3 de abril de 2010

Visita Pascal

A vida tem coisas estranhas. É feita de ritos estranhos. Mais antigos que a nossa memória. Sem explicação.

A vida é assim porque sim. Fazem-se as coisas assim porque sim. Porque sempre foi assim. Desde tempos ancestrais.

Hoje todos os meus vizinhos cortaram a relva dos seus jardins. Todos. Antigamente limpavam-se as casas na semana antes da Páscoa. Não era no Verão, mas nessa semana. Lavava-se o chão com sabão amarelo. Caiavam-se as casas. Para receber o Padre que ia abençoar as casas e os seus moradores.

A casa era caiada e o chão lavado com sabão amarelo. As meninas vestiam os vestidos da comunhão, os rapazes vestiam a roupa de Domingo. E assim, todos a cheirar a sabão amarelo, abriam a porta ao padre. Que levava o folar e o cristo cheio de cuspo dos beijos dos meninos e das meninas e deixava a água benta pelo chão e pelas paredes.

Só quem não vivia sob as leis da Igreja não tinha direito a visita.

Maria Ceciliana foi uma dessas pessoas que nunca teve direito a visita pascal. Vivia a sua vida mundana de todos os dias como os outros. Trabalhava de sol a sol como os outros. Caiava a casa como os outros. Lavava o chão com sabão amarelo como os outros. Só não recebia a visita do padre como os outros. Na casa de Maria Ceciliana nunca nenhum padre pôs o pé. Poderia ser contaminado pela vida pecaminosa de mulher solteira com filhos, como era a de Maria Ceciliana.

Não entendiam os padres uma mulher que não queria pai para os filhos. Não além da sua contribuição biológica. Não é que não tivesse tentado. Contam-se histórias. Se calhar não passam de rumores, mas conta-se que por duas vezes tentou viver com um homem (ou dois, um de cada vez). Mas nunca durou muito tempo. Imaginem que a tresloucada da Maria Ceciliana não gostava que lhe contassem os tostões por que tanto trabalhava nem que, depois de cama comida e roupa lavada, ainda lhe dessem porrada. Incompreensível de facto. E com esta grande falta de tolerância pelos costumes e pelo que é direito, nunca teve o direito a uma visita pascal.

A filha mais velha, Maria de Nazaré, não teve futuro melhor que o da mãe. Envolveu-se com um senhor que lhe terá prometido este Mundo e o outro, mas que só lhe deu uma filha que ela haveria de criar sozinha. E, por isso, porque não tinha um pai que obrigasse o namorado a casar-se com ela, também nunca teve direito a visita pascal.

Mesmo depois, quando encontrou alguém com quem partilhar a vida. Alguém com quem partilhar as responsabilidades da educação da filha. Nem aí teve direito a visita pascal. O senhor era separado.

História interessante esta também. O senhor era casado e tinha dois filhos. E um dia, ou uma noite, fingiu que ia para o trabalho (trabalhava por turnos o José) e ficou de guarda à casa. Viu entrar um senhor que queria fazer companhia à sua mulher. Cheiínho de boas intenções. Entrou e deu porrada em todos quantos viu. Não matou a mulher porque não teve oportunidade. Porque o outro o agarrou e ela se pôs a milhas com pouco mais que a roupa do corpo. É que nesta altura o homem traído podia matar a mulher e não perdia com isso nem a liberdade nem o direito à visita pascal.

Mas como não a matou, apenas pediu o divórcio, eis que deixou de ter direito à visita pascal. Juntou-se com Maria de Nazaré. Ele com dois filhos e ela com uma filha. Haveriam de ter mais quatro, sendo que o primeiro morreu muito novo.

Morreu também o filho mais velho dele. Numa corrida de bicicletas. E a filha dela. Que viria a reconciliar a família com a santíssima madre igreja.

Era levada da breca a Maria Otília. Muito bonita. Muito prendada. Muito religiosa. Conta-se que conversava horas a fio com o novo padre da paróquia. O que tinha vindo para ajudar o Prior. Ele era pouco mais velho que ela. Conversavam muito. Riam muito. Mas, ainda assim, nenhum dos dois padres ia a casa dela. Mesmo com as fachadas caiadas e o chão lavado com sabão amarelo.

A não ser quando ela adoeceu. Ninguém sabe exactamente de quê. Uma moça tão cheia de vida. Tão inteligente e trabalhadora. A poucos meses do casamento. Cai na cama. Conta-se que sempre com humor. Sempre de sorriso na cara. Quando ela ficou de cama, o padre mais novo passou a ir visitá-la a casa. Ia quase todos os dias.

Quando foram as festas do Santo Amaro, o Prior proibiu os foguetes. E explicou na missa, que em respeito pela Maria Otília, que estava muito mal, nesse ano não ia haver foguetes no Santo Amaro... a quinta onde viviam ficava mesmo por trás da capela do santo e achou-se por bem não incomodar a doente. Houve muito quem tivesse rogado pragas, por ter sido a pior festa de sempre por causa da doente e do Prior que proibiu os foguetes.

Mas não houve foguetes. Não se incomodou a doente e nem o santo Amaro a salvou da morte a poucas semanas do casamento.

A partir daqui tudo foi diferente. Maria de Nazaré e José chamaram o padre a sua casa para se confessarem. Não queriam confessar-se na Igreja. Tinha de ser em casa. Conta-se que foram horas. Primeiro um. Depois o outro.

Depois disto, passou a haver visita pascal.



E o rito renasceu. Caiaram-se as paredes. E lavava-se o chão com mais afinco. Roupas novas para receber o padre e dar beijos na figura de Cristo. Missa ao Domingo. Confissão quando o padre dizia que tinha de ser.

E aquela família. Feita de filhos de um e do outro e dos dois. Feita de filhos só da mãe e de filhos dos dois e de filhos só do pai. Feita dos ciúmes doentios do José, por causa da outra que lhe fugiu sem que ele a pudesse matar. Feita de a Maria de Nazaré não querer ser independente como a mãe - ou de não querer ser falada como a mãe. Feita de trabalho. Feita depois também de visitas pascais e de segredos que se enterraram para sempre no dia daquela confissão.

Hoje em dia já ninguém vai caiar as casas nem lavar o chão com sabão amarelo por causa da visita pascal. Ninguém dá beijos ao Cristo. Ninguém quer água benta a escorrer pelas paredes. Ninguém quer o padre dentro de casa nem dentro da vida. Já ninguém quer a visita pascal.

10 comentários:

Rui da Bica disse...

Gostei muito da narrativa, Ianita.

...hoje já ninguém quer estas e outras coisas,... por estas e por muitas outras coisas.

Bom Domingo.
.

Neni disse...

Gostei bastante. Muito bem escrito.
:)

Anjo De Cor disse...

A tradição já não é o que era... e parece que se perdeu alguma coisa mas tb se ganhou alguma coisa.. ;)

Vera Angélico disse...

(Isto é muito difícil de comentar...)

Eu tenho trauma à visita pascal. Lembro-me perfeitamente de ter medo que se chegasse a Páscoa, porque detestava os beijos ao Cristo.

Excelente história.

;)

Beijos.

Rony disse...

Mais uma linda homenagem às mulheres da família, porque é delas que reza a história...!

ianita disse...

Rui: é estranho ver como as coisas mudam... algo a que se dava tanta importância, hoje é insignificante...

Neni: :)

Anjo: neste caso, ainda bem...

Rony: ad perpetuam memoriam... porque me orgulho muito delas... desta bisavó Maria Ceciliana e da minha avó Nazaré. :) E é delas que reza a minha história sim :)

ianita disse...

Vera: para mim era um frete... tinha de ser... a casa arrumada... a roupa nova... tudo pronto para a visita pascal. Felizmente perdeu-se o hábito...

LP disse...

Há posts que não consigo comentar.

Para mim, Páscoa e Natal só são datas especiais porque estou com aqueles de quem gosto. Quando um deles faltar, a magia irá se perder, e a minha vontade também.

Beijinhos

NI disse...

Magnífico post.

Beijo

ianita disse...

LP: sou exactamente assim... são datas que valem pelas pessoas com quem as partilhamos :)

Ni: obrigada :)