21 de outubro de 2008

De Kafka a Steven Saylor

Nunca tinha lido nada do Kafka. Comprei, no início do ano, a "Metamorfose". Porque gosto da palavra, porque o livro era bastante barato. :)

Inquietou-me muito. Passei quase todo o livro a perguntar "Porquê?". O que as personagens nunca perguntam, mas que não me saía da cabeça... Porquê? Depois comecei a admirar aquela pessoa que não perguntava Porquê, mas que se concentrava em mudar a sua situação. E pensava, "de facto, para que serve o Porquê? O importante é seguir em frente." O Porquê é passado e o que interessa é o futuro. Será? Não será importante saber o Porquê das coisas para melhor as resolver? Eu acho que sim e por isso é que me fazia confusão que toda a gente aceitasse aquela situação e ninguém tentasse saber por que é que o Gregor estava assim... diferente, metamorfoseado... Serei eu uma pessoa de Porquês?



Este livro é uma gigante metáfora à vida humana. À nossa maneira de ver e de estar na vida. Mudamos ao longo da nossa vida. Não somos sempre os mesmos. Não mudamos de forma, mas muda a forma da nossa alma. E esperamos, sempre, que os nossos (a nossa família e os nossos amigos) estejam sempre lá por nós. A família do Gregor, perante aquela metamorfose, não esteve lá por ele. Talvez no início, um pouco, quando esperavam que tudo aquilo fosse passageiro. Mas não era... E também não era uma metamorfose que a sociedade aceitasse como "normal", "comum"... ao contrário da metamorfose que a filha estava a começar a sofrer... Será que há um limite para o amor incondicional?




"O reconhecimento desta transformação tranquilizou-os e, quase inconscientemente, trocaram olhares de aprovação total, concluindo que se aproximava a altura de lhe arranjar um bom marido. E quando, terminado o passeio, a filha se pôs de pé antes deles, distendendo o corpo jovem, sentiram, com isso, que aqueles novos sonhos e suas esperançosas intenções haviam de ser realizados."


É um livro que se lê em dois dias, mas que precisa de outros tantos para amadurecer dentro de nós... Gostei.


A minha próxima aventura é um livro daqueles caros. Gastei nele o meu cheque prenda de 20€ da Bertrand e ainda tive de dar dinheiro. Mas, Steven Saylor, para mim, vale a pena. Tenho toda a colecção Roma sub-rosa e este grande romance irá valer a pena. Adoro um livro que tem mapas no início, e árvores genealógicas e tem mais de 500 páginas :)



Fiquei traumatizada quando uma rapariga minha conhecida, e que foi a Roma este mês, me disse, ao mostrar as fotos: "era só calhaus! calhaus e mais calhaus! ah! Calhaus e estátuas sem cabeça!". E eu perguntei: "E o Coliseu? Foste lá? Como é?". Responde ela: "Não fomos lá dentro, era só calhaus!". Eu tremi e vim-me embora a pensar para mim-mesma "dá Deus nozes..." Como não posso ir a Roma fisicamente, viajo com o Steven Saylor e sei que vai valer a pena, mais ou menos calhau! :)

13 comentários:

Verónica disse...

Kafka é desconcertante, para dizer o mínimo. Li "O Castelo" e também estava sempre a perguntar "porquê?". E essa pergunta mexe connosco, tira-nos a paz, agonia-nos. Mais para o fim do livro, já sem tantas forças para questionar, deixei-me simplesmente levar...

Graças ao meu mano :), já estive no café que o Kafka frequentava e na casa onde viveu. Praga, a cidade das mil torres e das inúmeras pontes sobre o Moldava, é lindíssima.

Ianita disse...

Também quero!! (ou será que tem muitos calhaus?!)

Tenho de ler mais livros dele, mas tenho de deixar passar um tempo. Cometi o erro de tentar ler outro livro do Milan Kundera, logo depois da "Ignorância" e não consegui. Acho que preciso dar tempo para o autor respirar dentro de mim e só depois de ler outras coisas, voltar. (São ambos checos, reparaste? o que terá este país?)

E tenho de viajar sem ser na leitura...

Kiss

Dawa disse...

Admiro muito Kafka e ando há muuuuuitoooo tempo para ler esse livro.
Abriste-me o apetite! ;)
Beijinhos!

Ianita disse...

Parece-me é que não consigo entusiasmar ninguém para o Steven Saylor... Para quem quiser arriscar, aconselho "Sangue Romano" o primeiro da saga "Roma sub-rosa". É um policial passado na Roma do século I a.C. Os crimes são verídicos, o detective é que nem por isso. :)

Quanto ao Kafka... Talvez no próximo ano leia mais. Este ano já não.

Kisses :)

im disse...

Será que o tão falado amor incondicional existe? Tenho as minhas dúvidas...

beijo

Ianita disse...

Pois, se calhar depende das condições. :)

Mas é uma coisa que temos como adquirida, não é? Não digo dos namorados ou maridos, mas o amor dos nossos pais e irmãos.

Aquele amor incondicional daqueles pais na "Metamorfose" só existe até certo ponto e, depois, deixa de existir, ou é canalizado para a filha.

E, para não falar nos outros, será que nós seremos capazes de "amor incondicional"? Depende das condições :)

Kiss

Lita disse...

Também gosto de Kafka. Quanto aos porquês, recordo de me dizerem, uma vez, que não devíamos perguntar tantas vezes porquê, mas sim, para quê. Nessa altura, fez-me sentido.
Quanto a leitura, confesso que sou louca por fantasia.

Ianita disse...

Pois, mas se não soubermos de onde vimos, saberemos para onde vamos? Para resolver uma situação não será necessário saber o "porquê"? Também não sei, mas julgo que alguns porquês são importantes.

A fantasia não me cativa assim muito, sou mais de entrar no livro e, para isso, preciso de desligar a "descrença" e embarcar. É mais fácil isso acontecer no romance histórico que é muito a minha onda. Mas estou aberta a sugestões.

Kisses :)

Jorge Rita disse...

As cidades históricas são assim: ou se gosta ou se detesta. Uma das minhas férias visitei uma pequena parte da Turquia e além da praia visitei "calhaus com História". Uma viagem entusiasmante. Pensei que se as férias fossem com outro grupo de pessoas, outros amigos, eles não haveriam de achar piada nenhuma e eu não acharia a viagem tão interessante.
Os calhaus também têm piada!

Isandes disse...

Bem, tens 1 ritmo de leitura... Dormes e comes e tomas banhoca e dormes e vês TV e petiscas? :)
Quanto à história dos calhaus, COMO É POSSÍVEL?!?

Ianita disse...

Jorge: O Mundo Grego é outra viagem de sonho... com muitos muitos, mas muitos calhaus. :) E adorei a expressão "calhaus com história", dava um bom programa de tv, não achas?

Isandes: antes que se pense que sou uma fulana armada a intelectualóide, entenda-se que este mês li mais livros que no resto do ano todo. Há fases assim... E sim, faço tudo e ainda durmo 8h por dia e 10h ao fim-de-semana :)

Não tem mal não se gostar de calhaus, mas quem não gosta de calhaus se calhar não devia pagar muitos eurinhos para ir a lugares como Roma. De que é que ela estava à espera? Se eu for a Nova Iorque sei que não vou encontrar ruínas nem lugares com mais de 200 anos... cada lugar tem a sua característica e a sua magia. Temos é de nos conhecer e escolher um local que nos agrade, à partida, para depois não andarmos a meter nojo com "é só calhaus e mais calhaus e mais calhaus!".

Kisses :)

Anita :) disse...

Adorei a Metamorfose mas, o meu preferido do Kafka continua a ser "O Processo"!! fantástico...aconselho-te vivamente:)

Beijinho

Ianita disse...

Hummm.... Vou apontar na minha lista... mas o próximo que vou comprar vai ser mm o novo do Zézinho.

Kisses