"Publicada originalmente em três partes, esta obra representaria o reconhecimento de Auster como um dos melhores narradores norte-americanos de todos os tempos. Em Cidade de Vidro, uma chamada telefónica enreda um escritor numa complexa trama de loucura e redenção. Fantasmas conta as andanças de um detective envolvido no caso mais estranho da sua carreira. E O Quarto Fechado narra o encontro de um romancista com os seus próprios demónios, originado pelo desaparecimento de um amigo de infância. O acaso, a natureza da vontade e o suspense encontram-se nestes três desconcertantes relatos, que exploram a mistura de ensaio e ficção, a reflexão sobre o processo criador e o enigmático jogo de espelhos com a realidade." (na contra-capa de A trilogia de Nova Iorque, de Paul Auster)
Desconcertante é a palavra correcta. As duas primeiras histórias são muito semelhantes. Focam-se ambas no eu, no que nos motiva a fazer determinada coisa, no que nos testa os limites, fala dos próprios limites. A terceira história é diferente. É ainda mais pessoal. Ainda mais desconcertante.
Nas três sentimos sempre que o autor/narrador/personagem está a brincar com os limites da realidade, com os limites da loucura. Dei por mim muitas vezes a ter de parar, reler, pensar mais e melhor no que estava a ler. Pensar em mim e nos meus limites.
Não foi à toa que falei em autor/narrador/personagem. Há uma linha demasiado ténue a separar cada um deles. Aliás, Auster aparece como personagem na primeira história, assim como a mulher Siri e o filho. Paul Auster é claramente um escritor pós-modernista, a brincar não só com os limites da realidade, mas também com os limites da própria escrita. Testando o leitor. Interpelando o leitor.
Gostei muito, embora o pós-modernismo não seja, de todo, o meu movimento preferido. Gosto de acreditar no que leio, de entrar na leitura, e estes senhores gostam de quebrar a ilusão de realidade, de verdade que rodeia o livro, e dirigem-se directamente ao leitor, falando do processo de escrita do livro. Ainda assim, este livro fez-me pensar, fez-me questionar muito do que tenho como adquirido... faz-me perceber que é ténue a fronteira entre racionalidade e loucura, entre realidade e sonho.
Uma escrita intensa, penetrante, desconcertante. Um livro sobre Nova Iorque na sua essência. Um livro sobre as pessoas de Nova Iorque. Um livro sobre cada um de nós. Um livro que recomendo.
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22 de agosto de 2009
A trilogia de Nova Iorque
4 de agosto de 2009
Elegia para um americano
Um romance sobre pais e filhos, sobre a capacidade de ouvir e a opção de ignorar; a dor inerente ao acto de falar mas também ao silêncio; as ambiguidades da memória, a solidão, a doença e a redescoberta. No seu estilo delicado e comovente, Siri Hustvedt revela as mágoas secretas de uma família através de um extraordinário mosaico de segredos e história que reflectem a fragmentada natureza da identidade.
Assim diz a autora no fim dos agradecimentos:
"A minha maior dívida, no entanto, vai para o meu pai, Lloyd Hustvedt, que morreu a 2 de Fevereiro de 2003. Perto do fim da vida, perguntei-lhe se podia usar, no romance que estava a começar a escrever então, partes das memórias que ele tinha escrito para a família e para os amigos. Ele deu-me a sua autorização. As passagens atribuídas neste livro a Lars Davidsen são partes do texto do meu pai, com apenas umas pequenas alterações de pormenor e de nomes. Neste sentido, depois da sua morte, o meu pai tornou-se meu colaborador. A história do meu tio-avô David também é verdadeira e o artigo de jornal sobre «Dave, o Homem dos Lápis» está citado textualmente. À parte destes empréstimos directos, misturei, no resto do romance e com toda a liberdade, histórias verdadeiras e imaginárias."
Assim diz a autora no fim dos agradecimentos:
"A minha maior dívida, no entanto, vai para o meu pai, Lloyd Hustvedt, que morreu a 2 de Fevereiro de 2003. Perto do fim da vida, perguntei-lhe se podia usar, no romance que estava a começar a escrever então, partes das memórias que ele tinha escrito para a família e para os amigos. Ele deu-me a sua autorização. As passagens atribuídas neste livro a Lars Davidsen são partes do texto do meu pai, com apenas umas pequenas alterações de pormenor e de nomes. Neste sentido, depois da sua morte, o meu pai tornou-se meu colaborador. A história do meu tio-avô David também é verdadeira e o artigo de jornal sobre «Dave, o Homem dos Lápis» está citado textualmente. À parte destes empréstimos directos, misturei, no resto do romance e com toda a liberdade, histórias verdadeiras e imaginárias."
Vi a entrevista que Siri Hustvedt deu no Bairro Alto e fiquei com muita vontade de ler o seu "Elegia para um americano".
Encomendei o livro pela Internet e fui buscá-lo à Bertrand em Leiria. Já tinha lido umas páginas, mas não lhe tinha pegado a sério antes das férias. O facto de não ter televisão ajudou. Li o livro todo em 4 dias.
Não sou muito de autores. Claro que gosto do Pessoa e do Gabo. Mas, tirando estas duas excepções, gosto de livros e não de autores. E, pela minha experiência de leituras e de leitora, dou por mim a gostar mais de autores sul-americanos. Os autores de língua inglesa aborrecem-me. Isto para dizer que, embora me apetecesse muito ler o livro, por outro lado sentia receio de não gostar.
Foi o contrário. Adorei. Um livro que não está dividido em capítulos. Histórias que não têm nada que ver com nada que se vão misturando até que unem na mesma coisa. Histórias envolventes. Histórias de pessoas. Histórias da mente. Histórias do coração. Histórias de amizade. Histórias de família. Histórias do eu que se vai encontrando através dos outros.
As pessoas vivem enquanto são lembradas. E este é um livro para ser lembrado. Terminei de o ler na 5ªfeira, mas só hoje me sinto capaz de escrever acerca dele.
Um livro de emoções. Intenso. Bem escrito. Marcante.
"Está a sorrir para mim e usa novamente a palavra reencarnação. «Não depois da morte, mas aqui, enquanto ainda estamos vivos.» Estende-me a mão e eu seguro nela. Diz: «Vou ter saudades suas.»
- Eu também vou ter saudades suas."
- Eu também vou ter saudades suas."
21 de junho de 2009
A vida num sopro
"Precisava agora de considerar as consequências de tudo o que fora dito nessa conversa. A tentação de aceitar o sacrifício que Amélia se propunha fazer era enorme. Enorme. De uma assentada, e graças a um maravilhoso passe de mágica, ver-se-ia livre do pesadelo horrendo em que a sua vida subitamente se transformara. Como não desejar isso? Mas a verdade é que a magia não passava de puro ilusionismo e Luís não podia aceitar que tanta gente pagasse o preço que seria inevitavelmente cobrado pela sua ilibação. Amélia pagaria com dureza, o marido também, Joana igualmente, para não falar naquele filho que acabara de descobrir.
Pegou na fotografia que Amélia lhe tinha oferecido e contemplou o sorriso infantil que o espreitava do outro lado.
"O meu menino", murmurou.
Uma e outra vez a mente voltou às consequências de aceitar o sacrifício que Amélia se propunha fazer, e sempre, sem falhar, chegou à mesma conclusão. Se Amélia contasse toda a verdade, desgraçar-se-ia a ela e a todos. Incluindo ao seu filho, dali em diante um bastardo que acabaria por ser educado longe da mãe e usado como arma para a punir por uma paixão que jamais deveria ser crime. O pequerrucho tornar-se-ia o bode expiatório do adultério da mãe e não havia nada que ele, Luís, e Amélia pudessem fazer para o proteger. E como seria a vida dela nessas condições? Expulsa pelo marido, longe dos filhos, rejeitada pela irmã, apontada por todos como mulher adúltera, Amélia embarcaria numa viagem de perdição. Se a vida, tal como ela se apresentava nesse instante, já era dolorosa, então tornar-se-ia insuportável.
Isto ele não podia aceitar.
Não tinha dúvidas, porém, que Amélia avançaria mesmo com o seu supremo sacrifício.
(...)
Se Amélia estava disposta a avançar para o supremo sacrifício, então ele não tinha o direito de mostrar menos coragem. O sacrifício teria de ser seu, só seu; essa era a única saída realista para toda aquela confusão."
Pegou na fotografia que Amélia lhe tinha oferecido e contemplou o sorriso infantil que o espreitava do outro lado.
"O meu menino", murmurou.
Uma e outra vez a mente voltou às consequências de aceitar o sacrifício que Amélia se propunha fazer, e sempre, sem falhar, chegou à mesma conclusão. Se Amélia contasse toda a verdade, desgraçar-se-ia a ela e a todos. Incluindo ao seu filho, dali em diante um bastardo que acabaria por ser educado longe da mãe e usado como arma para a punir por uma paixão que jamais deveria ser crime. O pequerrucho tornar-se-ia o bode expiatório do adultério da mãe e não havia nada que ele, Luís, e Amélia pudessem fazer para o proteger. E como seria a vida dela nessas condições? Expulsa pelo marido, longe dos filhos, rejeitada pela irmã, apontada por todos como mulher adúltera, Amélia embarcaria numa viagem de perdição. Se a vida, tal como ela se apresentava nesse instante, já era dolorosa, então tornar-se-ia insuportável.
Isto ele não podia aceitar.
Não tinha dúvidas, porém, que Amélia avançaria mesmo com o seu supremo sacrifício.
(...)
Se Amélia estava disposta a avançar para o supremo sacrifício, então ele não tinha o direito de mostrar menos coragem. O sacrifício teria de ser seu, só seu; essa era a única saída realista para toda aquela confusão."
A vida num sopro, José Rodrigues dos Santos
Acabado de ler hoje... Acho que marquei mais de metade do livro. Um romance sobre Portugal, a vida, a morte, o amor, a paixão, o sofrimento e sobre a o Amor de letra maiúscula. Aquele Amor tão grande que abdica da sua felicidade pela felicidade do outro. A incapacidade do Homem perante as circunstâncias em que vive. "Não passamos de marionetas das circunstâncias". Um romance vivido há 80 anos, num Portugal de há 80 anos. O rigor histórico, a riqueza das personagens. Sublime.
13 de janeiro de 2009
Certezas, precisam-se!
Preciso urgentemente de adquirir meia dúzia de valores absolutos,
inexpugnáveis e impenetráveis,
firmes e surdos como rochedos.
Preciso urgentemente de adquirir certezas,
certezas inabaláveis, imensas certezas, montes de certezas,
certezas a propósito de tudo e de nada,
afirmadas com autoridade, em voz alta para que todos oiçam,
com desassombro, com ênfase, com dignidade,
acompanhadas de perfurantes censuras no olhar carregado, oblíquo.
Preciso urgentemente de ter razão,
de ter imensas razões, montes de razões,
de eu próprio me instituir em razão.
Ser razão!
Dar um soco furibundo e convicto no tampo da mesa
e espadanar razões nas ventas da assistência.
Preciso urgentemente de ter convicções profundas,
argumentos decisivos,
ideias feitas à altura das circunstâncias.
Preciso de correr convictamente ao encontro de qualquer coisa,
de gritar, de berrar, de ter apoplexias sagradas
em defesa dessa coisa.
Preciso de considerar imbecis todos os que tiverem opiniões diferentes da minha,
de os mandar, sem rebuço, para o diabo que os carregue,
de os prejudicar, sem remorsos, de todas as maneiras possíveis,
de lhes tapar a boca,
de lhes cortar as frases no meio,
de lhes virar as costas ostensivamente.
Preciso de ter amigos da mesma cor, caras unhacas,
que me dêem palmadinhas nas costas,
que me chamem pá e me façam brindes
em almoços de camaradagem.
Preciso de me acocorar à volta da mesa do café, e resolver os problemas sociais
entre ruidosos alívios de expectoração.
Preciso de encher o peito e cantar loas,
e enrouquecer a dar vivas,
de atirar o chapéu ao ar,
de saber de cor as frequências dos emissores.
O que tudo são símbolos e sinais de certezas.
Certezas!Imensas certezas! Montes de certezas!
Pirinéus, Urais, Himalaias de certezas!
(António Gedeão)
21 de outubro de 2008
De Kafka a Steven Saylor
Nunca tinha lido nada do Kafka. Comprei, no início do ano, a "Metamorfose". Porque gosto da palavra, porque o livro era bastante barato. :)
Inquietou-me muito. Passei quase todo o livro a perguntar "Porquê?". O que as personagens nunca perguntam, mas que não me saía da cabeça... Porquê? Depois comecei a admirar aquela pessoa que não perguntava Porquê, mas que se concentrava em mudar a sua situação. E pensava, "de facto, para que serve o Porquê? O importante é seguir em frente." O Porquê é passado e o que interessa é o futuro. Será? Não será importante saber o Porquê das coisas para melhor as resolver? Eu acho que sim e por isso é que me fazia confusão que toda a gente aceitasse aquela situação e ninguém tentasse saber por que é que o Gregor estava assim... diferente, metamorfoseado... Serei eu uma pessoa de Porquês?


Este livro é uma gigante metáfora à vida humana. À nossa maneira de ver e de estar na vida. Mudamos ao longo da nossa vida. Não somos sempre os mesmos. Não mudamos de forma, mas muda a forma da nossa alma. E esperamos, sempre, que os nossos (a nossa família e os nossos amigos) estejam sempre lá por nós. A família do Gregor, perante aquela metamorfose, não esteve lá por ele. Talvez no início, um pouco, quando esperavam que tudo aquilo fosse passageiro. Mas não era... E também não era uma metamorfose que a sociedade aceitasse como "normal", "comum"... ao contrário da metamorfose que a filha estava a começar a sofrer... Será que há um limite para o amor incondicional?
"O reconhecimento desta transformação tranquilizou-os e, quase inconscientemente, trocaram olhares de aprovação total, concluindo que se aproximava a altura de lhe arranjar um bom marido. E quando, terminado o passeio, a filha se pôs de pé antes deles, distendendo o corpo jovem, sentiram, com isso, que aqueles novos sonhos e suas esperançosas intenções haviam de ser realizados."
É um livro que se lê em dois dias, mas que precisa de outros tantos para amadurecer dentro de nós... Gostei.
A minha próxima aventura é um livro daqueles caros. Gastei nele o meu cheque prenda de 20€ da Bertrand e ainda tive de dar dinheiro. Mas, Steven Saylor, para mim, vale a pena. Tenho toda a colecção Roma sub-rosa e este grande romance irá valer a pena. Adoro um livro que tem mapas no início, e árvores genealógicas e tem mais de 500 páginas :)
Fiquei traumatizada quando uma rapariga minha conhecida, e que foi a Roma este mês, me disse, ao mostrar as fotos: "era só calhaus! calhaus e mais calhaus! ah! Calhaus e estátuas sem cabeça!". E eu perguntei: "E o Coliseu? Foste lá? Como é?". Responde ela: "Não fomos lá dentro, era só calhaus!". Eu tremi e vim-me embora a pensar para mim-mesma "dá Deus nozes..." Como não posso ir a Roma fisicamente, viajo com o Steven Saylor e sei que vai valer a pena, mais ou menos calhau! :)
14 de outubro de 2008
Sputnik, Meu Amor
Haruki Murakami. Há pelo menos dois anos que olho para os livros deste escritor japonês nas livrarias. Olho com curiosidade. Os títulos dos livros metem-me confusão e despertam-me curiosidade. Pensei que se tratasse de literatura da treta (não é que também não leia literatura da treta, mas não pago 20€ para a ler) ou livros de auto-ajuda ou do tipo Nicholas Sparks em que tudo é bonito e maravilhoso. Nunca comprei.
Com a Sábado têm saído livros a 1€. Tenho comprado alguns e comprei este do Haruki. Achava o nome parvo e temia pelo conteúdo, mas foi uma agradável surpresa. Li-o em 5 dias de tanto que me entusiasmou (mais um capítulo. Já uma da manhã? Pronto. Só mais um capítulo. Amanhã tenho de acordar cedo, mas... um capítulo a mais não faz diferença. É o último. Depois fecho o livro. Bem... Mais um, só mais um...). Gostei muito. Muito pós-modernista, muito estranho. E o título... Bem já o acho lindo. :)
"Banhado pela pálida luz da Lua, o meu corpo perdera todo o sopro de vida, como uma figurinha de barro. Como se alguém me tivesse lançado um feitiço, como fazem os feiticeiros das Índias Ocidentais, e insuflado de vida - a minha efémera existência - aquele pedaço de barro. A centelha vital extinguira-se. A minha verdadeira vida estava algures, adormecida, e uma pessoa sem rosto enfiara-a numa mala e preparava-se para fugir com ela.
Senti um calafrio tão violento que me deixou quase sem respiração. Algures, num local desconhecido, alguém trocara a ordem das minhas células, soltando os fios que mantinham a minha mente a funcionar. Não conseguia raciocionar. A única coisa a fazer era regressar o mais depressa possível ao meu refúgio habitual. Enchi os pulmões de ar e mergulhei no mar da minha consciência."
(...)
"Salto da cama. Corro as velhas cortinas desbotadas e abro a janela. Ponho a cabeça de fora e ergo os olhos para o céu. Lá está ela, uma meia lua em tons bolarentos, pendurada no céu. Que bom. Estamos ambos a olhar para a mesma Lua do mesmo mundo. Estamos ligados à realidade através do mesmo fio. Só preciso de o ir puxando devagarinho para mim."
Contracapa: "Um estranho triângulo que oferece uma profunda reflexão sobre a solidão, os sonhos e aspirações do indivíduo e a necessidade de os adaptar à realidade." :)
É preciso dizer mais?
10 de outubro de 2008
Monte dos Vendavais
"Nelly, agora estou a ver que me achas uma bruxa egoísta; mas nunca percebeste que se Heathcliff e eu nos casássemos seríamos um casal de mendigos? Por outro lado, se casar com Linton, posso ajudar Heathcliff a subir na vida e a ficar fora do alcance do meu irmão.
(...)
As minhas grandes desgraças neste Mundo têm sido as desgraças de Heathcliff, e eu vi e senti cada uma delas desde o princípio; a minha grande preocupação na vida é ele. Se tudo o mais perecesse e ele ficasse, eu continuaria a existir; e se tudo o mais ficasse e ele fosse destruído, o meu universo tornar-se-ia um desconhecido onde eu me sentiria como se não fizesse parte dele. O meu amor por Linton é como a folhagem dos bosques; o tempo mudá-lo-á, percebo-o bem, como o Inverno muda as árvores. O meu amor por Heathcliff parece-se com as rochas eternas que ficam debaixo; uma fonte de delícias pouco visíveis, mas indespensáveis. Nelly, eu sou Heathcliff; ele está sempre, sempre na minha cabeça, não como prazer, tanto como eu sou sempre um prazer para mim própria, mas como eu mesma; portanto não fales outra vez na nossa separação, pois é impossível e...."
Ontem acabei de (re)ler o Monte dos Vendavais. Estive indecisa em que excerto publicar aqui. Escolhi este porque aqui Cathy sela o seu futuro. Neste dia, com esta escolha, a sua vida e a sua história estão destinadas à tragédia. Aqui, quando ela escolhe Linton a Heathcliff...
Tinha dito uma altura que acredito em amores avassaladores, que gostava de um dia ter um Heathcliff na minha vida. Ideias de alguém que não lia este livro desde os 15 anos. Voltei a adorar o livro se bem que não pelos mesmos motivos. E hoje sei que não quero um Heathcliff.
28 de setembro de 2008
A trança de Inês
"Ah, Inês! Como não passou nada? Passou tudo, Inês, tudo o que pelos séculos além o amor inventou, as suas artes e subterfúgios, as sua agonias e misérias, os embustes esfarrapados com que presume esconder-se do mundo, a palpitação do desejo que faz tremer o chão, crescer o trigo, eclodir as rosas, convocar as tempestades. E, por fim, desdobra a mais perversa de todas as armadilhas, a que nos faz, na hora alucinada da paixão, corpo contra corpo, boca contra boca, alma contra alma, desejar e bendizer a morte.
Morrer por este amor. Morrer contigo"
Há três Pedros, três Inês, três histórias de amor, três tragédias. Cada ser humano tem o direito a três vidas e de escolher a palavra que regerá essas três vidas. Pedro escolheu Paixão.
“O que me afastou do meu amor foi precisamente o meu amor. A paixão, esse desvio do comportamento, esse desequilíbrio da mente. Não posso amar-te porque te amo. Não posso possuir-te porque quero possuir-te. Não posso ser teu porque sou teu.”
A Paixão é o fio condutor de estas três histórias de amor. A primeira história todos conhecemos, corresponde à primeira vida de Pedro, no século XIV. A segunda vida, no século XX, conta a história de um Pedro Santa Clara que ama Inês Castro. São de igual condição social, mas as famílias são rivais e a tragédia adivinha-se logo na primeira linha. É este Pedro que, pela sua loucura, nos relata as suas outras vidas. A do futuro, a terceira e última vida de Pedro, não terá melhor destino que as anteriores. Desta feita, Inês faz parte de uma classe social superior, mas o seu amor continua a não ser possível porque não pode haver mistura de classes. Só quem é superior pode reproduzir-se e com alguém do seu nível. O castigo é a morte.
Neste romance de Rosa Lobato de Faria, a figura de Inês aparece envolta numa névoa de incerteza. A mesma névoa que a envolve há mais de seiscentos anos. Não sabemos, como não saberemos nunca, se ela foi a seduzida ou a sedutora. Esta nuvem de mistério que envolve a figura de Inês contribui também para a construção do mito. A autora mantém estas características de incerteza, de amor e morte, mas acrescenta a certeza de que fosse qual fosse o tempo, fosse qual fosse a condição social, fosse qual fosse a vida, Pedro e Inês haveriam de se amar. E antes como agora, este amor está condenado à tragédia. Antes como agora e sempre, vence a razão do Estado, morre a do Amor.
Esqueçam os preconceitos e descubram esta fantástica escritora. Há muitos outros livros dela que valem muito a pena. Escolhi este, porque não poderia ter escolhido nenhum outro, sendo eu a romântica incurável que sou. Adoro Alcobaça e vibro com a história de Pedro e Inês. Por isso... :)
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