got to keep on moving
                    Stay alive

                    9 de março de 2009

                    .....

                    Talvez seja porque tem qualquer coisa de conto de fadas ver uma miúda maria-rapaz, sem jeito para nada, menina do papá a conseguir conquistar o rapaz mais bonito e com mais estilo do sítio. Acho que aos 10 ou 11 anos todas as raparigas se vêem assim... ou pelo menos eu via-me assim... sem as roupas da moda, sem as frases da moda, sem o cabelo da moda... nada de mim estava na moda... e ver a Babe conquistar o Johny Castle... uma miúda suspira e acredita. Talvez... não sei... sei que ainda hoje mexe comigo...

                    Tesourinho deprimente

                    Sem mais delongas, aqui vai ele...

                    " 16 de Maio de 1991
                    Querido Diário:
                    Interrompo-te a história* porque acaba hoje (infelizmente) a telenovela de que eu mais gosto e gostarei por toda a minha vida:
                    Tieta!
                    Vou-te contar como foi: é a história de uma rapariga que é escurraçada de Santana do Agreste e que passados vinte anos ela volta para se vingar. Mas a história dá tantas voltas que ela acaba por se apaixonar mais por Santana do Agreste.
                    A vinda dela vai dar felicidade a muita gente, muita muita muita gente querido diário, muita mesmo.
                    Personagens da novela:
                    1. Tieta (Betty Faria , 1ª principal)
                    2. Ascânio (Reginaldo Faria, 2º principal)
                    3. Tonha (Yoná Magalhães, 3ª principal)
                    4. Jairo (Elias Gleiser)
                    5. Maria Imaculada (Juliana Braga)
                    6. Perpétua (Joana Froom)
                    7. Leonora (namorada do Ascânio)"

                    Isto continua, mas achei por bem deixar aqui só este excerto de tesourinho deprimente. Sem edição, sem correcções... desculpem os erros gramaticais e sintácticos, mas era assim o reino de Ianita aos 11 anos. Os meus diários enchem-me de vergonha, mas não consigo ver-me livre deles. Fazem parte de mim e fazem-me lembrar de muitas coisas que já esqueci... fazem-me olhar para trás, para mim, para quem era e para quem queria ser. Aquele asterisco lá em cima era para explicar que aqui a je inventava histórias e as escrevia no diário. Coisas de miúda. Mas até gosto de ver que mesmo em tenra idade já pensava em metáforas e já via sentidos para lá do sentido primeiro, mesmo em algo tão básico como uma novela. E sim, eu gostava de novelas e gosto ainda. Mas das boas, dos novelões, tipo as novelas do Manoel Carlos, Por amor ou Páginas da vida. Ou o Clone... A próxima vítima... Roque Santeiro... novelas que nos prendiam ao ecrã.... Deixo aqui para a posteridade, o genérico de Tieta do Agreste, aquela que seria a minha novela preferida de todos os tempos. LOL (viram como é perigoso dizermos coisas destas? Falar em toda a vida, quando temos ainda tanta vida pela frente e não sabemos o que aí vem?)





                    (e ficaram alguns pregões da novela... lembro-me do "Timóteo!!" e da mulher de branco... e da tadita da Perpétua que guardava o "marido" num frasco de vidro! Muito bom...)

                    8 de março de 2009

                    She's like the wind

                    Já escrevi sobre este filme, aqui. Tenho visto aí pela blogosfera que mais me pessoas me acompanham nesta panca... não sei explicar. Adoro isto. Adoro as músicas. Adoro os actores. Adoro tudo... embora reconheça que não é um grande filme, mas... caramba! É lindo... Hoje fica esta música... é tudo o que me apetece ouvir...

                    Dia da Mulher



                    Obrigada à Fénix... (embora, confesso, eu não goste mesmo nada deste dia... parece que nos diminui e nos põe no mesmo pacote do resto das coisas que têm dia, como as árvores e os animais... parece-me ser um dia dado com condescendência... e eu não gosto de condescendências... ainda assim, em homenagem às mulheres que gostam deste dia... aqui fica... e nunca deixem que vos tratem com condescendência. Vivam este dia como uma festa e em conjunto com os vossos homens...)

                    O rapaz do pijama às riscas



                    "Childhood is measured out by sounds and smells and sights, before the dark hour of reason grows." John Betjeman

                    Acho que todos queríamos que essa dark hour nunca chegasse.

                    7 de março de 2009

                    S. Pedro de Moel



                    "Trata-se de uma praia com ambiente jovem e animado, onde a elegância é uma constante. São Pedro de Moel situa-se no concelho da Marinha Grande, entre o Pinhal do Rei e o Oceano Atlântico.
                    Muito procurada quer de Verão, quer de Inverno, apresenta um mar propício e ideal para a prática do surf e body-board. As rochas e a alternância das marés ditam actividades de observação ou de mergulho e pesca em águas límpidas. Para quem aprecia águas mais calmas sugere-se um mergulho na piscina de água salgada, irresistível, ali junto à praia, ou as caminhadas - pelo Pinhal do Rei e junto às margens do Ribeiro de Moel.
                    Durante o Inverno, da praça Afonso Lopes Viera ou do miradouro ao fundo da marginal pode-se assistir a um entusiástico espectáculo de equilíbrio e perícia: surfistas nas suas pranchas protagonizam momentos de verdadeira bravura em perseguição das ondas.
                    Propostas para um fim-de-semana durante todo o ano, dias repletos de luz, uma mescla de estilo atlântico e o tom quente mediterrânico. Venha dar um mergulho na Natureza
                    ."
                    Foi isto que fizemos hoje... eu e a minha sister... um mergulho na Natureza. Usufruimos do grande investimento que a CM Marinha-Grande fez em ciclo-vias e em percursos pedonais em madeira através das dunas e da praia. Fantástico. São quilómetros a perder de vista, embora nós só tenhamos andado uma horita, mas em passo largo! O mar estava revolto, o vento forte refrescava-nos... Foi fantástico!

                    6 de março de 2009

                    Run

                    Comecei a semana muito bem. Muito bem mesmo. Sem tristeza pelo fim das férias, sem tristeza pelo recomeço do trabalho... mas termino a semana mal. Muito mal. E nem sei dizer bem porquê. A verdade é que notei que o Universo andava apostado em me mandar abaixo. Pequenas coisas, pequenos acontecimentos, algumas palavras, pequenas coisas que, no conjunto da semana me fazem estar muito mal.
                    Desde a falta da minha tv, a algumas pessoas aqui no work que me andam a tentar melgar o juízo mais que o normal... desde o herpes (que me dói horrivelmente), a um totó que hoje estava apostado em me fazer chegar tarde ao trabalho apenas e só porque andava a 20 e quando dava para ultrapassar punha-se no meio da estrada e acelerava!!! Desde o sono em demasia, mesmo quando ontem adormeci sem querer em frente à tv não eram ainda 22h, à conversa do meu pai sobre o que faria com o dinheiro do euromilhões de hoje, relato ao pormenor durante mais de meia hora e parou porque lhe implorei que parasse... mal abri o outlook hoje de manhã tinha meia dúzia de mails da contabilidade a pedir um trabalho que ainda não fiz porque aqui o sr engenheiro director de obra ainda não me entregou os dados. Ainda ontem lhos pedi e ele riu-se...
                    Até o momento alto de ontem, o ter companhia ao almoço, se revelou uma valente treta. A companhia foi óptima, mas depois a cabra aqui do sítio fez birra porque se sentia excluída porque tínhamos ido almoçar sem ela.... Grrrrrr!!! E não, não a posso mandar passear porque ela vai chorar pro patrão e depois quem se lixa somos nós. Fim-de-semana onde estás? Alegria de 2ª feira para onde foste?
                    Estou cansada. E tenho pena que o Universo tenha conseguido botar-me abaixo. Estou triste, desmotivada, terrivelmente cansada...

                    Deixo-vos uma música da Amy Macdonald. Espero que gostem e que dê para desculpar a falta de humor e de tudo... Porque, apesar de tudo, persistimos. Para além da dor, para além de tudo, temos de persistir e nunca parar... e pelo menos andar quando já não conseguimos correr. Amy Macdonald, "Run".


                    Will you tell me when your lines are fading?
                    Cos I can’t see
                    I can’t see no more

                    Will you tell me when the song stops playing?
                    Cos I can’t hear
                    I can’t hear no more

                    She said “I don’t know what you’re living for”
                    She said “I don’t know what you’re living for at all”
                    He said “I don’t know what you’re living for”
                    He said “I don’t know what you’re living for at all”

                    But I will run until my feet no longer run no more
                    And I will kiss until my lips no longer feel no more
                    And I will laugh until my heart it aches
                    And I will love until my heart it breaks
                    And I will love until there’s nothing more to live for


                    Will you tell me when the fighting’s over?
                    Cos I can’t take
                    I can’t take no more

                    Will you tell me the day is done?
                    Cos I can’t run
                    I can’t run no more


                    She said “I don’t know what you did it for”
                    She said “I don’t know what you did it for at all”

                    But I will run until my feet no longer run no more
                    And I will kiss until my lips no longer feel no more
                    And I will laugh until my heart it aches
                    And I will love until my heart it breaks
                    And I will love until there’s nothing more to live for

                    And I will laugh until my heart it aches
                    And I will love until my heart it breaks
                    And I will love until there’s nothing more to live for

                    5 de março de 2009

                    Boobies

                    Two and a half men. Habituei-me a ver e agora não passo sem eles, às 20h40 na dois, de segunda a sexta. Na 4ªfeira foi brutalíssimo. O Charlie como uma espécie de Avô Cantigas, o Charlie Waffles. Claro que tudo serve para o engate e o episódio é uma delícia. A melhor cena é mesmo a do concerto de Charlie Waffles ao vivo, completamente bêbedo e a cantar a alto e bom som "I like boobies! I like boobies 'cause I'm a big boy now!!" LOL

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                    Impossível passar ao lado disto. Vi no blog do Pedro Ribeiro e no do Bruno Nogueira... Porra que chorei! Magnífico anúncio da coca-cola!!



                    Estás aqui para seres feliz!!

                    Jo'anna

                    Ouvi hoje de manhã que o cantor Eddy Grant faz anos hoje. Vinha de carro a caminho do trabalho e sorri imediatamente. Há muito que pensava colocar aqui uma música dele, mas lembrava-me sempre quando ia a conduzir e depois nunca mais me lembrava. É hoje o dia.

                    11º ano. Tínhamos uma professora de inglês, a Adelaide, que era, no mínimo, uma pessoa sui generis. Abria a porta da sala de aula ao 1º toque. Nós entrávamos em balbúrdia, santávamo-nos, tirávamos os livros e cadernos sempre em balbúrdia. Ela sentada à secretária com as mãos cruzadas em cima do livro de ponto. Nós continuávamos na balbúrdia. Mal soava o 2º toque ela dizia qualquer coisa como "So, Good mouning" (muito parecido à pronúncia do polícia do Allô!Allô!) e começava a aula. Ela tinha um tom de voz muito baixo. Além de ser baixa, a voz dela era também estridente. A pronúncia inglesa imperceptível e era também molhada... era corajoso quem ousava sentar-se na primeira fila... Ninguém percebia nada do que ela dizia, mas a verdade é que ela se esforçava para ser "fixe". Nunca conseguiu, como é óbvio, não sei bem porquê, mas...

                    Mas, nesta tentativa de chegar a nós e de ter estratégias diversificadas, eis que ela leva o rádio para uma das aulas. Andávamos a falar das colónias inglesas, África do Sul e o Apartheid e surge o Gimme Hope Jo'anna. Foi a loucura na aula. Ainda me lembro que foi o Bruno quem liderou a rebelião que constava, apenas e só, numa coreografia simples. Todos cantávamos a letra da música e, no refrão, levantávamos os braços e berrávamos no "Jo'anna". Ela ria, ria, ria, ria! Uma loucura! Ainda conseguimos convencê-la a repetir a música e nós repetimos a brincadeira e ela estava deliciada. E olhem que ela repetir alguma coisa era obra, ela que era uma control freak. Uma vez apanhei boleia com ela. Ia com a Sofia para Leiria para as explicações de grego. Bem... ela passou a viagem com coisas do tipo "agora meto a terceira..." LOL


                    É lógico que esta música é fantástica pela letra, pela sonoridade e principalmente pela mensagem. Mas a mim lembra-me sempre a Adelaide Botas e o seu "So, good mouning" e, sempre que ouço, levanto os braços no Jo'anna do refrão... quando vou no carro então é a loucura total! Deixo-vos o sr Eddy Grant, que faz anos hoje, e a sua Jo'anna. Gimme hope...




                    Sublinho estas palavras... história parva à parte... sublinho isto...

                    Well Jo'anna she runs a country
                    She runs in Durban and the Transvaal
                    She makes a few of her people happy, oh
                    She don't care about the rest at all
                    She's got a system they call apartheid
                    It keeps a brother in a subjection
                    But maybe pressure can make Jo'anna see
                    How everybody could a live as one


                    (Chorus:)
                    Gimme hope, Jo'anna
                    Hope, Jo'anna
                    Gimme hope, Jo'anna
                    'Fore the morning come
                    Gimme hope, Jo'anna
                    Hope, Jo'anna
                    Hope before the morning come


                    I hear she make all the golden money
                    To buy new weapons, any shape of guns
                    While every mother in black Soweto fears
                    The killing of another son
                    Sneakin' across all the neighbours' borders
                    Now and again having little fun
                    She doesn't care if the fun and games she play
                    Is dang'rous to ev'ryone

                    (Chorus)

                    She's got supporters in high up places
                    Who turn their heads to the city sun
                    Jo'anna give them the fancy money
                    Oh to tempt anyone who'd come
                    She even knows how to swing opinion
                    In every magazine and the journals
                    For every bad move that this Jo'anna makes
                    They got a good explanation

                    (Chorus)

                    Even the preacher who works for Jesus
                    The Archbishop who's a peaceful man
                    Together say that the freedom fighters
                    Will overcome the very strong
                    I wanna know if you're blind Jo'anna
                    If you wanna hear the sound of drums
                    Can't you see that the tide is turning
                    Oh don't make me wait till the morning come


                    (Chorus)

                    Vá!! Todos juntos!! Levantem os braços... para um lado e para o outro... toca a abanar os braços... Gimme hope JO'ANNA, hope JO'ANNA, before the morning comes...

                    4 de março de 2009

                    Instantes dramáticos

                    Foi há um ano.
                    Semana horribilis na família Francisco. Tudo começou com a Sara que fez uma ruptura muscular que lhe custou mais de um mês de treinos, quando estava no pico da forma. Depois foi o pai do meu cunhado que deixou umas brasas acesas que começaram a arder e que por pouco não causaram uma explosão, até porque havia uma botija de gás ali bem perto. O meu cunhado, quando foi limpar os estragos, levou com uma cena em cima que lhe ia arrancando o nariz. A minha mãe caiu no quintal e andou à rasca das costas semanas.

                    Faz exactamente hoje um ano que eu, vinha das aulas na Marinha-Grande, atropelei o Micael. Estava um carro parado na estrada, em sentido contrário. Uma senhora, no meio da estrada, debruçada a falar com a condutora desse carro. A estrada era estreita. Lembro-me perfeitamente de pensar "raios da mulher, sente um carro a vir e nem se arreda". Reduzi e tive de me desviar da senhora pela berma. Até que... de trás do carro parado, aparece o Micael a correr... travei, mas o embate foi inevitável. Saí do carro a tempo de impedir que a mãe (a senhora que estava na estrada a falar com a senhora do carro) o agarrasse. Vem gente. Cham-se ambulância e INEM e tudo e mais alguma coisa. Eu, calma, consegui evitar que lhe mexessem. Ele fala. Ele está vivo. Vem a ambulância e ele parece mesmo estar bem. Queixa-se da pernita, mas os bombeiros põe-lhe o colarinho e têm todos os cuidados. Só neste momento é que consigo pensar que tenho de chamar alguém. Estava sem dinheiro no telemóvel. Mandei sms ao meu irmão para que ele ligasse à minha mãe para ela me ligar. A minha mãe liga e eu só consigo dizer que tive um acidente, que atropelei um miúdo e que o carro está bem. Era o carro do meu pai... e eu só conseguia dizer que o carro estava bem, que o carro estava mesmo bem... a minha mãe perguntava por mim e eu dizia que o carro estava bem. Consegui explicar onde estava e poucos minutos depois os meus pais estavam lá. Neste momento, estava descontrolada. Chorava. Diziam-me que ele estava bem... mas eu pensava no que podia ter sido, via-o ainda em frente ao carro e toda eu tremia. Vem a polícia e eu sopro no balão. Era meio-dia e eu disse, com o que restava de sentido de humor, "só se acusar iogurte com cereais!".... A polícia vê que não havia marcas de travagem. A mãe do Micael confirma que eu ia devagar e que ele atravessou a estrada a correr, vindo de trás do carro.
                    Ficou tudo bem. Fui para casa. Comi qualquer coisa. Tomei um banho quente e tomei um ansiolítico. Era o que me faltava, neste momento, ainda ter um ataque epiléptico! Arranjei-me e tive de pegar no carro outra vez. Era dia de entrevista. Fui à entrevista. Não sei bem como. Via miúdos em frente ao carro, sempre. Ao fim do dia os pais do Micael foram a minha casa. Vinham do Hospital. Vi-o. Tinha um hematoma na testa e a perna dorida. Não partiu nada. Estava tudo bem. Ele tão pequeno, 6 anos... tão frágil... e eu que tenho a mania de acelerar... quando penso na coincidência de coisas que conspiraram para que eu não o tivesse matado. Porque se eu não tenho reduzido por estar a mãe dele no meio da estrada a falar com a senhora, se o telemóvel tem tocado e eu tenho desviado o olhar, se... no meio do azar, sorte. Porque a mãe viu e nunca em nenhum momento me responsabilizou. Porque naquele dia À noite, quando lá foram, ainda perguntaram pelo carro e se era preciso pagarem alguma coisa. No meio do susto, ainda tiveram de se preocupar se o filho deles tinha causado algum estrago no carro.... está lá uma leve mossa que ninguém viu, à excepção do meu pai, mas ficou lá. Não a mandámos arranjar e os pais foram para casa com a única preocupação que deviam ter, o Micael.
                    A vida é feita de pequenos instantes. Instantes, centésimos de segundos que mudam a nossa vida para sempre. O Micael ficou bem, mas eu nunca mais fui a mesma. Não o esqueço e nunca deixei de o ver., ali, em frente ao carro, como um boneco. Eu a 30 e ele era um boneco. A 50, matava-o. E esta consciência assusta-me.
                    Dois dias depois, liga-me uma amiga que me diz que conseguiu ficar colocada. Meia hora depois ligam-me do lugar onde tinha ido à entrevista a dizerem-me que tinha sido seleccionada. Começava na 2ª-feira. Aqui onde estou.
                    Na sexta-feira, dormia ainda quando toca o telefone. Era o meu irmão, tinha tido um acidente. Rebentou o carro. Lá vou acordar os meus pais... o stress.
                    Não me lembro de uma semana assim. Espero que não mais se repita. Tantas coisas más... tantas coisas a todos nós e ao mesmo tempo. Parecia que o Universo nos perseguia...
                    Já tive semanas difíceis. Lembro a semana dos meus 20 anos, por exemplo. Mas nunca nada assim nos tinha acontecido. Com coisas tão graves e a tantos de nós.
                    A consciência de que podemos ter os olhos abertos, podemos ter mil e um cuidados, podemos fazer de tudo para que tudo corra bem, mas que não poderemos nunca ter o controlo. Os instantes são tão pequenos... tão significantemente pequenos que se tornam assustadores. Tivémos de aprender a viver com isto... com os nossos fantasmas. Com tudo o que aconteceu nessa semana. Não esqueço que, 3 horas depois do atropelamento, corria boato que o Micael tinha morrido, atropelado por um condutor em excesso de velocidade que tinha fugido. Nem forças tive para sentir raiva. "Matarem" assim uma criança, difamarem assim uma pessoa... mas para eles não é nada... falar não custa, não é?
                    Peço desculpas pela extensão do post... mas olhei para o relógio e vi-me na mesma hora de há um ano atrás... e as palavras sairam em catadupa. Inevitáveis. Irreversíveis como os acontecimentos. O suspiro de alívio... porque aquele instante podia ter acabado com muitas vidas, irreversivelmente. Não acabou connosco, mas mudou-nos para sempre.