14 de agosto de 2009

Pedro

Olho-o como nunca o tinha olhado. Vejo-o ali deitado no chão e choro. Não tenho coragem de o acordar. Dorme tão descansado, tão tranquilo. Em casa não consigo que durma e ali ele dorme tão profundamente que assusta.

E assusta muito. Não sei o que fazer. Vou deitar-me com ele um pouco. Não está aqui ninguém. Posso. Enroscar o meu corpo no dele para que se sinta protegido. Pelo menos hoje. Um pouco. Só hoje...

Lembro outros dias. Dias de meninice. Dias de divertimento. Dias de lhe preparar os pratos preferidos. Dias de ele devorar tudo. Dias de ele sair para a rua tão feliz. Dias de andar aos pássaros de fisga em riste. Dias de correrias pela rua. Dias de chegar a casa todo cheio de nódoas, todo sujo, desgrenhado, como se não passasse de um miúdo de rua e não tivesse família. Dias de trepar às árvores e cair delas. Dias de levar uns tabefes por ser respondão. Dias de felicidade vividos em família.

E hoje está aqui. No chão do cemitério, a dormir perto do pai. Não sei como veio aqui parar. Deixei-o a dormir na cama. Tranquei as portas. Mas o meu Pedro sempre foi esperto e arranjou forma de se escapulir.

A morte do meu António foi difícil para todos, mas mais para o Pedro. O menino do papá. Passaram já alguns meses, mas ainda hoje, quando não sei dele, sei que está aqui. A dormir perto do pai. A falar com o pai.

É só com ele que ele fala. Não fala a mais ninguém. O médico diz que isto passa com o tempo, mas eu tenho medo. Vejo aqui o meu filho e ao mesmo tempo não é o meu filho. Já não corre, já não ri, já não vai aos pássaros, já não brinca, já não se suja como dantes. Suja-se só deste chão de cemitério. Já não se suja de felicidade...

O Pedro fala com o pai. Muito. E fala consigo mesmo. Não fala comigo, nem com os amigos, nem com ninguém. As pessoas primeiro tinham pena dele. Agora olham-no como se fosse deficiente. O Pedro não é deficiente! O Pedro... O Pedro está só perdido.

As pessoas vêem-no a falar sozinho na rua e riem. E ele já não ri. Ele só fala... "Pedro não vás por aí. Pedro isso não se faz. Pedro sai daí. Pedro que sujo estás." Fala como se repetisse vozes que ouve dentro dele. E o médico diz que isto lhe passa.

Tenho medo. Já não é o meu Pedro que aqui está. Para onde será que ele foi? Será mais ele quando está aqui, tão sereno, a dormir no chão do cemitério?

Isto não é justo. Um momento. Uma fracção de segundo. Um acidente. Uma morte. E as nossas vidas mudaram para sempre. Sim. Porque eu sei que isto não vai passar... o meu filho foi com o pai. Quem aqui está já não é o Pedro... será um outro Pedro no corpo do meu Pedro...

Vou aconchegar-me a ele... só hoje. Só um bocadinho. Para ele sentir, seja ele quem for, que o vou amar sempre.

9 comentários:

VG disse...

Lindo texto :)

Sim, pensar que em poucos segundos pode acontecer uma tragédia que vai afectar tantas pessoas...

ianita disse...

VG: instantes decisivos... :)

Obrigada!

lilipat2008 disse...

Já pensaste em distender esta tua criatividade e começar a escrever contos? Podias até publicar em livro...:)

bjs

IandU disse...

Gostei ;)

Mas não se faz, quando chego a um blog que julgo pessoal, não conto encontrar textos destes. Por momentos fiquei preocupado...

Beijinhos

ianita disse...

Lilipat: tenho muito pouco jeito para inventar coisas... e então para escrever descrições, daquelas para encher, menos ainda... :D

Iandu: LOL eu de vez em quando escrevo destas coisas estranhas ;)

chi dura vince disse...

Olhe não sei se lhe dê os parabéns, ou se lhe bata (lol)
Vim aqui por acidente, ao seu blog, e o seu texto emocionou-me, correu-me uma lágrima. Pensei que a estória fosse verdadeira.

Cmps

Paulo

ianita disse...

chi: quem disse que não era? :)

Kisses

chi dura vince disse...

os outros posts...

ianita disse...

ochi: eu disse que não tenho jeito para inventar histórias. E não tenho.

Não quer dizer que isto seja verdade, que não é. Mas normalmente escrevo inspirada por algo real. Este Pedro existe. Tem quase 50 anos. Quis contar a história dele, porque o vi na rua... e lembrei de ser miúda e de o ver, igual... e lembrei o que a minha mãe me contava dele. De como ficou assim...

Decidi contar a história. À minha maneira. De um ponto de vista diferente. À minha vontade.

Mas o Pedro, como a Soraia, como a Maria Judite (personagens de outras histórias, que se encontram linkadas ali na barra lateral) são reais. Muito reais.

Kisses