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3 de abril de 2010

Visita Pascal

A vida tem coisas estranhas. É feita de ritos estranhos. Mais antigos que a nossa memória. Sem explicação.

A vida é assim porque sim. Fazem-se as coisas assim porque sim. Porque sempre foi assim. Desde tempos ancestrais.

Hoje todos os meus vizinhos cortaram a relva dos seus jardins. Todos. Antigamente limpavam-se as casas na semana antes da Páscoa. Não era no Verão, mas nessa semana. Lavava-se o chão com sabão amarelo. Caiavam-se as casas. Para receber o Padre que ia abençoar as casas e os seus moradores.

A casa era caiada e o chão lavado com sabão amarelo. As meninas vestiam os vestidos da comunhão, os rapazes vestiam a roupa de Domingo. E assim, todos a cheirar a sabão amarelo, abriam a porta ao padre. Que levava o folar e o cristo cheio de cuspo dos beijos dos meninos e das meninas e deixava a água benta pelo chão e pelas paredes.

Só quem não vivia sob as leis da Igreja não tinha direito a visita.

Maria Ceciliana foi uma dessas pessoas que nunca teve direito a visita pascal. Vivia a sua vida mundana de todos os dias como os outros. Trabalhava de sol a sol como os outros. Caiava a casa como os outros. Lavava o chão com sabão amarelo como os outros. Só não recebia a visita do padre como os outros. Na casa de Maria Ceciliana nunca nenhum padre pôs o pé. Poderia ser contaminado pela vida pecaminosa de mulher solteira com filhos, como era a de Maria Ceciliana.

Não entendiam os padres uma mulher que não queria pai para os filhos. Não além da sua contribuição biológica. Não é que não tivesse tentado. Contam-se histórias. Se calhar não passam de rumores, mas conta-se que por duas vezes tentou viver com um homem (ou dois, um de cada vez). Mas nunca durou muito tempo. Imaginem que a tresloucada da Maria Ceciliana não gostava que lhe contassem os tostões por que tanto trabalhava nem que, depois de cama comida e roupa lavada, ainda lhe dessem porrada. Incompreensível de facto. E com esta grande falta de tolerância pelos costumes e pelo que é direito, nunca teve o direito a uma visita pascal.

A filha mais velha, Maria de Nazaré, não teve futuro melhor que o da mãe. Envolveu-se com um senhor que lhe terá prometido este Mundo e o outro, mas que só lhe deu uma filha que ela haveria de criar sozinha. E, por isso, porque não tinha um pai que obrigasse o namorado a casar-se com ela, também nunca teve direito a visita pascal.

Mesmo depois, quando encontrou alguém com quem partilhar a vida. Alguém com quem partilhar as responsabilidades da educação da filha. Nem aí teve direito a visita pascal. O senhor era separado.

História interessante esta também. O senhor era casado e tinha dois filhos. E um dia, ou uma noite, fingiu que ia para o trabalho (trabalhava por turnos o José) e ficou de guarda à casa. Viu entrar um senhor que queria fazer companhia à sua mulher. Cheiínho de boas intenções. Entrou e deu porrada em todos quantos viu. Não matou a mulher porque não teve oportunidade. Porque o outro o agarrou e ela se pôs a milhas com pouco mais que a roupa do corpo. É que nesta altura o homem traído podia matar a mulher e não perdia com isso nem a liberdade nem o direito à visita pascal.

Mas como não a matou, apenas pediu o divórcio, eis que deixou de ter direito à visita pascal. Juntou-se com Maria de Nazaré. Ele com dois filhos e ela com uma filha. Haveriam de ter mais quatro, sendo que o primeiro morreu muito novo.

Morreu também o filho mais velho dele. Numa corrida de bicicletas. E a filha dela. Que viria a reconciliar a família com a santíssima madre igreja.

Era levada da breca a Maria Otília. Muito bonita. Muito prendada. Muito religiosa. Conta-se que conversava horas a fio com o novo padre da paróquia. O que tinha vindo para ajudar o Prior. Ele era pouco mais velho que ela. Conversavam muito. Riam muito. Mas, ainda assim, nenhum dos dois padres ia a casa dela. Mesmo com as fachadas caiadas e o chão lavado com sabão amarelo.

A não ser quando ela adoeceu. Ninguém sabe exactamente de quê. Uma moça tão cheia de vida. Tão inteligente e trabalhadora. A poucos meses do casamento. Cai na cama. Conta-se que sempre com humor. Sempre de sorriso na cara. Quando ela ficou de cama, o padre mais novo passou a ir visitá-la a casa. Ia quase todos os dias.

Quando foram as festas do Santo Amaro, o Prior proibiu os foguetes. E explicou na missa, que em respeito pela Maria Otília, que estava muito mal, nesse ano não ia haver foguetes no Santo Amaro... a quinta onde viviam ficava mesmo por trás da capela do santo e achou-se por bem não incomodar a doente. Houve muito quem tivesse rogado pragas, por ter sido a pior festa de sempre por causa da doente e do Prior que proibiu os foguetes.

Mas não houve foguetes. Não se incomodou a doente e nem o santo Amaro a salvou da morte a poucas semanas do casamento.

A partir daqui tudo foi diferente. Maria de Nazaré e José chamaram o padre a sua casa para se confessarem. Não queriam confessar-se na Igreja. Tinha de ser em casa. Conta-se que foram horas. Primeiro um. Depois o outro.

Depois disto, passou a haver visita pascal.



E o rito renasceu. Caiaram-se as paredes. E lavava-se o chão com mais afinco. Roupas novas para receber o padre e dar beijos na figura de Cristo. Missa ao Domingo. Confissão quando o padre dizia que tinha de ser.

E aquela família. Feita de filhos de um e do outro e dos dois. Feita de filhos só da mãe e de filhos dos dois e de filhos só do pai. Feita dos ciúmes doentios do José, por causa da outra que lhe fugiu sem que ele a pudesse matar. Feita de a Maria de Nazaré não querer ser independente como a mãe - ou de não querer ser falada como a mãe. Feita de trabalho. Feita depois também de visitas pascais e de segredos que se enterraram para sempre no dia daquela confissão.

Hoje em dia já ninguém vai caiar as casas nem lavar o chão com sabão amarelo por causa da visita pascal. Ninguém dá beijos ao Cristo. Ninguém quer água benta a escorrer pelas paredes. Ninguém quer o padre dentro de casa nem dentro da vida. Já ninguém quer a visita pascal.

20 de novembro de 2009

Alceste

O Amor.

O amor é um sentimento complexo. Não o sei pôr em palavras. Sei senti-lo. Sei como fico quando vejo o meu homem. Sei como o meu coração bate como se quisesse sair do peito. Sei como o meu sangue ferve nas minhas veias. Sei esses clichés todos de romance de cordel. Clichés muito verdadeiros. Clichés que soam a cliché… clichés que sabem a cliché… mas que são sentidos… reais… quase palpáveis.

O dormir acordado e o viver a dormir. A respiração que pára a cada toque. Os sentidos apurados ao máximo. O toque. O cheiro. O gosto. A voz. O olhar. Toda eu sou ele. Toda eu respiro ele. Toda eu vibro com ele. Eu sou ele e ele é eu. Arrepio na espinha quando o sinto olhar-me. Rubor quando o sinto tocar-me levemente no fundo das costas.

A mão na mão. O olhar no olhar. Os lábios nos lábios. A voz na voz. Eu e ele. Um só.

O amor feito de desejo, de respeito, de companheirismo, de entrega, de vontade, de construção, de loucura e de pés no chão… de voos rasantes e de passeios calmos… de conversas profundas e de risos… de serões no sofá… de tantas pequenas coisas… de tantas grandes coisas…

Duas pessoas. Um amor. Um mais um é um. Ou talvez fôssemos metades antes de nos encontrarmos. Talvez fôssemos metades e nos tivéssemos completado no amor. O amor fez-me mais completa. Não voltaria a ser completa sem ele. Não voltaria a ser eu sem ele. Agora que sei o que é estar com ele. Agora que sei o que é tê-lo. Agora que sei o que é sentir e viver o amor em plenitude. Eu sou eu com ele. Sem ele não seria mais que uma sombra de mim.

Quando se vive um amor assim pensa-se que se é eterno. Pensa-se que o amor é eterno e que nós seremos eternos com ele. Ficaremos para sempre. Em amor.

Os anos passam, o amor fortalece-se. Vêm os filhos. O amor gera uma família. Uma família construída e vivida em amor. O amor multiplica-se. Cresce. Evolui. E quando antes pensávamos que não podíamos amar mais, eis que sim… podemos amar mais. E amamos mais e mais e mais e mais e mais…

Mas a vida não é perfeita. Não podemos ter o que tanta gente quer e não tem sem contrapartidas. Ninguém vive em cor-de-rosa. Ninguém vive em perfeição, em idílio… uma vida inteira.

E quanto é uma vida inteira? Quanto tempo dura uma vida inteira? 20 anos? 40 anos? 100 anos? O que vale mais? Uma vida plena de 30 anos ou uma vida sobrevivida durante 100 anos?

Eu sinto que vivi mais que muitas pessoas com o triplo da minha idade. Tive o privilégio de amar e ser amada. Tive o privilégio de poder viver o meu amor. Tive o privilégio de ser feliz. Talvez demasiado feliz… os deuses não gostam quando os humanos vivem um Paraíso na Terra. Não gostam e trocam-nos as voltas.

Ele ia morrer. A sentença estava dada. A esperança não era nenhuma. Ele ia morrer. A não ser que alguém desse a vida por ele. A não ser que alguém tomasse o lugar dele na embarcação. A não ser que outra pessoa levasse o óbolo ao barqueiro e embarcasse em nome dele. A não ser que outra pessoa povoasse os Elísios. A não ser que outra pessoa o amasse mais que à própria vida e morresse por ele.

Eu vou morrer por ele. Eu amo-o mais que à minha própria vida. Eu amo-o mais que tudo. Por tudo o que vivemos, por tudo o que somos e fomos juntos… pelo amor que nos une ainda… eu vou morrer por ele.

A decisão não foi difícil de tomar. Foi simples. Rápida. Indiscutível. Porque a morte dele seria sempre a minha morte. Assim morro só eu.

Estava cheia de certezas. Sabia que era a coisa certa a ser feita. Mas hoje, quando a hora se aproxima, não deixo de sentir revolta. Sim… revolta… raiva… medo.

Não compreendo como é que nenhum dos meus sogros deu o pescoço ao machado pelo filho. Não compreendo como é que uma mãe não dá a vida pelo filho. Não compreendo como é que ela, tendo essa possibilidade, não o salva. Por que não o salva e não nos salva… porque se fosse ela a morrer, nós poderíamos continuar a viver o nosso amor. Por que não pode ela morrer e salvar-nos? Que egoísmo é esse que a impede de morrer pelo seu filho?

Não a entendo. Não entendo. Não entendo por que é que não podemos simplesmente viver. Sermos felizes. Sermos amor.

E ele… ele que aceitou o meu sacrifício. Ele que aceitou a minha vida pela dele. Ele que não se importa de carregar o peso da minha morte nos seus ombros. Ele que prefere viver, a morrer comigo.

Quando estamos bem e felizes… quando o amor é perfeito e idílico e tudo corre bem…não pomos nada em causa. Nem a nossa vida, nem o nosso amor. Se o amor é perfeito, por que se poderá pôr em causa? Não pode. É vivido com a máxima intensidade. Com todo o ardor. E não paramos para pensar. A razão não manda nada quando se trata de amor. Nada. Nada de nada. O amor é impulso. O amor é salto em precipício. O amor é queda livre. O amor é entrega. O amor não tem reservas… nem “mas”… nem condições…

E por isso, naquele dia, naquele momento, foi o meu amor que falou e não a minha razão. A minha razão não existia. Existia o meu amor. Só o meu amor. E o meu amor não podia suportar a perda. O meu amor não poderia nunca suportar… e não pensou se ele faria o mesmo por mim. Não pensou se ele estaria disposto a morrer por mim. Não perguntou se a intensidade do amor dele correspondia à do meu.

E se antes era altruísta e amava por amar e porque queria amar e gostava de amar e não esperava nada em troca… hoje sinto desconforto. Porque antes não havia a certeza do mesmo amor do outro lado, mas havia a dúvida. E dúvida, nestes casos, conforta-nos. Dá-nos alento. Dá-nos o podermos sonhar que do outro lado é igual. Porque há margem para erro, mas também há margem para certeza. Não perguntamos, porque não queremos saber. Não queremos saber quantas vezes já disseram “amo-te” a outras pessoas… não queremos saber da vida antes, porque a vida antes não existe e não pode existir. E assim, na nossa cabeça, o nosso amor é perfeito.

Estranho como, quando a razão não tem nada que ver com o amor, estranho como é só na nossa cabeça que as coisas são perfeitas. Na realidade não são. E nós abrimos os olhos da alma e fechamos os olhos da razão. E seguimos no comboio e seguimos na montanha russa. E não questionamos. E achamos que nos basta assim. Sentir amor. Sem saber de pesos… sem saber de medidas… vamos sabendo o peso e a medida do nosso amor… mas do amor dele nada sabemos… só sentimos.

Mas nos momentos de crise… nos momentos negros… nos momentos de decisão… nesses momentos sabe-se, além de se sentir. Sabe-se.

Soube agora que houve um engano… um terrível engano. Ninguém tem de morrer. Fomos salvos. Os deuses foram benevolentes. Ou não terão sido? É verdade que não vou ter de morrer… nem ele vai ter de morrer… vamos poder continuar juntos e viver o nosso amor… mas… esta situação… esta situação limite… este teste ao nosso amor imposto pela vida… matou um pouco de mim. Matou a minha incerteza. E no amor é bom haver incerteza… as certezas absolutas são aborrecidas. Amor que é amor traz risco… incerteza… incerteza…

Depois de tudo isto é claro que estou feliz. Eu não queria morrer. Eu sei que escolha foi minha… foi uma escolha do meu amor e não da minha razão. O meu amor morreria sempre… e morreu um pouco de qualquer forma. Porque hoje sei que mesmo depois da maior prova de amor incondicional, ele não me ama na mesma intensidade. Ele ama-me, mas não da mesma forma.

Poderei voltar a amá-lo como amava? Incondicionalmente? Sabendo hoje que ele tem condições no amor dele?

Não sei. Sei que algo morreu em mim. A inocência. O cor-de-rosa. A vida não é só montanha russa. A vida não é só amor. A vida tem outras coisas… importantes também. O meu amor hoje é diferente. É desconfiado. É prudente. É menos perfeito na minha cabeça. É talvez mais real. Mais verdadeiro? Mais verdadeiro…

Os antigos diziam que os grandes amores da alma davam grandes tragédias… fosse o amor entre homens e mulheres… fosse o amor à Pátria… fosse o amor aos pais… todas as paixões da alma nublam a razão. E sem razão não há consciência… nem distinção entre bem e mal… nem limites.

Continuo a amá-lo, mas amo-o de um amor diferente. Menos possessivo. Menos obcecado. Mais lúcido. Mais racional. Mas não menos intenso.

Os antigos tinham razão. O amor é para ser vivido em serenidade. O amor é para ser vivido em comunhão de almas. Em dias de céu pouco nublado. E em dias de tempestade agarramo-nos agarradinhos e esperamos conseguir superá-los… mais uma vez.

16 de novembro de 2009

Clitemnestra

Parece que estive casada uma vida inteira. Parece que já nasci casada. Porque até quando ainda não era casada, preparava-me tanto para o casamento que era como se já fosse casada.

Nunca pensei muito se queria ou não casar. É a ordem natural das coisas. A minha família tinha dinheiro e estatuto e era mais que natural que eu estivesse destinada a algo mais que a minha singela vida. Nasci a ser mais que uma criança. Nasci a ser possibilidade de algo mais. Nasci a ser destinada a algo mais. E, como se passa com todas as mulheres nascidas em famílias de nome, esse “algo mais” passava obrigatoriamente pelo casamento. Um bom casamento. Um casamento dentro da classe. Um casamento acima da classe então era um sonho.

Não bastava ter dinheiro e estatuto. Tantas têm dinheiro e estatuto e não conseguem bons casamentos. Temos que nos comportar de acordo com o estatuto, com a classe a que pertencemos. Temos de saber dominar, parecendo subservientes. Temos de saber fazer tudo, para podermos mandar fazer tudo. Temos de ser duras com os funcionários e dóceis com os maridos. Temos de ter boa aparência. Porque embora os maridos procurem sempre amantes, não lhes podemos causar repulsa, ou não teremos filhos. Por isso, mesmo depois do casamento, temos de continuar a tratar da aparência. Pelo menos enquanto não tivermos filhos.

Sempre fui bonita. A minha família educou-me bem e eu sempre soube que conseguiria um bom marido. Ter conseguido um marido de sangue azul foi uma alegria para a família. Um salto em frente.

O casamento sempre correu bem. Éramos bons companheiros. Podíamos contar um com o outro e a casa estava sempre em ordem. Ele tinha amantes, mas ainda assim nunca deixou de me procurar durante a noite e tivemos alguns filhos.

A vida era serena. Boa. Feliz. De acordo com tudo o que eu sempre quisera e esperara. Não poderia ter sido melhor se o sonhasse. A minha vida era perfeita. O marido perfeito. A casa perfeita. Os filhos perfeitos. A família perfeita.

Até que chegou a guerra.

A guerra é normal. Comum. É normal que as pessoas defendam os seus direitos pelas armas. É normal que reclamem o que é seu e lhes foi roubado. Porque se hoje fecham os olhos a uma maçã roubada do pomar, amanhã não têm pomar.

A honra é a coisa mais importante que poderemos ter e devemos lutar para a conservar. Sempre. Custe o que custar. Doa a quem doer. E por isso não me espantou que o meu marido juntasse o seu exército pessoal para apoiar o irmão. A honra do irmão era a sua honra. E um homem sem honra é um homem morto.

Custou-me que ele estivesse disposto a sacrificar a nossa filha. Sangue do seu sangue. Carne da sua carne. Alma da sua alma. A mais pura. Pela guerra. Mas a honra de um homem é a sua vida. E a luta pela honra vale qualquer sacrifício. Sei disso.

Passaram 10 anos. 10 anos a pouco saber. 10 anos em que muitos dos nossos pereceram naquela guerra. 10 anos em que eu esperei o regresso do meu marido. O meu marido. Aquele que era meu marido desde que nasci. Aquele que era meu marido mesmo antes de ser meu marido. Antes de eu nascer. Antes de os meus pais nascerem. Antes dos pais dos meus pais nascerem. O meu marido desde que o Mundo é Mundo. Antes de eu ser eu e de ele ser ele.

Sempre fui uma esposa dedicada, afectuosa, cumpridora dos seus deveres… perfeita. Sempre fiz tudo o que tinha de fazer. Sempre pus o meu marido acima de tudo e de todos. Acima de mim. Acima dos meus filhos. Acima de tudo.

E depois de tudo o que passámos juntos… depois de ele quase matar a nossa filha… depois de dez anos de ausência numa guerra… depois de tudo… eu esperei por ele… de braços abertos… de alma aberta… pronta a retomar o casamento exactamente onde tinha ficado.

Perdoei tudo. Tudo. Todo o mau humor. Todas as ofensas. Todas as infidelidades. Todas as ausências. Todos os absurdos. Todas as ideias loucas. Tudo. Mas, depois de tudo, trocar-me? Colocar uma rameira estrangeira na minha cama? Como se aquela estrangeira soubesse alguma coisa de como se comportar em sociedade… de como mandar nos escravos… de como organizar um banquete… seria ela a receber as esposas dos amigos do meu marido para o chá? Mas como se ela mal fala a nossa língua?

Que ele a tivesse como escrava e amante na guerra… que a quisesse possuir como se possui um objecto… que lutasse por esse objecto… que entrasse em confronto com Aquiles pela posse dela, como se de um escudo ou de uma espada se tratasse… é normal. Aceitável. Comum. Trazê-la para casa como despojo de guerra… com os outros despojos tirados dos corpos mortos dos adversários… com o resultado da pilhagem às casas dos derrotados… que a trouxesse na condição de coisa, de objecto, de escrava… mas assim? Como mulher… como se fosse igual a mim. Pior. Como se fosse igual a ele. A louca. Cassandra. Cassandra. Cassandra. Cassandra.

Vai uma Cassandra dormir na minha cama? Vai uma Cassandra roubar-me o marido? Ele é meu. Sempre foi meu. Desde que o Mundo é Mundo. Desde o Caos inicial. Desde antes a existência dos deuses. Sem o meu marido, quem sou eu? Uma mulher nasce para ser filha, esposa, mãe e viúva. Nada mais que isto. Se não posso ser esposa… pois que seja viúva.

2 de outubro de 2009

Elissa...

Aqui estou. Outra vez sozinha.

Outra vez... Pensei que não voltaria a sofrer. Pensei que a vida me sorria por fim. Depois de o meu irmão ter matado o meu marido, senti o Mundo a cair-me na cabeça. A dor da perda, a dor da desilusão, e a responsabilidade de ter de cuidar de todas as pessoas do reino...

Fugimos das tiranias do meu irmão e instalámo-nos aqui... no Deserto à beira-mar. Amo o meu país. Amei o meu marido. Mas só quando vi E. pela primeira vez é que soube o que era paixão. Com o meu marido era diferente... éramos amigos, confidentes, companheiros... respeitávamo-nos... com o E. é diferente. Sempre foi diferente...

Desde aquela noite em que a tempestade nos uniu... Desde aquela noite em que senti que ele também me via, me sentia, me amava... Senti que a vida me compensava por todo o sofrimento, todas as perdas...

Fi-lo meu rei. Rei do meu país e dos meus súbditos. O meu rei consorte. O meu amor. Acolhi o filho dele como se fosse meu. Acolhi os amigos dele como se fossem meus. Acolhi-o como se fosse parte de mim. E ele é parte de mim...

Parte de mim que agora me deixa, sem explicações, sem nada... Vejo ainda os barcos ao longe. Porque teve de ir embora? Porquê? Ontem falou-me em ir... disse que me amava, mas que tinha deveres a cumprir... Mas que deveres são esses? Não tem ele maior dever comigo? Comigo que partilho a cama dele? Comigo que o acolhi? Comigo que o amei mais que a mim-mesma?

Como se atreve ele a dizer que há coisas mais importantes que o amor? O que poderá ser mais importante que o amor? Ele não me soube responder... não argumentou... acariciou-me a face e sorriu-me... disse que me amava... e de repente tudo ficou como antes... como antes de ele falar em ir embora.

Enganou-me! Enganou-me... deixou-me acreditar que reconsideraria. E enquanto eu dormia e sonhava, ele fugiu. Deixou-me na nossa cama e fugiu... cobarde! Mentiroso! Assassino!

Sim, assassino! Mataste-me! Mataste a minha esperança. Traíste o meu amor! Traíste o meu amor... Traíste a minha vida. Um golpe de punhal teria sido menos brutal! Porque não terminaste o que começaste? Porque não afundaste a adaga no meu peito? Porque me deixaste a respirar quando a minha vida não é nada sem ti?

Vieste e tomaste conta de tudo... estás em todos os lugares, em todas as pessoas... vejo-te em cada esquina... ouço-te a cada minuto... é isto o Inferno? É isto o Inferno em vida?

Vai. Não te quero mais. Não quero um homem que não me quer. Não quero um homem que não honra o amor que sente nem os compromissos que assume. Não te quero. Não te quero.

Quero-te... quero-te muito. Mas não te tenho. Não te posso ter. Fugiste-me por entre os dedos. Escapaste-me... e para quê? Para quê? Serás mais feliz sem mim? Eu não sei o que é viver sem ti... não quero a vida sem sabor que vivia antes de te ver. Porque isso, sei-o agora, não era vida.

Tenho de rasgar tudo o que me lembra de ti. Queimar tudo o que, na pressa, deixaste ficar para trás. Acabar com as memórias de ti... com as memórias de nós... e este corpo? Este corpo que ainda cheira a ti... este corpo que te tem em cada centímetro de pele? Este corpo arde com o resto de ti.

Ergo ubi concepit furias, euicta dolore
decreuitque mori, tempus secum ipsam modumque
exigit...





DIDO:
Thy hand, Belinda, darkness shades me,
On thy Bosom let me rest,
More I would, but Death invades me;
Death is now a welcome guest.
When I am laid in earth, may my wrongs Create
No trouble in thy Breast;
Remember me, but ah! forget my Fate.


CHORUS:
With drooping wings you Cupids come,
To scatter roses on her tomb.
Soft and Gentle as her Heart
Keep here your watch, and never part

1 de outubro de 2009

Ele... (II)

Penso que fiz o que tinha que fazer. Gosto muito de ti. Amo-te. Mas a minha vida não me pertence. A minha vida é do meu país. Há coisas mais importantes na vida que o amor. Pelo menos do que este amor carnal que sinto por ti. Este amor é egoísta. Vivê-lo seria abandonar todos os que acreditam em mim... Deixar ficar mal a memória do meu pai. Deixar ficar mal todos os que me seguem.

O que eu queria era poder ficar aqui. Aqui contigo, minha Elissa. Aqui contigo sempre. No teu país, na tua casa, com a tua gente. Aqui onde o Sol brilha. Aqui onde o Deserto é rei e senhor.

Nestes meses que passei contigo aprendi a amar este teu mundo. Aprendi a amar-te. Sem reservas. Sem pudor. Sentir que me queres... sentir que me queres é fantástico. Mas não posso.

Quero, mas não posso. Tenho de seguir viagem. Seguir o rumo que traçaram para mim.

A despedida foi difícil. Tu não entendes. Não me entendes. Achas que o amor vale tudo. Achas que só o amor importa. Achas que se deve viver um amor como o nosso sempre. Dizes que te menti... nunca te menti! Talvez não te tenha dito tudo... talvez devesse ter dito logo quem era. Um príncipe, com deveres... sem direito a viver um amor. Só com o direito de servir o seu povo. A profecia.

Assim sou eu. Um homem ao serviço de uma profecia. Não sou dono do meu querer, da minha vontade, do meu coração, da minha vida... não tenho o direito de sentir. Não te disse isto logo e devia. Quis iludir-me. Quis pensar que seria possível. E foi tão fácil deixar-me envolver por ti, meu amor.

Meu amor. Meu amor. Meu amor. És e serás o meu amor. Também não to disse. Que és o meu amor. Mas tu sabes, não sabes? És o meu amor. Serás sempre o meu amor. Mesmo que tenha de casar com uma princesa qualquer. Sim... eu sei que és rainha. Mas contigo eu não posso casar... não contigo.

Disse-te que ia pensar... e deixei-te. Não suportaria voltar a ver-te. Voltar a ver a desilusão nos teus olhos. Voltar a ver as tuas lágrimas. Vou embora. Para sempre.

Adeus meu amor. Com o tempo vais entender. Vais ver que o meu destino era mais forte que a minha vontade. Vive uma vida feliz, meu amor. Porque eu deixo de viver aqui. Agora. Deixo a minha vida contigo. Adeus.


25 de setembro de 2009

Ele...

Não acredito…

Não acredito… não entendo o que me está a acontecer. Não entendo! Como é que é possível? Se há uns meses alguém me dissesse que hoje estaria aqui assim… sem casa… sem família… sem ninguém… se alguém me dissesse que toda a gente me ia olhar de lado na rua… que todos me iam apontar o dedo… que a polícia me ia levar para interrogatório… que ia estar a responder a um processo por tentativa de violação…

Tentativa de violação… tentativa de violação… tentativa de violação… posso repetir isto as vezes que forem que esta acusação nunca me faz sentido… tentativa de violação…

Que mal fiz eu? Que fiz eu para merecer isto? Tentei entender… tentei perceber o que a levava a fazer isto… medo talvez… medo que eu contasse a toda a gente o que ela fez. Mas eu não ia dizer nada. Deveria… mas não ia dizer nada. Mas o medo de ser desmascarada justifica que me arruíne a vida?

Fui expulso da equipa de futebol… os meus amigos fazem piadas parvas, machistas… dizem que ela teve o que merecia… dizem que só falhou ser apenas tentativa… são umas bestas! Não acreditam quando eu digo que não aconteceu nada… acho que é mais fácil para eles entender que eu tentei violar a Fedra, do que acreditar que ela se meteu na minha cama e eu a rejeitei.

Ela diz que eu a perseguia… que estava em todos os lugares em que ela estava… que lhe sorria… que lhe mandava bilhetes… que forçava uma situação que ela não queria. Mandei-lhe uma vez um bilhete… como mandei a mais umas dezenas de pessoas… a dizer que ia haver a festa de subida de divisão e que gostaria que estivessem presentes. Apenas e só. Sorria-lhe porque gostava de sorrir… a ela, às pessoas à minha volta, à vida.

Não nego que seja uma mulher bonita, experiente, inteligente… mas nunca lhe dirigi olhares de cobiça… nunca me senti atraído por ela… nunca quis ter nada com ela! Só o pensamento de algo assim me mete asco!

Acho que foi isso… não foi o medo que a denunciasse, que a expusesse à crítica de todos… há-de ter sido o que viu na minha cara, o espanto, a repulsa… dizem que isso dói mais que um estalo na cara… Ela não entende que eu não a queira… não tem que ver com o facto de ser mais velha, ou de ter rugas, ou de não saber o que é um fora-de-jogo… também não quero as raparigas da minha idade. Não quero este amor que vejo à minha volta. Este amor destrutivo em nome do qual vale tudo. O amor dela vale a minha vida?

Tenho 18 anos… a minha vida começava a tomar o rumo que eu sempre quis… o futebol… a Faculdade… os amigos… a relação com o meu pai começava a melhorar… e agora… agora não tenho equipa… agora não posso ir às aulas sem constrangimentos… agora enfrento acusações judiciais… agora não tenho onde viver… agora não tenho como me sustentar… porque o meu pai a escolheu a ela.

Sinto-me traído pela vida. Naquela noite em que se meteu na minha cama ela disse que me amava… Que amor é este que faz esquecer o Mundo? Que amor é este que destrói tudo à sua passagem? Que amor é este que impõe o seu querer? Eu não a amo. Eu não a quero. E por ter sido honesto… por lhe ter dito que gostava muito dela, a mulher do meu pai, mas que nunca a poderia amar daquela forma… o “amor” dela destruiu-me a vida.

Eu já não existo. Ela matou-me. Matou as minhas possibilidades… matou as minhas esperanças. Matou as oportunidades que estavam nos meus sonhos e na minha juventude. Eu já não existo. Não passo de um corpo sem alma. Sem objectivos. Sem sonhos. Ela matou-me a alma… de que serve este corpo continuar a deambular por aí?

24 de setembro de 2009

Ela...

Hoje acordei para o inevitável. É a ele que eu quero.

Já pensei muito sobre isto. Já medi as consequências. Já pensei no que as pessoas podem dizer. Já vi e revi tudo… o que fazer… o que dizer… Não posso mais manter-me assim… na angústia de o ver todos os dias e de todos os dias não lhe dizer o que sinto… que me arde o sangue nas veias… que o meu coração só bate quando o vejo… que os meus olhos só o procuram a ele… que o meu corpo só o quer a ele…

Imoral? O amor não pode ter restrições. Amor que é amor, daquele amor verdadeiro, tem de ser vivido em toda a sua plenitude. Totalmente. Sem amarras sociais…

Sem amarras sociais… então por que me demovo? Por que não avancei ainda? Medo? Talvez… há algo em mim que me impede de me envolver mais com ele. Mas não é medo de que descubram… é medo de ser rejeitada.

Ele é jovem. Vibrante. Atlético. Espirituoso. É perfeito… perfeito perfeito perfeito…. Tão perfeito. E eu… aqui estou quase nos 40. Com a cara marcada pelo tempo. Com as minhas conversas tão cheias de antigo. Não sei falar dessas coisas de que os jovens falam agora… Não sei de futebol… não sei de música… não sei de carros desportivos nem dos assuntos das aulas de Desporto da Universidade. Não sei. Não sei. Não sei. Não…

Contudo… eu não lhe sou indiferente. Sinto-o despir-me com o olhar. Sinto-o querer-me. Sinto-o em mim como se estivesse de facto em mim. Sinto-o.

Luxúria? Desejo? Amor. Daquele amor que corrói. Daquele amor que me mata por dentro se não o puder viver. Não quero saber de mais nada. Quero-o.

Quero vivê-lo. Hoje sei disso. Depois de meses de indecisões. Depois das trocas de olhares. Depois das trocas de sorrisos. Depois das conversas de circunstância à frente dos outros. Do pai dele…

Hoje vou saber. Se ele também me ama… se me quer… se me vê como mulher. Hoje… depois do jogo de futebol dele. Depois da festa de subida de divisão. Hoje. Não vou deitar-me cedo. Vou deixar-me ficar… beber um pouco de vinho e tomar uma atitude.

Recebi um bilhete. É dele. Ele quer-me na festa. Ele quer-me. Senti o seu olhar em mim enquanto o lia. Ele quer-me. Ele vai ter-me. Doa a quem doer. Um amor assim tem de ser vivido… nunca me senti assim… nem quando era adolescente… nem pelo meu marido… mas sinto-me assim agora e não posso virar as costas a isto. Não agora que sei que ele me quer. Não agora. Nunca mais. Ou não me chame Fedra.

14 de agosto de 2009

Pedro

Olho-o como nunca o tinha olhado. Vejo-o ali deitado no chão e choro. Não tenho coragem de o acordar. Dorme tão descansado, tão tranquilo. Em casa não consigo que durma e ali ele dorme tão profundamente que assusta.

E assusta muito. Não sei o que fazer. Vou deitar-me com ele um pouco. Não está aqui ninguém. Posso. Enroscar o meu corpo no dele para que se sinta protegido. Pelo menos hoje. Um pouco. Só hoje...

Lembro outros dias. Dias de meninice. Dias de divertimento. Dias de lhe preparar os pratos preferidos. Dias de ele devorar tudo. Dias de ele sair para a rua tão feliz. Dias de andar aos pássaros de fisga em riste. Dias de correrias pela rua. Dias de chegar a casa todo cheio de nódoas, todo sujo, desgrenhado, como se não passasse de um miúdo de rua e não tivesse família. Dias de trepar às árvores e cair delas. Dias de levar uns tabefes por ser respondão. Dias de felicidade vividos em família.

E hoje está aqui. No chão do cemitério, a dormir perto do pai. Não sei como veio aqui parar. Deixei-o a dormir na cama. Tranquei as portas. Mas o meu Pedro sempre foi esperto e arranjou forma de se escapulir.

A morte do meu António foi difícil para todos, mas mais para o Pedro. O menino do papá. Passaram já alguns meses, mas ainda hoje, quando não sei dele, sei que está aqui. A dormir perto do pai. A falar com o pai.

É só com ele que ele fala. Não fala a mais ninguém. O médico diz que isto passa com o tempo, mas eu tenho medo. Vejo aqui o meu filho e ao mesmo tempo não é o meu filho. Já não corre, já não ri, já não vai aos pássaros, já não brinca, já não se suja como dantes. Suja-se só deste chão de cemitério. Já não se suja de felicidade...

O Pedro fala com o pai. Muito. E fala consigo mesmo. Não fala comigo, nem com os amigos, nem com ninguém. As pessoas primeiro tinham pena dele. Agora olham-no como se fosse deficiente. O Pedro não é deficiente! O Pedro... O Pedro está só perdido.

As pessoas vêem-no a falar sozinho na rua e riem. E ele já não ri. Ele só fala... "Pedro não vás por aí. Pedro isso não se faz. Pedro sai daí. Pedro que sujo estás." Fala como se repetisse vozes que ouve dentro dele. E o médico diz que isto lhe passa.

Tenho medo. Já não é o meu Pedro que aqui está. Para onde será que ele foi? Será mais ele quando está aqui, tão sereno, a dormir no chão do cemitério?

Isto não é justo. Um momento. Uma fracção de segundo. Um acidente. Uma morte. E as nossas vidas mudaram para sempre. Sim. Porque eu sei que isto não vai passar... o meu filho foi com o pai. Quem aqui está já não é o Pedro... será um outro Pedro no corpo do meu Pedro...

Vou aconchegar-me a ele... só hoje. Só um bocadinho. Para ele sentir, seja ele quem for, que o vou amar sempre.