Há homens que nem submetidos a tormentos confessariam o seu amor por uma mulher, sobretudo tratando-se de uma mulher honesta. É como se a palavra amor trouxesse um ar pestilento, ou, pelo menos, um ar em que se respira o conflito dos sexos. Já de si, homem e mulher são muito difíceis de harmonizar; são precisos padrinhos, sacramentos, certidões e um sem número de provas que lhes permitam coabitar sem perigo. Quanto mais se o amor se instala com eles; de certeza que não podem aguentar essa partilha de emoções e delitos, tanto morais como sexuais.
Agustina Bessa-Luís, Vale Abraão, Guimarães, p. 32.
Será? Serão precisas tantas coisas para nos sentirmos seguros numa relação? E estando seguros numa relação, quanto tempo demoramos a trair a confiança dessa relação?
Será assim tão difícil? Eu sei que anda meio mundo à procura do outro meio... mas estarão mesmo à procura? Preparados para o respeito, partilha e compromisso que o amor implica? Isso já é mais difícil...
Conheci alguns homens que me diziam que estavam à procura. Mas quando se vai às compras com uma ideia pré-definida do que se quer, fechamos a mente ao que mais está na loja. Por parva que pareça a comparação, não deixa de ser isto mesmo. Quando se procura não uma pessoa, mas um conjunto de características e mais não sei o quê, fica-se impedido de dar valor ao que a vida nos oferece.
O segredo (se é que há segredos) é não procurar. Procurar porquê? Onde é que está escrito que nos vamos apaixonar por uma lista de virtudes? O amor acontece... se tiver de acontecer... quando tiver de acontecer.
E entristece-me... ver pessoas desesperadamente à procura. Sem nunca encontrar, porque o que lhes aparece nunca corresponde exactamente ao que imaginam e idealizam e muito menos à lista que têm na cabeça... Pior que isso é queixarem-se... Como se não houvesse no Mundo alguém à sua altura. É que todas as pessoas que conhecem cometem o grave erro de não corresponder a todos os itens da lista...
Eu não tenho lista. Nem quero corresponder à lista de ninguém. Sou imperfeita. E não procuro. Pode ser que me caia no colo alguém sem uma lista e que seja completamente imperfeito... tão imperfeito que encaixe na minha imperfeição. Sem complicações e sem obrigações a cumprir.
O amor não é um objecto que se procure para comprar ou trocar ou whatever. O amor acontece.