25 de julho de 2014

Homem Duplicado

Eu até acho que um filme não tem de ser igual a um livro...

Acho, isso sim, que o filme (quando baseado num livro) deveria transmitir a ideia do autor. Nem sempre se conta a história da mesma maneira... os "narradores" são diferentes.... mas a mensagem essa deveria ser a mesma.

Aconteceu isso com o "Blindness", relativamente ao "Ensaio sobre a Cegueira". O filme não era o livro, mas quem vê o filme entende a mensagem que Saramago pretendia veicular através do livro.

No "Enemy" isso não acontece. Por conta da última cena do filme que me demorou a entender, andei a ler alguns comentários ao filme em sítios da internet... basicamente, o que as pessoas pensam é que se trata de uma personagem a combater o medo de assumir um compromisso com uma mulher. Por isso, vive vidas imaginadas em que se vê descomprometido. A aranha é o símbolo do compromisso a que ele não pode escapar.

Entenda-se que, vendo o filme sem ter lido o livro, esta explicação é bastante plausível.

No entanto, não me parece que esta fosse a mensagem do "Homem Duplicado". E quem vê o filme está longe de sentir o que Saramago queria que sentíssemos quando criou esta espécie de alegoria.

Acho eu. Vale o que vale.

Não desgostei do filme. Mas, tendo em conta o livro, esperava muito muito muito mais. 

Eu acho que a aranha é kafkiana. Significa a mudança. Num mundo em que somos duplicados uns dos outros. Num mundo em que as pessoas aprendem as mesmas coisas, vivem as mesmas coisas, ouvem as mesmas coisas e pior... pensam as mesmas coisas. Não temos de ser fisicamente iguais para sermos iguais. Acabei o livro a pensar "quem sou eu?". Serei eu o duplicado de centenas de milhares de pessoas que vivem o mesmo tempo que eu?

A aranha, que não existe no livro, e aparece ao abrir de uma porta, poderia significar mesmo a mudança. E estamos prontos a aceitar a mudança, deixamo-la entrar? Ou fechamos a porta e viramos as costas? Continuamos uma vida inteira sendo autómatos? Robots? Duplicados?

13 de junho de 2014

Parabéns Nandinho

Um dos melhores poemas que já li. Um dos mais complexos de tão repleto de sentidos escondidos e de metáforas que me marcaram para a vida. E acho que marcaram todos os que foram meus alunos por tanto que as repeti... não conheço metáfora mais forte que esta: "é estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio".
Tenho pena que ele tenha vivido a vida assim... a sentir-se sobrevivente a si-mesmo como um fósforo frio. Porque na verdade ele continua a fazer anos e dura... e há de durar, sempre e para sempre, pelo menos enquanto em mim houver batimentos cardíacos.
Parabéns ao meu Nandinho mai lindo

ANIVERSÁRIO

No TEMPO em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.

No TEMPO em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.

Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,
O que fui de coração e parentesco.
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui — ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui...
A que distância!...
(Nem o acho...)
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!

O que eu sou hoje é como a umidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas
lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!

Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais       copos,
O aparador com muitas coisas — doces, frutas o resto na sombra debaixo do alçado —,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa, 
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...

Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!...

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...


Álvaro de Campos


10 de junho de 2014

Cá nesta Babilónia


A propósito do dia de Portugal, Camões e comunidades de língua portuguesa...

Cá nesta Babilónia, donde mana 
Matéria a quanto mal o mundo cria; 
Cá, onde o puro Amor não tem valia, 
Que a Mãe, que manda mais, tudo profana; 

Cá, onde o mal se afina, o bem se dana, 
E pode mais que a honra a tirania; 
Cá, onde a errada e cega Monarquia 
Cuida que um nome vão a Deus engana; 

Cá, neste labirinto, onde a Nobreza, 
O Valor e o Saber pedindo vão 
Às portas da Cobiça e da Vileza; 

Cá, neste escuro caos de confusão, 
Cumprindo o curso estou da natureza. 
Vê se me esquecerei de ti, Sião! 

Luís Vaz de Camões, in "Sonetos"

6 de junho de 2014

Há dias perfeitos

... mas o meu dia não poderia ter sido menos perfeito.
 
Quer dizer. Podia. Podia sempre ser pior. É verdade.
 
Mas depois de um dia de merda, a aturar gente de merda, com atitudes de merda, chego ao carro e, não, não era merda, mas era água.
 
Em poça. No chão, do lado do pendura.
 
Adorei.
 
E à cabeça vinha-me esta frase:
 
"Até os meus exércitos sonhados sofreram derrota."
 
E é isso. Não o saberia dizer de forma mais eloquente nem mais verdadeira. É isto tal e qual. Até os meus exércitos sonhados sofreram derrota...

26 de maio de 2014

RIR

A visita da praxe :)


A espera entre concertos...
 
Até que veio o grande entretainer... Não me desiludiu nem um bocadinho, mas acho que 1h15 foi pouco tempo... :(

 



17 de abril de 2014

18 de março de 2014

POEMA FINAL

          Ó cores virtuais que jazeis subterrâneas,
‑ Fulgurações azuis, vermelhos de hemoptise,
Represados clarões, cromáticas vesânias ‑,
No limbo onde esperais a luz que vos batize,

As pálpebras cerrai, ansiosas não veleis.

Abortos que pendeis as frontes cor de cidra,
Tão graves de cismar, nos bocais dos museus,
E escutando o correr da água na clepsidra,
Vagamente sorris, resignados e ateus,

Cessai de cogitar, o abismo não sondeis.

Gemebundo arrulhar dos sonhos não sonhados,
Que toda a noite errais, doces almas penando,
E as asas lacerais na aresta dos telhados,
E no vento expirais em um queixume brando,

Adormecei. Não suspireis. Não respireis.
Camilo Pessanha

26 de janeiro de 2014

Estudo revela que 30% dos empregadores portugueses não encontram as competências de que precisam...

Isto é especialmente grave quando se lê que as falhas são ao nível de "carência no que se refere à capacidade de resolver problemas e à proficiência em inglês"... 

Eu já terminei o 12ºano há quase 16 anos. Pessoas que nasceram em 1998 (ano em que concluí o 12ºano) já estão no ensino secundário. Desde há 16 anos, o inglês tornou-se obrigatório desde a 1ªclasse. Os miúdos estão cada vez mais expostos às línguas estrangeiras. Têm computadores e internet e tudo (no meu tempo havia, mas quase ninguém tinha acesso a essas coisas) e mesmo assim continuam sem ter competências em inglês.


Quanto à capacidade de resolver problemas... é um problema em si mesmo que vem desde professores mal preparados, professores desmotivados e muitas vezes professores muito bem intencionados e competentes, mas sem ferramentas... com pais que se desligam da educação dos filhos. Televisões que se ligam em tudo exceto em notícias. Famílias e escolas que não promovem a discussão de ideias e que criam seres autómatos em vez de criarem seres autónomos.

Todos temos responsabilidade. Mas como não posso ir dentro de casa das pessoas obrigá-las a ver notícias e a falar com os filhos em vez de os deixarem entregues aos computadores, posso pelo menos dizer que as políticas do Ministério da Educação têm sido desastrosas.

Continuam a brincar com a educação dos miúdos. Fazem experiências da treta. Põem coisas, tiram coisas... depois põem outra vez. Quem ganha são as editoras. Perdem os professores (porque andam sempre à nora a tentar fazer sentido do que não faz sentido e acreditem que há programas que não fazem sentido nenhum!!), perdem as famílias porque gastam mais dinheiro e principalmente perdem os miúdos.

Exemplo disto é o que se tem passado com a questão da obra de leitura obrigatória no 12º ano. Memorial do Convento nuns anos. Depois MC ou o Ano da morte de Ricardo Reis. Depois só o Ano da morte de Ricardo Reis e depois o MC outra vez. E tudo isto a acontecer entre 2015 e 2018. As editoras publicam mais livros especializados na obra nova, publicam mais manuais, os professores fazem o seu trabalho e os alunos andam à nora... porque o MC faz mais sentido, olhando ao 12ºano como um todo. Mas ninguém foi ouvido. Alguém achou que os alunos deveriam conhecer melhor esta obra... eu não tenho nada contra o conhecimento nem contra a leitura, mas acho que as coisas estão a ser feitas sem método e de forma a favorecerem quem menos precisa de ser favorecido (as editoras).

Falo neste exemplo, porque é aquele que melhor conheço. Haverá muitos outros, noutras áreas...

Enfim...

21 de outubro de 2013

Que é isto que a minha alma sente?

Começa a ir ser dia,
O céu negro começa,
Numa menor negrura
Da sua noite escura,
A Ter uma cor fria
Onde a negrura cessa.

Um negro azul-cinzento
Emerge vagamente
De onde o oriente dorme
Seu tardo sono informe,
E há um frio sem vento
Que se ouve e mal se sente.

Mas eu, o mal-dormido,
Não sinto noite ou frio,
Nem sinto vir o dia
Da solidão vazia.
Só sinto o indefinido
Do coração vazio.

Em vão o dia chega
Quem não dorme, a quem
Não tem que ter razão
Dentro do coração,
Que quando vive nega
E quando ama não tem.

Em vão, em vão, e o céu
Azula-se de verde
Acinzentadamente.
Que é isto que a minha alma sente?
Nem isto, não, nem eu,
Na noite que se perde.
Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"

24 de agosto de 2013

Da morte do autor

"Falou-se muito naquela altura da morte do autor porque de vez em quando decidimos matar qualquer coisa, matamos a arte, a literatura, dizemos que já não haverá mais... Começámos por tentar matar Deus, mas ele tem sete fôlegos como os gatos e ainda não o conseguimos realmente. Foi também o caso de Roland Barthes ao afirmar que o autor morreu. Se esta sentença já tivesse sido executada como é que seria no caso do D. Quixote? Se tivessem morto o Cervantes antes de ele começar a escrever o livro gostava de saber quem é que o iria escrever. Perde-se demasiado tempo em cabriolas e pequenas acrobacias que apenas querem é agitar as coisas gratuitamente. Não é que as coisas não devam ser agitadas, mas, segundo creio saber, o Barthes mais tarde matizou esta afirmação tão peremptória de que o autor tinha morrido. 

Porque eu pergunto, por exemplo, uma peça de teatro é uma obra literária? Também é, e onde está o narrador? Onde está? Não está. Às vezes diz-se, para sair da dificuldade, «está na didascália, porta à direita, mesa no meio». Não, não, não! Falar é, digamos, do complexo que é o diálogo, das situações que são vividas pelos atores, sem citar o narrador. Até se pode pôr lá um narrador, alguém que está encarregado de preencher um vazio numa situação ou noutra e que em vez de estar no palco está a dizer «isto, aquilo, como vão ver». O que, no fundo, é voltar ao contador de histórias, ao narrador oral. Portanto, quando digo que não há narrador, sou eu o responsável - eu autor, eu, eu pessoa, eu José Saramago - porque sou eu quem está a escrever

Que lá na universidade venham para aqui falar de narrador implícito e de mais aquilo e do narratário, é confuso e é uma teoria que não me ajuda em nada. Não se vai de uma teoria para uma prática, começa-se sempre por uma prática e depois organiza-se uma teoria. Uma teoria que mais ou menos explica essa prática. Também ninguém começou por elaborar uma teologia para justificar um deus, começou-se por afirmar a existência de Deus e depois elaborou-se a teologia que vai explicá-lo. Então, se sou eu quem está a escrever, se sou eu em quem maneja, eu quem cria as personagens e as situações e tudo o mais, há realmente uma proximidade e uma voz, a voz que eu sou, que eu tenho - assim vejo eu e têm-mo dito - e que cria uma proximidade entre o autor e o leitor. A um leitor de um livro meu não lhe ponho distâncias, eu de alguma maneira estou a falar com ele sem saber quem ele é. Estou a lançar palavras num papel ou num ecrã do computador e não estou a pensar no leitor a que me estou a dirigir. Não penso num tipo determinado, ninguém pensa nos leitores quando está a escrever, pensa em si próprio, pensa no que está a escrever, no trabalho que está a realizar. É uma forma de manejar o discurso como se fosse uma longa história contada em voz alta.

Repare, quando eu publiquei o Levantado do Chão, de onde se instala esse estilo e essa forma de narrar, ofereci o livro a um amigo que dois dias ou três depois me estava a telefonar para dizer que não percebia nada. Tinha lido três páginas e não entendia nada do que eu tinha escrito. E eu disse: «Oh pá, não gosto de ouvir isso, evidentemente, mas enfim... Experimenta ler em voz alta». E, passados uns dias, ele telefona-me a dizer: «Já sei o que é que queres. Queres que eu ouça na minha cabeça aquilo que estou a ler». E é assim, eu estou a contar uma história com esta boca, esta língua, estes dentes e estas cordas vocais. Com a diferença de que isto está a ser posto com signos, que são letras, são palavras, num papel ou no disco duro do computador."


João Céu e Silva, Uma longa viagem com José Saramago, pp.101-102



29 de junho de 2013

A vida em imagens

 
 Quinta da Arroba


 Praia do Barril

 Manta Rota

À esquerda, a pintura que uma menina de 6 anos faz sozinha. À direita, a pintura que uma menina de 6 anos faz quando comete o erro de dizer "Ana, ajuda-me!". Saiu aquilo. Desculpa Margarida, prometo que nunca mais mexo nos teus pincéis e tintas.