18 de dezembro de 2008

Era uma vez

Era uma vez...
A histórias infantis começam assim, com um era uma vez. Foi uma vez. Era uma vez. Será uma vez? Não sei. Como começam as histórias dos adultos? É uma vez... ou também com um era uma vez?
Era uma vez eu. E agora? Que continuidade posso dar a esta história? Princípio desenvolvimento e fim? E termino com um felizes para sempre? As histórias que começam com o era uma vez acabam com viveram felizes para sempre. E se eu quiser que a história não tenha fim? Como escritora tenho esse poder. Posso fazer e desfazer e voltar a fazer e ninguém tem nada com isso. E como personagem? A personagem não pode fazer nada, está refém das palavras que lhe escrevem para dizer e das coisas que lhe escrevem para fazer. Não pode fugir da malha da escrita. Não pode mudar de livro, nem de história, nem de destino.
Era uma vez eu. E eu? A verdade é que, com o passar do tempo, vamos tendo menos tempo para os era uma vez. E porquê? Porque sim... porque temos demasiada bagagem, porque os outros livros por onde andámos não nos deram um felizes para sempre e fizeram-nos dizer e fazer coisas que não queríamos e que jurámos não repetir. E por isso, porque jurámos não repetir, recusamo-nos entrar em livros novos, mesmo desses que começam com o era uma vez. E ficamos à espera... à espera de um novo livro... o livro perfeito, onde possamos ser personagem principal e mudar o nosso destino e mandar no escritor e nas outras personagens. Mas só porque os outros era uma vez nos desiludiram, será que temos o direito de excluir todos os era uma vez? Chama-se a isso aprender, mas não é justo. Não é justo para nós, nem para os escritores, nem para as outras personagens. Devíamos ter direito e tempo para o era uma vez. Mais um e mais um e mais um e mais um e mais um, até ao era uma vez...
Era uma vez ou duas ou três, não importa quantas. Se em miúdos não nos cansávamos, porque teremos de nos cansar agora? Pode ser que este era uma vez seja diferente. E pode ser que não seja. Há sempre o risco... mas dizia a Natália Correia, naquele poema, que viver é isto... o sentido da vida está neste instante da descida, no arrepio na barriga, no aperto do coração, na falta de sentido das coisas, no risco... Sair do conforto da página em branco e arriscar umas quantas palavras...
Era uma vez ou duas ou três, não importa quantas. Já não espero o livro perfeito, mas o livro imperfeito que encaixe na minha própria imperfeição...
Era uma vez ou duas ou três, não importa quantas.
Era uma vez ou duas ou três, não importa quantas...
Quero ver o céu de Katmandu...

11 comentários:

Lita disse...

Gostei muito do texto. Nas nossas vidas existem milhares de "era uma vez", somos uma personagem multifacetada... quem escreve o livro? Gosto de acreditar que, pelo menos 50% dele é da nossa autoria...

Ianita disse...

Então, somos talvez um livro de contos... A minha mãe gosta de livros de contos. Se calhar é isso mesmo que somos... um livro de contos... e quando chegamos ao fim de uma história, ganhamos fôlego nas páginas em branco antes do início da história seguinte... e vamos embarcando de história em história... até ao felizes para sempre?

Não sei se escrevemos 50%... acho que escrevemos menos... se formos contar as pessoas que nos dominam com as suas vontades, a nossa responsabilidade na escrita das nossas histórias é quase nenhuma... mas temos de agarrar o pouco que temos e seguir... principalmente, enganar o medo e seguir...

Kisses

IandU disse...

:P

Andas mesmo com vontade de ver o céu do Katmandu :P

Na nossa escrita podemos até começar pelo fim e terminar no início. Simplesmente... porque é nossa*

Ianita disse...

Mas a história não é só nossa, não a escrevemos sozinhos... vamos tendo colaboradores... pessoas que partilham da escrita da nossa história e que nem sempre partilham da nossa visão...

Lembro-me de um livro escrito a dois, se não me engano entre o Mário de Carvalho e a Clara Pinto Correia... a única condição era não matarem o herói... cada um escrevia um capítulo e escrevia o que queria e como queria... depois vinha o outro e escrevia o que queria, dando continuidade...

Mas mesmo esta escrita física, quando feita a dois, precisa de regras, de ideias comuns e ainda assim acaba... A outra escrita... a da vida... essa tem muitos colaboradores e nem todos querem o que queremos... se assim fosse, não era difícil alcançar o nosso feliz para sempre, pois não?

Kisses :)

Brigitte disse...

Fico deliciada em vir aqui!!!
Adorei!
Beijos
:)

IandU disse...

Ianita,
e continua a não ser difícil de atingir a felicidade para sempre. Na escrita somos quem queremos e como queremos. Agora se for uma transposição da vida real, ai sim, já estou de acordo contigo ;)

Beijinhos

Ianita disse...

Brigite: Pois, obrigada...

Iandu: eu nunca sou inocente nas coisas que escrevo e digo :)

Kisses

IandU disse...

Também não disse que o eras ;)

Ianita disse...

Pois não... tens razão :)

Kiss

Verónica disse...

O teu céu e as tuas estrelas vão encontrar-te ;)

Kisses

Ianita disse...

Se calhar é melhor deixar a luz acesa...e não esperar sentada...