19 de outubro de 2008

Chuva de estrelas

Olho-me no espelho e não me reconheço naquela cara que me olha.
Quem me conhecerá realmente se eu mesma não me conheço? Ninguém. Ou todos? Mas conhecemos realmente alguém? Anos e anos de convivência diária e será que conhecemos essa pessoa com quem partilhamos tanto de nós? Achamos que sim, mas então, anos depois, descobrimos que era mentira tudo o que julgávamos verdade e começamos a pôr em causa todos os juízos de valor que alguma vez fizemos. Ou então vemo-nos a parar o carro na berma de uma estrada deserta e a sair do carro e simplesmente admirar uma noite de Verão sob um céu estrelado. Nunca fizemos isto e isto não sou eu. Ou serei? Está uma noite lindíssima e há que aproveitar o momento. O agora. Não pensar nas consequências nem no amanhã. E debaixo de uma chuva de estrelas amámo-nos ali num descampado, com algumas pedras a ferir os joelhos, as costas, os braços, a cabeça, a alma... mas o momento é perfeito assim na soma das suas imperfeições. Estrelas cadentes a coroar aquele momento que foge à banalidade que era a sua vida.
Quem era esta pessoa que parou o carro naquela berma de estrada, naquela quente noite de Verão? Indiferente ao local, aos carros que poderiam passar, aos incautos animais humanos que por ali poderiam andar? Não era eu. Não me reconheço nesse eu. Mas porém era o meu nome que ele chamava, era a mim que ele sorria, era a mim que chamava louca, era a mim que amava. Era eu que ali estava e não me sentia eu. E era mais eu do que nunca.
Quem sou eu que não me reconheço, nestes 40 anos de vida? Se sou a soma das minhas partes, o acumular de todos os meus actos, o que faz de mim essa noite de Verão de há anos atrás? Terei sido eu quem mais me mentiu? Eu? Enganei-me a mim própria? Serei aquela que na imaginação da noite parou aquele carro de desejo na berma da estrada?
Hoje, ao olhar o espelho, é esse momento difuso do meu passado que vejo repetido vezes sem conta à minha frente. E aquele homem que ainda dorme na minha cama já não é o mesmo daquela noite. Olho-o, mas não o reconheço. Assim como me olho e não me reconheço. E mais uma vez regresso àquela noite em que parei o carro... naquela noite em que fui mais eu do que nunca!
(mais uma vez, aqui)

10 comentários:

Anita :) disse...

triste...principalmente a parte de não se reconhecer a ela própria!

Ianita disse...

Acontece a muitas pessoas.

Viverem uma vida e, de repente, não saberem quem são.

Ou acharem que são de determinada forma e depois haver uma atitude, um momento, que desconstrói tudo.

É uma história.

Kiss

Brigitte disse...

Uma historia triste, mas profunda e bem realista.
uma beijoca

Ianita disse...

Ainda estou a aperfeiçoar isto de escrever sem usar as palavras bonitas que outros disseram...

Kisses

Verónica disse...

Sonho e realidade (sonhada!?).
A busca do eu.
O passado e o futuro.
Tudo se condensa naquela noite, naquele momento único, sob a chuva de estrelas.

Ianita disse...

Epah... descrito assim até parece melhor do que realmente é! :)

Kiss

Verónica disse...

Foi assim que o senti.
Parece que, sobre o conto, paira uma névoa que o distorce ligeiramente e torna ambíguo.

Talvez seja muita filosofia, mas hoje deu-me para isto :))

Ianita disse...

Muito à frente! :)

A ideia era que o leitor não identificasse o conto comigo e com a minha vida. Já no outro tinha tentado isso e foi propositadamente que não dei sexo à criança. Neste, porque era um "eu" feminino que contava a história, o risco era maior.

Tentei que houvesse uma névoa de incerteza. Aquela noite, vivida ou sonhada? Que consequências pode um único momento ter na vida de uma pessoa? Quem sou "eu"?

A tentativa é verdadeira. Não estava certa de ter conseguido. Se te inquietou, fico contente.

kiss :)

Isandes disse...

mt fixe...

Ianita disse...

:)