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28 de abril de 2010

Para os afortunados, toda a vida é curta.
Para os infelizes, uma só noite é infindável.

Luciano

20 de novembro de 2009

Alceste

O Amor.

O amor é um sentimento complexo. Não o sei pôr em palavras. Sei senti-lo. Sei como fico quando vejo o meu homem. Sei como o meu coração bate como se quisesse sair do peito. Sei como o meu sangue ferve nas minhas veias. Sei esses clichés todos de romance de cordel. Clichés muito verdadeiros. Clichés que soam a cliché… clichés que sabem a cliché… mas que são sentidos… reais… quase palpáveis.

O dormir acordado e o viver a dormir. A respiração que pára a cada toque. Os sentidos apurados ao máximo. O toque. O cheiro. O gosto. A voz. O olhar. Toda eu sou ele. Toda eu respiro ele. Toda eu vibro com ele. Eu sou ele e ele é eu. Arrepio na espinha quando o sinto olhar-me. Rubor quando o sinto tocar-me levemente no fundo das costas.

A mão na mão. O olhar no olhar. Os lábios nos lábios. A voz na voz. Eu e ele. Um só.

O amor feito de desejo, de respeito, de companheirismo, de entrega, de vontade, de construção, de loucura e de pés no chão… de voos rasantes e de passeios calmos… de conversas profundas e de risos… de serões no sofá… de tantas pequenas coisas… de tantas grandes coisas…

Duas pessoas. Um amor. Um mais um é um. Ou talvez fôssemos metades antes de nos encontrarmos. Talvez fôssemos metades e nos tivéssemos completado no amor. O amor fez-me mais completa. Não voltaria a ser completa sem ele. Não voltaria a ser eu sem ele. Agora que sei o que é estar com ele. Agora que sei o que é tê-lo. Agora que sei o que é sentir e viver o amor em plenitude. Eu sou eu com ele. Sem ele não seria mais que uma sombra de mim.

Quando se vive um amor assim pensa-se que se é eterno. Pensa-se que o amor é eterno e que nós seremos eternos com ele. Ficaremos para sempre. Em amor.

Os anos passam, o amor fortalece-se. Vêm os filhos. O amor gera uma família. Uma família construída e vivida em amor. O amor multiplica-se. Cresce. Evolui. E quando antes pensávamos que não podíamos amar mais, eis que sim… podemos amar mais. E amamos mais e mais e mais e mais e mais…

Mas a vida não é perfeita. Não podemos ter o que tanta gente quer e não tem sem contrapartidas. Ninguém vive em cor-de-rosa. Ninguém vive em perfeição, em idílio… uma vida inteira.

E quanto é uma vida inteira? Quanto tempo dura uma vida inteira? 20 anos? 40 anos? 100 anos? O que vale mais? Uma vida plena de 30 anos ou uma vida sobrevivida durante 100 anos?

Eu sinto que vivi mais que muitas pessoas com o triplo da minha idade. Tive o privilégio de amar e ser amada. Tive o privilégio de poder viver o meu amor. Tive o privilégio de ser feliz. Talvez demasiado feliz… os deuses não gostam quando os humanos vivem um Paraíso na Terra. Não gostam e trocam-nos as voltas.

Ele ia morrer. A sentença estava dada. A esperança não era nenhuma. Ele ia morrer. A não ser que alguém desse a vida por ele. A não ser que alguém tomasse o lugar dele na embarcação. A não ser que outra pessoa levasse o óbolo ao barqueiro e embarcasse em nome dele. A não ser que outra pessoa povoasse os Elísios. A não ser que outra pessoa o amasse mais que à própria vida e morresse por ele.

Eu vou morrer por ele. Eu amo-o mais que à minha própria vida. Eu amo-o mais que tudo. Por tudo o que vivemos, por tudo o que somos e fomos juntos… pelo amor que nos une ainda… eu vou morrer por ele.

A decisão não foi difícil de tomar. Foi simples. Rápida. Indiscutível. Porque a morte dele seria sempre a minha morte. Assim morro só eu.

Estava cheia de certezas. Sabia que era a coisa certa a ser feita. Mas hoje, quando a hora se aproxima, não deixo de sentir revolta. Sim… revolta… raiva… medo.

Não compreendo como é que nenhum dos meus sogros deu o pescoço ao machado pelo filho. Não compreendo como é que uma mãe não dá a vida pelo filho. Não compreendo como é que ela, tendo essa possibilidade, não o salva. Por que não o salva e não nos salva… porque se fosse ela a morrer, nós poderíamos continuar a viver o nosso amor. Por que não pode ela morrer e salvar-nos? Que egoísmo é esse que a impede de morrer pelo seu filho?

Não a entendo. Não entendo. Não entendo por que é que não podemos simplesmente viver. Sermos felizes. Sermos amor.

E ele… ele que aceitou o meu sacrifício. Ele que aceitou a minha vida pela dele. Ele que não se importa de carregar o peso da minha morte nos seus ombros. Ele que prefere viver, a morrer comigo.

Quando estamos bem e felizes… quando o amor é perfeito e idílico e tudo corre bem…não pomos nada em causa. Nem a nossa vida, nem o nosso amor. Se o amor é perfeito, por que se poderá pôr em causa? Não pode. É vivido com a máxima intensidade. Com todo o ardor. E não paramos para pensar. A razão não manda nada quando se trata de amor. Nada. Nada de nada. O amor é impulso. O amor é salto em precipício. O amor é queda livre. O amor é entrega. O amor não tem reservas… nem “mas”… nem condições…

E por isso, naquele dia, naquele momento, foi o meu amor que falou e não a minha razão. A minha razão não existia. Existia o meu amor. Só o meu amor. E o meu amor não podia suportar a perda. O meu amor não poderia nunca suportar… e não pensou se ele faria o mesmo por mim. Não pensou se ele estaria disposto a morrer por mim. Não perguntou se a intensidade do amor dele correspondia à do meu.

E se antes era altruísta e amava por amar e porque queria amar e gostava de amar e não esperava nada em troca… hoje sinto desconforto. Porque antes não havia a certeza do mesmo amor do outro lado, mas havia a dúvida. E dúvida, nestes casos, conforta-nos. Dá-nos alento. Dá-nos o podermos sonhar que do outro lado é igual. Porque há margem para erro, mas também há margem para certeza. Não perguntamos, porque não queremos saber. Não queremos saber quantas vezes já disseram “amo-te” a outras pessoas… não queremos saber da vida antes, porque a vida antes não existe e não pode existir. E assim, na nossa cabeça, o nosso amor é perfeito.

Estranho como, quando a razão não tem nada que ver com o amor, estranho como é só na nossa cabeça que as coisas são perfeitas. Na realidade não são. E nós abrimos os olhos da alma e fechamos os olhos da razão. E seguimos no comboio e seguimos na montanha russa. E não questionamos. E achamos que nos basta assim. Sentir amor. Sem saber de pesos… sem saber de medidas… vamos sabendo o peso e a medida do nosso amor… mas do amor dele nada sabemos… só sentimos.

Mas nos momentos de crise… nos momentos negros… nos momentos de decisão… nesses momentos sabe-se, além de se sentir. Sabe-se.

Soube agora que houve um engano… um terrível engano. Ninguém tem de morrer. Fomos salvos. Os deuses foram benevolentes. Ou não terão sido? É verdade que não vou ter de morrer… nem ele vai ter de morrer… vamos poder continuar juntos e viver o nosso amor… mas… esta situação… esta situação limite… este teste ao nosso amor imposto pela vida… matou um pouco de mim. Matou a minha incerteza. E no amor é bom haver incerteza… as certezas absolutas são aborrecidas. Amor que é amor traz risco… incerteza… incerteza…

Depois de tudo isto é claro que estou feliz. Eu não queria morrer. Eu sei que escolha foi minha… foi uma escolha do meu amor e não da minha razão. O meu amor morreria sempre… e morreu um pouco de qualquer forma. Porque hoje sei que mesmo depois da maior prova de amor incondicional, ele não me ama na mesma intensidade. Ele ama-me, mas não da mesma forma.

Poderei voltar a amá-lo como amava? Incondicionalmente? Sabendo hoje que ele tem condições no amor dele?

Não sei. Sei que algo morreu em mim. A inocência. O cor-de-rosa. A vida não é só montanha russa. A vida não é só amor. A vida tem outras coisas… importantes também. O meu amor hoje é diferente. É desconfiado. É prudente. É menos perfeito na minha cabeça. É talvez mais real. Mais verdadeiro? Mais verdadeiro…

Os antigos diziam que os grandes amores da alma davam grandes tragédias… fosse o amor entre homens e mulheres… fosse o amor à Pátria… fosse o amor aos pais… todas as paixões da alma nublam a razão. E sem razão não há consciência… nem distinção entre bem e mal… nem limites.

Continuo a amá-lo, mas amo-o de um amor diferente. Menos possessivo. Menos obcecado. Mais lúcido. Mais racional. Mas não menos intenso.

Os antigos tinham razão. O amor é para ser vivido em serenidade. O amor é para ser vivido em comunhão de almas. Em dias de céu pouco nublado. E em dias de tempestade agarramo-nos agarradinhos e esperamos conseguir superá-los… mais uma vez.

16 de novembro de 2009

Clitemnestra

Parece que estive casada uma vida inteira. Parece que já nasci casada. Porque até quando ainda não era casada, preparava-me tanto para o casamento que era como se já fosse casada.

Nunca pensei muito se queria ou não casar. É a ordem natural das coisas. A minha família tinha dinheiro e estatuto e era mais que natural que eu estivesse destinada a algo mais que a minha singela vida. Nasci a ser mais que uma criança. Nasci a ser possibilidade de algo mais. Nasci a ser destinada a algo mais. E, como se passa com todas as mulheres nascidas em famílias de nome, esse “algo mais” passava obrigatoriamente pelo casamento. Um bom casamento. Um casamento dentro da classe. Um casamento acima da classe então era um sonho.

Não bastava ter dinheiro e estatuto. Tantas têm dinheiro e estatuto e não conseguem bons casamentos. Temos que nos comportar de acordo com o estatuto, com a classe a que pertencemos. Temos de saber dominar, parecendo subservientes. Temos de saber fazer tudo, para podermos mandar fazer tudo. Temos de ser duras com os funcionários e dóceis com os maridos. Temos de ter boa aparência. Porque embora os maridos procurem sempre amantes, não lhes podemos causar repulsa, ou não teremos filhos. Por isso, mesmo depois do casamento, temos de continuar a tratar da aparência. Pelo menos enquanto não tivermos filhos.

Sempre fui bonita. A minha família educou-me bem e eu sempre soube que conseguiria um bom marido. Ter conseguido um marido de sangue azul foi uma alegria para a família. Um salto em frente.

O casamento sempre correu bem. Éramos bons companheiros. Podíamos contar um com o outro e a casa estava sempre em ordem. Ele tinha amantes, mas ainda assim nunca deixou de me procurar durante a noite e tivemos alguns filhos.

A vida era serena. Boa. Feliz. De acordo com tudo o que eu sempre quisera e esperara. Não poderia ter sido melhor se o sonhasse. A minha vida era perfeita. O marido perfeito. A casa perfeita. Os filhos perfeitos. A família perfeita.

Até que chegou a guerra.

A guerra é normal. Comum. É normal que as pessoas defendam os seus direitos pelas armas. É normal que reclamem o que é seu e lhes foi roubado. Porque se hoje fecham os olhos a uma maçã roubada do pomar, amanhã não têm pomar.

A honra é a coisa mais importante que poderemos ter e devemos lutar para a conservar. Sempre. Custe o que custar. Doa a quem doer. E por isso não me espantou que o meu marido juntasse o seu exército pessoal para apoiar o irmão. A honra do irmão era a sua honra. E um homem sem honra é um homem morto.

Custou-me que ele estivesse disposto a sacrificar a nossa filha. Sangue do seu sangue. Carne da sua carne. Alma da sua alma. A mais pura. Pela guerra. Mas a honra de um homem é a sua vida. E a luta pela honra vale qualquer sacrifício. Sei disso.

Passaram 10 anos. 10 anos a pouco saber. 10 anos em que muitos dos nossos pereceram naquela guerra. 10 anos em que eu esperei o regresso do meu marido. O meu marido. Aquele que era meu marido desde que nasci. Aquele que era meu marido mesmo antes de ser meu marido. Antes de eu nascer. Antes de os meus pais nascerem. Antes dos pais dos meus pais nascerem. O meu marido desde que o Mundo é Mundo. Antes de eu ser eu e de ele ser ele.

Sempre fui uma esposa dedicada, afectuosa, cumpridora dos seus deveres… perfeita. Sempre fiz tudo o que tinha de fazer. Sempre pus o meu marido acima de tudo e de todos. Acima de mim. Acima dos meus filhos. Acima de tudo.

E depois de tudo o que passámos juntos… depois de ele quase matar a nossa filha… depois de dez anos de ausência numa guerra… depois de tudo… eu esperei por ele… de braços abertos… de alma aberta… pronta a retomar o casamento exactamente onde tinha ficado.

Perdoei tudo. Tudo. Todo o mau humor. Todas as ofensas. Todas as infidelidades. Todas as ausências. Todos os absurdos. Todas as ideias loucas. Tudo. Mas, depois de tudo, trocar-me? Colocar uma rameira estrangeira na minha cama? Como se aquela estrangeira soubesse alguma coisa de como se comportar em sociedade… de como mandar nos escravos… de como organizar um banquete… seria ela a receber as esposas dos amigos do meu marido para o chá? Mas como se ela mal fala a nossa língua?

Que ele a tivesse como escrava e amante na guerra… que a quisesse possuir como se possui um objecto… que lutasse por esse objecto… que entrasse em confronto com Aquiles pela posse dela, como se de um escudo ou de uma espada se tratasse… é normal. Aceitável. Comum. Trazê-la para casa como despojo de guerra… com os outros despojos tirados dos corpos mortos dos adversários… com o resultado da pilhagem às casas dos derrotados… que a trouxesse na condição de coisa, de objecto, de escrava… mas assim? Como mulher… como se fosse igual a mim. Pior. Como se fosse igual a ele. A louca. Cassandra. Cassandra. Cassandra. Cassandra.

Vai uma Cassandra dormir na minha cama? Vai uma Cassandra roubar-me o marido? Ele é meu. Sempre foi meu. Desde que o Mundo é Mundo. Desde o Caos inicial. Desde antes a existência dos deuses. Sem o meu marido, quem sou eu? Uma mulher nasce para ser filha, esposa, mãe e viúva. Nada mais que isto. Se não posso ser esposa… pois que seja viúva.

1 de outubro de 2009

Ele... (II)

Penso que fiz o que tinha que fazer. Gosto muito de ti. Amo-te. Mas a minha vida não me pertence. A minha vida é do meu país. Há coisas mais importantes na vida que o amor. Pelo menos do que este amor carnal que sinto por ti. Este amor é egoísta. Vivê-lo seria abandonar todos os que acreditam em mim... Deixar ficar mal a memória do meu pai. Deixar ficar mal todos os que me seguem.

O que eu queria era poder ficar aqui. Aqui contigo, minha Elissa. Aqui contigo sempre. No teu país, na tua casa, com a tua gente. Aqui onde o Sol brilha. Aqui onde o Deserto é rei e senhor.

Nestes meses que passei contigo aprendi a amar este teu mundo. Aprendi a amar-te. Sem reservas. Sem pudor. Sentir que me queres... sentir que me queres é fantástico. Mas não posso.

Quero, mas não posso. Tenho de seguir viagem. Seguir o rumo que traçaram para mim.

A despedida foi difícil. Tu não entendes. Não me entendes. Achas que o amor vale tudo. Achas que só o amor importa. Achas que se deve viver um amor como o nosso sempre. Dizes que te menti... nunca te menti! Talvez não te tenha dito tudo... talvez devesse ter dito logo quem era. Um príncipe, com deveres... sem direito a viver um amor. Só com o direito de servir o seu povo. A profecia.

Assim sou eu. Um homem ao serviço de uma profecia. Não sou dono do meu querer, da minha vontade, do meu coração, da minha vida... não tenho o direito de sentir. Não te disse isto logo e devia. Quis iludir-me. Quis pensar que seria possível. E foi tão fácil deixar-me envolver por ti, meu amor.

Meu amor. Meu amor. Meu amor. És e serás o meu amor. Também não to disse. Que és o meu amor. Mas tu sabes, não sabes? És o meu amor. Serás sempre o meu amor. Mesmo que tenha de casar com uma princesa qualquer. Sim... eu sei que és rainha. Mas contigo eu não posso casar... não contigo.

Disse-te que ia pensar... e deixei-te. Não suportaria voltar a ver-te. Voltar a ver a desilusão nos teus olhos. Voltar a ver as tuas lágrimas. Vou embora. Para sempre.

Adeus meu amor. Com o tempo vais entender. Vais ver que o meu destino era mais forte que a minha vontade. Vive uma vida feliz, meu amor. Porque eu deixo de viver aqui. Agora. Deixo a minha vida contigo. Adeus.


25 de setembro de 2009

Ele...

Não acredito…

Não acredito… não entendo o que me está a acontecer. Não entendo! Como é que é possível? Se há uns meses alguém me dissesse que hoje estaria aqui assim… sem casa… sem família… sem ninguém… se alguém me dissesse que toda a gente me ia olhar de lado na rua… que todos me iam apontar o dedo… que a polícia me ia levar para interrogatório… que ia estar a responder a um processo por tentativa de violação…

Tentativa de violação… tentativa de violação… tentativa de violação… posso repetir isto as vezes que forem que esta acusação nunca me faz sentido… tentativa de violação…

Que mal fiz eu? Que fiz eu para merecer isto? Tentei entender… tentei perceber o que a levava a fazer isto… medo talvez… medo que eu contasse a toda a gente o que ela fez. Mas eu não ia dizer nada. Deveria… mas não ia dizer nada. Mas o medo de ser desmascarada justifica que me arruíne a vida?

Fui expulso da equipa de futebol… os meus amigos fazem piadas parvas, machistas… dizem que ela teve o que merecia… dizem que só falhou ser apenas tentativa… são umas bestas! Não acreditam quando eu digo que não aconteceu nada… acho que é mais fácil para eles entender que eu tentei violar a Fedra, do que acreditar que ela se meteu na minha cama e eu a rejeitei.

Ela diz que eu a perseguia… que estava em todos os lugares em que ela estava… que lhe sorria… que lhe mandava bilhetes… que forçava uma situação que ela não queria. Mandei-lhe uma vez um bilhete… como mandei a mais umas dezenas de pessoas… a dizer que ia haver a festa de subida de divisão e que gostaria que estivessem presentes. Apenas e só. Sorria-lhe porque gostava de sorrir… a ela, às pessoas à minha volta, à vida.

Não nego que seja uma mulher bonita, experiente, inteligente… mas nunca lhe dirigi olhares de cobiça… nunca me senti atraído por ela… nunca quis ter nada com ela! Só o pensamento de algo assim me mete asco!

Acho que foi isso… não foi o medo que a denunciasse, que a expusesse à crítica de todos… há-de ter sido o que viu na minha cara, o espanto, a repulsa… dizem que isso dói mais que um estalo na cara… Ela não entende que eu não a queira… não tem que ver com o facto de ser mais velha, ou de ter rugas, ou de não saber o que é um fora-de-jogo… também não quero as raparigas da minha idade. Não quero este amor que vejo à minha volta. Este amor destrutivo em nome do qual vale tudo. O amor dela vale a minha vida?

Tenho 18 anos… a minha vida começava a tomar o rumo que eu sempre quis… o futebol… a Faculdade… os amigos… a relação com o meu pai começava a melhorar… e agora… agora não tenho equipa… agora não posso ir às aulas sem constrangimentos… agora enfrento acusações judiciais… agora não tenho onde viver… agora não tenho como me sustentar… porque o meu pai a escolheu a ela.

Sinto-me traído pela vida. Naquela noite em que se meteu na minha cama ela disse que me amava… Que amor é este que faz esquecer o Mundo? Que amor é este que destrói tudo à sua passagem? Que amor é este que impõe o seu querer? Eu não a amo. Eu não a quero. E por ter sido honesto… por lhe ter dito que gostava muito dela, a mulher do meu pai, mas que nunca a poderia amar daquela forma… o “amor” dela destruiu-me a vida.

Eu já não existo. Ela matou-me. Matou as minhas possibilidades… matou as minhas esperanças. Matou as oportunidades que estavam nos meus sonhos e na minha juventude. Eu já não existo. Não passo de um corpo sem alma. Sem objectivos. Sem sonhos. Ela matou-me a alma… de que serve este corpo continuar a deambular por aí?