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12 de dezembro de 2010

O anjo branco

É tal e qual isto...

"Sabe, inspector, desde miúdo que ando a tentar perceber o que é isso do bem (...). De certo modo foi essa busca que me levou a esta profissão. Apercebi-me de que um médico é uma pessoa que faz o bem. O bem das pessoas ou, como o senhor diz, o bem da nação. O bem, porém. (...) Mas afinal o que é isso do bem? Se antes da guerra Hitler estivesse a morrer e eu tivesse salvo, será que tinha praticado o bem? Se ajudar um amigo a obter um emprego, estarei a fazer o bem? Então e a outra pessoa que deixa de ir para esse emprego só porque pus lá o meu amigo? Ao fazer o bem a uma pessoa não estarei a fazer o mal à sua concorrente ou às suas futuras vítimas?
(...)
Tive a resposta a este enigma no momento em que vi o mal naquela aldeia. Vi-o impregnado nos corpos carbonizados que se espalhavam pelos escombros, vi-o quando me questionei sobre o que levaria os homens a fazerem uma coisa tão cruel. E depois deparei-me com uma criança que saiu viva e intacta de baixo do corpo queimado de uma desgraçada que os soldados quase haviam morto e percebi que há coisas que o mal, por mais que tente, não poderá conquistar. O amor daquela mãe foi mais poderoso do que o mal daqueles homens. Mas só agora, enquanto estava aqui a ouvi-lo falar, é que consegui transformar em palavras a ideia que desde então me andava a ruminar na mente (...) sabe o que na verdade é o mal?
(...)
É a incapacidade de nos pormos no lugar do outro. Quando soldados matam mulheres e crianças como quem mata formigas, estão possuídos pelo mal porque não conseguem pôr-se no lugar das vítimas, não conseguem perceber a posição delas nem sentir o que elas sentem. O mal é a incapacidade de imaginar os sentimentos do outro e de os sentir como se pudéssemos ser nós."

José Rodrigues dos Santos, O anjo branco

Adorei. Acho que mais que os outros. Gosto dos policiais históricos com o Tomás Noronha. Mas este... este tocou-me fundo. Principalmente na última parte. O Inferno. E confesso que me caiu uma lágrima ao ler as notas finais do autor. E continuo sem perceber como é que as pessoas vivem depois disto. E como é que insistem em cometer os mesmos erros... os mesmos, desde que o Mundo é Mundo.

19 de junho de 2010

De Saramago

Não conheço. Nunca conheci. Nem sei se queria ter conhecido. Há coisas que me cativam. Outras tantas que me afastam.

Independentemente de nacionalismos ou discordâncias de opinião, há algo que se eleva a tudo isso: os livros. A literatura está acima de tudo o resto. Não sei se o Saramgo era boa pessoa, assim como não sei se o Virgílio o era, ou o Aristófanes, ou o Eurípides. Não interessa. Os textos valem por si-mesmos e são maiores que a pessoa que os escreveu... quanto mais não seja porque lhes sobrevivem. Porque os eternizam.

O "Memorial do Convento" é o meu livro favorito escrito em língua portuguesa. E Saramago era um génio literário. Porque, além de outras coisas, reinventa um estilo que estava canonizado, cristalizado, reinventa o romance histórico, o meu género de eleição. O "Memorial do Convento" não é apenas um romance de teor histórico, não é só um romance, é uma obra-prima que tive o privilégio de ler e reler e de ensinar, uma vez que faz parte do programa de 12ºano de Português. Nunca o dei em aulas. Sempre em explicações. Se o desse em aulas, sempre o soube desde que li o livro pela primeira vez, começaria por este excerto:


"... e foi o caso que certo clérigo, costumeiro em andar por casas de mulheres de bem fazer e ainda melhor deixar que lhes façam, satisfazendo os apetites do estômago e desenfadando os da carne, e sempre pontualmente dizendo sua missa, quando lá lhe parecia alçava levando os bens que lhe estavam à mão, e tantas fez que um dia a ofendida, a quem muito mais se tirara do que o tudo que dera, tirou ela ordem de prisão, e indo os oficiais e agarradores a cumpri-la por ordem do corregedor do bairro, a uma casa onde o clérigo já estava vivendo com outras inocentes mulheres, entraram, mas tão desatentos à obrigação que não deram com ele, que estava metido numa cama, e foram a outra onde lhes pareceu que estaria, assim dando vaza para que o padre saltasse, nu em pelo, e, disparando escada abaixo, a murro e pontapé limpou o caminho, ficaram gemendo os quadrilheiros pretos, mas conforme puderam, cainçando, correram atrás do padre pugilista e garanhão, que já lá ia pela Rua dos Espingardeiros, e eram isto oito horas da manhã, começava bem o dia, gargalhadas pelas portas e janelas, ver o clérigo a correr como lebre, com os pretos atrás, e ele de verga tesa, e bem apeirado, benza-o Deus, que um homem tão dotado o lugar dele não é a servir nos altares mas na cama de serviço às mulheres, e com este espectáculo padeceram grande abalo as senhoras moradoras, coitadas, assim desprevenidas, como desprevenidas e isentas estariam as que se achavam rezando na igreja da Conceição Velha e viram entrar o padre resfolgando, em figura de inocente Adão, mas tão carregado de culpas, sacudindo badalo e guisos, à uma apareceu, às duas se escondeu, às três nunca mais foi visto, que nesse passe de mágica deu a diligência dos padres que o recolheram e deram fuga pelos telhados, já vestido, nem isto é sucesso que cause estranheza, se em cestos se içam os franciscanos de Xabregas mulheres para dentro das celas e com elas se gozam, por seu próprio pé subia este padre a casa das mulheres que lhe apeteciam o sacramento, e para não fugirmos ao costumado fica tudo entre o pecado e a penitência, que não é só na procissão da Quaresma que saem à rua as disciplinas, excitantes, quantos maus pensamentos hão-de ter de confessar as senhoras moradoras da baixa de Lisboa e as devotas da Conceição Velha por tão rico padre terem gozado com a vista, e os quadrilheiros atrás dele, agarra, agarra, quem pudera agarrá-lo para um coisa que eu cá sei, dez padre-nossos, dez salve-rainhas, e dez reis de esmola ao nosso padre Santo António, e estar deitada uma hora inteira, com os braços em cruz, de barriga para baixo como à prosternação convém, de barriga para cima que é posição de mais celestial gozo, mas sempre levantando os pensamentos, não as saias, que isso ficará para o próximo pecado."


in, Memorial do Convento, pp. 79/80

2 de fevereiro de 2010

Rosinha

Da vila que era faia ao humor que era de perdição. Do amor de água fresca aos amores de Pedro e Inês. Chamando a música ou vivendo um romance de cordélia. Sentindo o prenúncio das águas ou o pranto de lúcifer. Encontrar-nos-emos nas esquinas do tempo.




29 de janeiro de 2010

Ignoto Deo

Desisti de saber qual é o Teu nome,
Se tens ou não tens nome que Te demos,
Ou que rosto é que toma, se algum tome,
Teu sopro tão além de quanto vemos.

Desisti de Te amar, por mais que a fome
Do Teu amor nos seja o mais que temos,
E empenhei-me em domar, nem que os não dome,
Meus, por Ti, passionais e vãos extremos.

Chamar-Te amante ou pai... grotesco engano
Que por demais tresanda a gosto humano!
Grotesco engano o dar-te forma! E enfim,

Desisti de Te achar no quer que seja,
De Te dar nome, rosto, culto, ou igreja...
– Tu é que não desistirás de mim!



José Régio, in 'Biografia'

19 de janeiro de 2010

13 gotas ao deitar

de Alice Vieira, Catarina Fonseca, Rosa Lobato de Faria, Luísa Beltrão, Rita Ferro, Leonor Xavier.



"Quando seis autoras se juntam para escrever uma história, o resultado é um romance alucinante, onde não faltam mulheres e homens, doenças raras, médicos de índole suspeita, polícias e muito mistério, tudo servido em doses de humor irreverente.
A história, nascida da imaginação de seis mulheres, promete personagens e uma prosa bem viva… apesar das mortes que vão ocorrendo, como é bom de ver. Este romance constitui um divertimento para as seis escritoras que se encontraram (reencontraram, num caso ou noutro) pelo prazer de dar largas à imaginação e escrever, cada uma, dois capítulos do livro.

Uma mulher com várias personalidades, um lado negro e mistérios mil por desvendar. Quantos segredos cabem numa vida?"

Adorei.

Li-o no fim-de-semana. Estas senhoras não desiludem. Escreveram um romance vivo, cheio de peripécias, na maioria parvas. Não há que questionar as pontas soltas nem a lógica da história. A lógica é não ter lógica. Ou, a lógica é ser divertido.

E é. É um livro super divertido e muito bem escrito.

A minha única crítica vai para o facto de não sabermos que capítulo foi escrito por cada uma das autoras. Quanto ao resto... recomendo vivamente a quem se queira divertir com literatura de qualidade.

22 de agosto de 2009

A trilogia de Nova Iorque


"Publicada originalmente em três partes, esta obra representaria o reconhecimento de Auster como um dos melhores narradores norte-americanos de todos os tempos. Em Cidade de Vidro, uma chamada telefónica enreda um escritor numa complexa trama de loucura e redenção. Fantasmas conta as andanças de um detective envolvido no caso mais estranho da sua carreira. E O Quarto Fechado narra o encontro de um romancista com os seus próprios demónios, originado pelo desaparecimento de um amigo de infância. O acaso, a natureza da vontade e o suspense encontram-se nestes três desconcertantes relatos, que exploram a mistura de ensaio e ficção, a reflexão sobre o processo criador e o enigmático jogo de espelhos com a realidade." (na contra-capa de A trilogia de Nova Iorque, de Paul Auster)


Desconcertante é a palavra correcta. As duas primeiras histórias são muito semelhantes. Focam-se ambas no eu, no que nos motiva a fazer determinada coisa, no que nos testa os limites, fala dos próprios limites. A terceira história é diferente. É ainda mais pessoal. Ainda mais desconcertante.

Nas três sentimos sempre que o autor/narrador/personagem está a brincar com os limites da realidade, com os limites da loucura. Dei por mim muitas vezes a ter de parar, reler, pensar mais e melhor no que estava a ler. Pensar em mim e nos meus limites.

Não foi à toa que falei em autor/narrador/personagem. Há uma linha demasiado ténue a separar cada um deles. Aliás, Auster aparece como personagem na primeira história, assim como a mulher Siri e o filho. Paul Auster é claramente um escritor pós-modernista, a brincar não só com os limites da realidade, mas também com os limites da própria escrita. Testando o leitor. Interpelando o leitor.

Gostei muito, embora o pós-modernismo não seja, de todo, o meu movimento preferido. Gosto de acreditar no que leio, de entrar na leitura, e estes senhores gostam de quebrar a ilusão de realidade, de verdade que rodeia o livro, e dirigem-se directamente ao leitor, falando do processo de escrita do livro. Ainda assim, este livro fez-me pensar, fez-me questionar muito do que tenho como adquirido... faz-me perceber que é ténue a fronteira entre racionalidade e loucura, entre realidade e sonho.

Uma escrita intensa, penetrante, desconcertante. Um livro sobre Nova Iorque na sua essência. Um livro sobre as pessoas de Nova Iorque. Um livro sobre cada um de nós. Um livro que recomendo.

4 de agosto de 2009

Elegia para um americano

Um romance sobre pais e filhos, sobre a capacidade de ouvir e a opção de ignorar; a dor inerente ao acto de falar mas também ao silêncio; as ambiguidades da memória, a solidão, a doença e a redescoberta. No seu estilo delicado e comovente, Siri Hustvedt revela as mágoas secretas de uma família através de um extraordinário mosaico de segredos e história que reflectem a fragmentada natureza da identidade.

Assim diz a autora no fim dos agradecimentos:

"A minha maior dívida, no entanto, vai para o meu pai, Lloyd Hustvedt, que morreu a 2 de Fevereiro de 2003. Perto do fim da vida, perguntei-lhe se podia usar, no romance que estava a começar a escrever então, partes das memórias que ele tinha escrito para a família e para os amigos. Ele deu-me a sua autorização. As passagens atribuídas neste livro a Lars Davidsen são partes do texto do meu pai, com apenas umas pequenas alterações de pormenor e de nomes. Neste sentido, depois da sua morte, o meu pai tornou-se meu colaborador. A história do meu tio-avô David também é verdadeira e o artigo de jornal sobre «Dave, o Homem dos Lápis» está citado textualmente. À parte destes empréstimos directos, misturei, no resto do romance e com toda a liberdade, histórias verdadeiras e imaginárias."


Vi a entrevista que Siri Hustvedt deu no Bairro Alto e fiquei com muita vontade de ler o seu "Elegia para um americano".

Encomendei o livro pela Internet e fui buscá-lo à Bertrand em Leiria. Já tinha lido umas páginas, mas não lhe tinha pegado a sério antes das férias. O facto de não ter televisão ajudou. Li o livro todo em 4 dias.

Não sou muito de autores. Claro que gosto do Pessoa e do Gabo. Mas, tirando estas duas excepções, gosto de livros e não de autores. E, pela minha experiência de leituras e de leitora, dou por mim a gostar mais de autores sul-americanos. Os autores de língua inglesa aborrecem-me. Isto para dizer que, embora me apetecesse muito ler o livro, por outro lado sentia receio de não gostar.

Foi o contrário. Adorei. Um livro que não está dividido em capítulos. Histórias que não têm nada que ver com nada que se vão misturando até que unem na mesma coisa. Histórias envolventes. Histórias de pessoas. Histórias da mente. Histórias do coração. Histórias de amizade. Histórias de família. Histórias do eu que se vai encontrando através dos outros.

As pessoas vivem enquanto são lembradas. E este é um livro para ser lembrado. Terminei de o ler na 5ªfeira, mas só hoje me sinto capaz de escrever acerca dele.

Um livro de emoções. Intenso. Bem escrito. Marcante.


"Está a sorrir para mim e usa novamente a palavra reencarnação. «Não depois da morte, mas aqui, enquanto ainda estamos vivos.» Estende-me a mão e eu seguro nela. Diz: «Vou ter saudades suas.»
- Eu também vou ter saudades suas."

30 de junho de 2009

Dido e Eneias

Dido e Eneias são par estereótipo (aprendi esta palavra no outro dia e agora não a largo). Um exemplo de como o amor-paixão pode destruir vidas. Um exemplo de como o dever e o Bem de todos tem de estar acima do egoísmo e do bem pessoal. Os romanos, como os gregos antes deles, gostavam de exemplos assim. Porque as pessoas não viviam para si, viviam para a cidade.

Eneias amava Dido. Amava Dido e teve de a deixar ferida de morte, ferida de amor. Deixou-a para fundar a cidade que viria a ser a sede de um Império. Ela ficou... abandonada... ferida... magoada... e arruinou-se e aos seus, matando-se.

A culpa é do Eneias? Talvez. Eu vejo Eneias como o homem sem vontade. O homem que faz o que lhe dizem... não pode morrer a lutar por Tróia. Perde a pátria, perde o pai e perde Dido. É um homem com um destino maior que ele. Olhando para o mapa percebo que se fosse nos tempos de hoje eles poderiam ter mantido uma relação à distância. Naquele tempo, a partida de Eneias era um adeus para sempre... um adeus cobarde ou corajoso? Não será corajoso quem deixa um amor em prol do bem maior? Ou é corajoso quem enfrenta e vive o amor? Não sei.

Sei que esta história de amor, tipicamente clássica por ser tão trágica, influenciou artistas e escritores ao longo dos tempos.

Esta composição, do século XVII, aparece no início de uma obra-prima do cinema, o "Fala com ela" do Pedro Almodôvar. Coreografada e dançada por Pina Bausch. Este excerto é de uma beleza extrema... todo este filme... ter este Dido e Eneias como peça de abertura já nos deveria alertar para o que se ia passar... mas por mais preparados que estejamos, Almodôvar surpreende sempre. Um filme de mulheres, como são todos. Um filme de sofrimentos, um filme de sentimentos. Fica a música, fica Pina Bausch.


24 de junho de 2009

Ressurreição

"Não sei se acreditas. Se acreditas Nele. Se te dá conforto, quando alguns muros se desmoronam. Não sei se sabes. Que Ele pode até nem existir. Que pode tudo ser uma longa história que nos contaram desde cedo, só para termos uma força superior a apoiar-nos. Das que mais recordo, nos tempos em que ouvir falar Dele era uma obrigação. Aquela em que alguém se sentia abandonado, porque na praia via apenas as próprias pegadas. E Ele respondia qualquer coisa do género. Se não me sentiste ao teu lado, foi porque nessa altura te peguei ao colo.

(...)

Por isso. Seja Ele, seja quem for. Hoje, ou noutros momentos. Sempre que precisares. Há-de haver quem te leve ao colo. Quem te ajude a levantar. Quem te diga uma palavra. Ou, simplesmente, quem fique em silêncio a ouvir-te. Hoje, sempre. Para o que precisares. Eu posso..."


Escreveram-me isto (Obrigada Vera pelas palavras sempre certas)... e a verdade é que nem eu sei se acredito. Quer dizer... não é que acredite, porque não acredito. Mas também não quer dizer que não acredite, porque acredito. Estou no limbo... Gostava de ter a paz que reconheço nos que acreditam e nos que não acreditam. Eu acredito, mas não acredito. Eu não acredito, mas acredito.

Entretanto ontem, andava a meias entre a novela dos indianos e o Bairro Alto, onde estava a ser entrevistada a escritora Siri Hustvedt que falava do seu último livro, "The Sorrows of an American". E houve algo que ela disse que me fez pleno sentido... o Fialho Gouveia Filho perguntava-lhe por uma personagem. Uma menina que está em coma e que acorda. Dizia ele que ela como escritora tinha o poder de vida e de morte das suas personagens e perguntou o porquê de aquela personagem em particular ter sobrevivido (pergunta deveras interessante, devo dizer). E ela falou em ressurreição... Não a Ressurreição cristã, daquela dos catecismos, aquela de morrer e voltar a viver, mas uma Ressurreição em Vida. Voltar à vida enquanto se vive. Reencarnar em vida...

E nisto eu acredito. Acredito na força sobre-humana que nos move. Acredito na luz que carregamos e que nos carrega, que nos leva ao colo. Acredito na Força. A menina em coma simboliza-nos a todos... todos nós... quando estamos mal, quando nos deixamos ir abaixo pelas circunstâncias da vida, quando estamos deprimidos, cansados, subjugados... quando baixamos os braços e paramos de lutar... lutar pela vida, lutar por nós, pelos outros, pelo que nos rodeia. E todos nós temos a capacidade de acordar desse torpor... todos podemos, todos conseguimos... voltar à vida!

Nesta força eu acredito. Acredito no ser-humano e na sua capacidade de fazer mais, ser mais, viver mais. Ressurreição em vida. Gostei.


Deixo-vos a epígrafe do livro, uma frase de Rumi, poeta persa do século XI: “Don’t turn away. Keep looking at the bandaged place. That’s where the light enters you.”

E, como não poderia deixar de ser, a música da Jem que a Vera escolheu para mim :) I will keep on walking...


21 de junho de 2009

A vida num sopro

"Precisava agora de considerar as consequências de tudo o que fora dito nessa conversa. A tentação de aceitar o sacrifício que Amélia se propunha fazer era enorme. Enorme. De uma assentada, e graças a um maravilhoso passe de mágica, ver-se-ia livre do pesadelo horrendo em que a sua vida subitamente se transformara. Como não desejar isso? Mas a verdade é que a magia não passava de puro ilusionismo e Luís não podia aceitar que tanta gente pagasse o preço que seria inevitavelmente cobrado pela sua ilibação. Amélia pagaria com dureza, o marido também, Joana igualmente, para não falar naquele filho que acabara de descobrir.

Pegou na fotografia que Amélia lhe tinha oferecido e contemplou o sorriso infantil que o espreitava do outro lado.

"O meu menino", murmurou.

Uma e outra vez a mente voltou às consequências de aceitar o sacrifício que Amélia se propunha fazer, e sempre, sem falhar, chegou à mesma conclusão. Se Amélia contasse toda a verdade, desgraçar-se-ia a ela e a todos. Incluindo ao seu filho, dali em diante um bastardo que acabaria por ser educado longe da mãe e usado como arma para a punir por uma paixão que jamais deveria ser crime. O pequerrucho tornar-se-ia o bode expiatório do adultério da mãe e não havia nada que ele, Luís, e Amélia pudessem fazer para o proteger. E como seria a vida dela nessas condições? Expulsa pelo marido, longe dos filhos, rejeitada pela irmã, apontada por todos como mulher adúltera, Amélia embarcaria numa viagem de perdição. Se a vida, tal como ela se apresentava nesse instante, já era dolorosa, então tornar-se-ia insuportável.

Isto ele não podia aceitar.

Não tinha dúvidas, porém, que Amélia avançaria mesmo com o seu supremo sacrifício.
(...)
Se Amélia estava disposta a avançar para o supremo sacrifício, então ele não tinha o direito de mostrar menos coragem. O sacrifício teria de ser seu, só seu; essa era a única saída realista para toda aquela confusão."


A vida num sopro, José Rodrigues dos Santos


Acabado de ler hoje... Acho que marquei mais de metade do livro. Um romance sobre Portugal, a vida, a morte, o amor, a paixão, o sofrimento e sobre a o Amor de letra maiúscula. Aquele Amor tão grande que abdica da sua felicidade pela felicidade do outro. A incapacidade do Homem perante as circunstâncias em que vive. "Não passamos de marionetas das circunstâncias". Um romance vivido há 80 anos, num Portugal de há 80 anos. O rigor histórico, a riqueza das personagens. Sublime.

6 de junho de 2009

De Pessoa em Pessoa













Je ne suis rien
Je ne serai jamais rien
Je ne peux vouloir être rien
À part ça, je porte en moi tous
les rêves du Monde.

19 de abril de 2009

Cânone

No Câmara Clara fala-se de cânones literários, mais propriamente no cânone para os romances de amor. É lógico que nunca vai haver concensos relativamente a isso. O que me espantou, nos primeiros dois minutos de programa, enquanto enunciavam os títulos que fariam parte de um possível cânone, foi a quantidade de livros que quero ler e nunca li. Acho mesmo que uma vida inteira não chega para tudo o que o Mundo tem para nos oferecer. Duas opções... ou baixo os braços e desisto, sabendo de antemão que nunca vou conseguir ler tudo o que quero... ou posso tentar aproximar-me mais. :) Tenho uma compulsão para a compra de livros. Muitas vezes, tenho a plena consciência que não vou ler o livro que comprei, mas... A cada livro que leio estou mais próximo. Devagar, devagarinho... o último livro que comprei foi do Vasco Graça Moura, que está precisamente neste programa, mas não o vou ler já. Shakespeare? Só conheço os sonetos e conheço os enredos das peças, mas nunca as li. Ele que construiu o humano, como estão a dizer agora, ele, o poeta do amor... talvez. :)
(as sugestões dos convidados do programa... é, pelo menos, um bom ponto de partida):
Colette, Verdes Amores
Madame La Fayete, A princesa de Clèves
Camilo Castelo Branco, Amor de Perdição
Gustave Flaubert, Madame Bovary
Camilo Castelo Branco, A sereia
Stendhal, O vermelho e o negro
Dostoiévski, O eterno marido
James Joyce, Ulisses
Henry James, Retrato de uma senhora
Agustina Bessa-Luís, Fanny Owen

3 de abril de 2009

Teremos de o matar

Ora, a Mag desafiou. A Lua também tinha desafiado. E eu tenho andado preguiçosa, mas de hoje não passa.


Página 161 do livro mais perto. Anda comigo na carteira de tão pequeno, nunca pensei que tivesse 161 páginas, mas tem. Vai até às 216. Rosa Lobato de Faria, "O prenúncio das águas". Ainda não cheguei à dita cuja, mas adorei o que li. E por isso não deixo a 5ª frase completa, ponho da 5ª frase até ao fim... que é pouquíssimo, mas revelador :) Desafio quem quiser. Peguem nos livros.


"Não podemos desvendar o segredo, romper o silêncio, quebrar a jura feita ao nosso pai moribundo.

Devemos unir-nos.
Não há outra saída.
Teremos de o matar."
Adoro a forma como isto acaba. "Teremos de o matar". Quem? Quem mata, quem vai ser morto? Que jura foi esta?

25 de março de 2009

Grandes livros

Um recado. Não sei se os programas vão ser bons, mas... prometem. Narração de Diogo Infante. No 1º programa, sobre os Maias, já vi que vão ter o Carlos Reis (que não podia faltar), por isso, rigoroso também há-se ser.
Grandes livros (e não apenas livros grandes), 6ªfeiras às 21h na RTP. Podem consultar o site, aqui.
Cada programa terá como base um grande livro da literatura portuguesa e, a 1ªtemporada, é composta pelas obras abaixo. A ver se não fazem disto um programa chato. :)

Lista de obras para a primeira série de "Grandes Livros":
- Os Maias (Eça de Queirós)
- Os Lusíadas (Luís Vaz de Camões)
- O Delfim (José Cardoso Pires)
- Aparição (Vergílio Ferreira)
- Histórias da Terra e do Mar (Sophia de Mello Breyner Andresen)
- Livro do Desassossego (Fernando Pessoa)
- Sinais de Fogo (Jorge de Sena)
- Sermão de S. Ant. aos Peixes (P. Ant. Vieira)
- Viagens na Minha Terra (Almeida Garrett)
- Mau Tempo no Canal (Vitorino Nemésio)
- Peregrinação (Fernão Mendes Pinto)
- Amor de Perdição (Camilo Castelo Branco)

13 de março de 2009

Sob o olhar de Medeia


Sob o olhar de Medeia é um romance escrito como poesia que nos transporta até a um idílico bucolismo ao estilo de Hesíodo ou de Virgílio.

Fiama Hasse Pais Brandão, com este seu romance de estreia, presta justa homenagem a uma antiguidade clássica que esteve sempre presente na sua obra poética. Desde a primeira linha até à última, não conseguimos deixar de seguir este caminho que nos leva da luz ao fogo da renovação interior.

Medeia é filha de Eetes, da Cólquida, neta do sol e sobrinha da feiticeira Circe. A imagem que perpassa pela tradição é a de uma feiticeira que, por encantos mágicos, ajuda os Argonautas e conquistar o velo de ouro. Jasão promete-lhe casamento em troca da sua ajuda. Todas as atitudes posteriores de Medeia, se bem que não sejam desculpadas, são pelo menos explicadas pelo perjúrio de Jasão.

Os rigores amorosos conduzem as personagens ao limite do racional. O Amor é igualmente o rei que comanda e subordina os mais nobres valores do homem. E Medeia é escrava dele, ela que “mede a grandeza do ódio pela grandeza do amor.” Medeia que se entregou a Jasão, que por ele matou o irmão e traiu o pai, para mais tarde ser por ele traída. Todas as versões do mito se têm centrado em transmitir toda a face irracional, obscura, inconsciente da personagem, visualizar a deformação que o ultraje de Jasão e o exacerbado desejo de vingança infligiram na mens de Medeia, numa palavra, denotar a sua profunda e anti-estóica subordinação às paixões.

Mas, ao contrário do que à primeira vista poderíamos pensar, não encontramos esta Medeia no romance de Fiama. Em Sob o olhar de Medeia, encontramos a Medeia da Cólquida, entregue ao quotidiano campestre e feliz. Mas a outra, aquela Medeia louca de paixão, essa está à espreita.
O romance está dividido em nove partes: luz, terra, ar, água, exílio, vida, saudade, morte e fogo. No primeiro capítulo, a luz surge como elemento ligado à felicidade. Aqui nos é relatada a infância feliz de Marta, vivida no quarto materno feito de luz e amor. Mas a luz também é capaz de distorcer a realidade, uma vez que cria mais sombras. E é do outro lado da luz, nas trevas, que Marta vai viver o resto do seu tempo naquela casa desde o dia em que a exilam do quarto materno. É este o seu primeiro exílio e Marta vive-o intensamente e com profundo desgosto. Porque sente a dor intensíssima, a de ser amada e depois expulsa e desterrada. Este tema do exílio vai ser uma constante ao longo de todo o romance, até porque este “desterro” marca definitivamente a vida de Marta.

Acompanhamos Marta no seu dia-a-dia com o caseiro, os seus trabalhos e os seus dias. Uma vida tranquila, cheia de paz, num bucolismo rodeado do Bem, que existe em oposição ao Mal, Lázaro “portador de fuga (…) e de morte”. Um Mal necessário para que exista o Bem.

À medida que Marta cresce, cresce o seu amor à terra a que se misturam os mitos contados pelo seu Ulisses. O mestre que lhe narra as aventuras de Ulisses e depois narrará as de Jasão e dos Argonautas confunde-se no imaginário infantil de Marta com a própria personagem. No fundo do espelho, onde Marta revive as histórias contadas, Ulisses confunde-se com o professor, o mito confunde-se com a vida, como será ao longo de toda a sua vida. “Foi o espraiar da água, ali nas leiras de batata e de couve, e as leituras quase diárias dos clássicos, de Homero a Apolónio ou Hesíodo, que a puseram a meditar no Cosmos, em termos de vácuo e de caos, ela, que antes tanto se empenhava na matéria viva, no mundo e na sua repartição abundante ou suficiente entre todos os homens.”

“Amar a terra é aceitar o duro poder e a benevolência de toda a Natureza, os relâmpagos destruidores, ventos e águas agrestes e, da mesma maneira, vento e água pacificados e benfazejos para o homem, noutro momento.” O dia-a-dia de Marta é feito de deslumbramento com o ciclo da vida e com o Bem, que não depende de nenhum deus católico, mas do que de melhor está dentro de cada um e na Natureza. Deslumbra-se com as tarefas rotineiras da quinta como com o amigo Jesus, que dá a sua vida para salvar um pássaro. Com estes amigos, cujos nomes falam, Marta aprende a reconhecer o mal (os lenhadores), o perdão (que dará mais tarde a Lázaro) e o sacrifício (Jesus). E Marta sorve todos estes ensinamentos e constrói a sua própria religião, feita de amor aos outros e à Natureza.

“A forma de Marta se exprimir sobre as coisas ir-se-á modificando com a idade, dizendo o que viveu, na infância e juventude, com um modo de dizer posterior, feito da memória dos factos e da memória de outros pensamentos, imiscuídos, sem destrinça, nos factos. Como poderia distinguir um mito e a sua própria vida, quando, por vezes, episódios e símbolos comuns os confundiam?” Porque os pomares da quinta se confundem com os “pomares sem tempo” da Cólquida, porque o seu mestre é o Ulisses de Penélope, porque a saída do quarto materno foi um exílio, porque as ovelhas da quinta, sob o olhar de Apolo, pareciam de ouro, como as da mítica Medeia, porque vida e sonho se confundem e são um só.

Marta vive um tempo mítico, vive no isolamento da quinta que encerra em si todo o conhecimento do mundo. Como os antigos, Marta “imaginava o passado e o futuro, ambos fundidos na mesma imagem da cor e da claridade, ambos perdidos e recuperados, na mesma memória, constantemente recomeçada com a passagem dos anos, conforme concluiu depois.”

A felicidade encontra-a assim. Na certeza das pequenas coisas que a maioria das pessoas tem como garantidas. Do seu primeiro exílio, o involuntário, segue-se um outro, voluntário e pensado. A sua entrega aos trabalhos na quinta e às histórias da avó ou do professor não são mais que mais um exílio, uma fuga dos sentimentos que lhe atormentam a alma. Mas é neste exílio que ela encontra a paz do amor à Natureza, encontra companheiros de vida, os bucólicos e os cultos, mediados e aproximados por Marta, uma vez que, para ela, são mundos complementares, o da Natureza e o dos mitos. “Faltava-lhe pensar a relação fundamental do trabalho em comum, do afecto partilhado, das surpresas, entre o nascer e o florir, o madurar, o colher, o secar, o morrer, o renascer, o reflorir, o sempre.” E é sob o olhar de Medeia que Marta vive na sua Cólquida. “Cólquida a que Marta se sente, cada vez mais, pertencer, partilhando na capacidade mágica de uma Medeia marcada pela leitura do mito na modernidade (…): Medeia, a sacerdotisa de um tempo original, mítico e sagrado, uníssono com a natureza. Tempo em que a palavra é mágica e criadora do real, em que a palavra tem o poder de convocar o que nomeia.”


Este é, de facto, um romance que reflecte uma ideologia, um modo de pensar, que sendo actual é também clássica. O campo é um exílio como o é para os exilados de Roma (que têm de sair da urbe e viver no campo) e é lá que Marta reconhece a verdade e a simplicidade da vida, sob o olhar de Medeia, que espreita, como o nosso outro lado, louco, está sempre connosco.

7 de fevereiro de 2009

O carteiro de Pablo Neruda

"Ao amanhecer, armados de uma ardente paciência, entraremos nas esplêndidas cidades".
"Eu acredito nesta profecia de Rimbaud, o vidente. Eu sou de uma obscura província, de um país separado dos outros pela cortante geografia. Fui o mais abandonado dos poetas e a minha poesia foi regional, dolorosa e chuvosa. Mas tive sempre confiança no homem. Nunca perdi a esperança. Por isso, cheguei até aqui com a minha poesia e a minha bandeira.
Em conclusão, tenho de dizer aos homens de boa vontade, aos trabalhadores, aos poetas, que todo o futuro está expresso nesta frase de Rimbaud: só com uma ardente paciência conquistaremos a esplêndida cidade que dará luz, justiça e dignidade a todos os homens.
Assim a poesia não terá cantado em vão."
O carteiro de Pablo Neruda, António Skármeta
A vida tem destas coisas. Um clássico já adaptado ao cinema e eu não tinha nem lido o livro nem visto o filme. Não me causava curiosidade. Entretanto, numa conversa acerca de não sei bem o quê, um amigo diz-me que este era o filme da sua vida. Sendo uma pessoa que muito prezo e admiro, fiquei com a pulga atrás da orelha. O livro saiu com a revista Sábado aqui há uns meses. Comprei e guardei-o perto. Tenho lido outras coisas, mas este livro tem estado sempre por aqui perto a espreitar... a mostrar a sua presença... a exibir-se... a pedir para ser lido.
Comecei ontem... terminei hoje. Escusado será dizer que é um livro belíssimo. Um dos melhores livros que li. Que delícia de narrativa. A poesia que transpira desta narrativa estreita que me conquistou desde o prólogo.
Agora vou procurar o filme. Hei-de conseguir encontrá-lo e comprá-lo e vou vê-lo. Não sei quanto tempo demorará, mas vou conseguir. Quero mesmo ver o filme. Espero que faça jus a este livro fabuloso. Acho que tenho de descobrir mais autores sul-americanos... escrevem de forma diferente. Há qualquer coisa, uma energia que pulsa nas palavras que não se encontra em mais lugar nenhum... O Gabo tem... e este livro também.

4 de fevereiro de 2009

Tempestade

"We are such stuff as dreams are made on." (Shakespeare)
Porque nós somos na dimensão dos nossos sonhos. Porque os sonhos nos fazem avançar. Porque se não sonharmos estagnamos. Porque somos os nossos sonhos.

"Muito embora seus crimes me tivessem tocado tão de perto, em meu auxílio chamo a nobre razão, para sofrearmos de todo minha cólera. É mais nobre o perdão que a vingança." (A tempestade, William Shakespeare).

Só quando limparmos a alma... só quando estivermos livres... só quando ousarmos perdoar-nos... quando ousarmos perdoar quem nos magoa... só quando nos libertarmos das amarras dos maus sentimentos... maus sentimentos que nos impedem de viver... que nos ocupam a alma e o pensamento, que nos impedem de ver com clareza... quando nos libertarmos poderemos ser felizes. A tempestade muda tudo. O mar está revolto, os elementos estão em renovação. Devíamos aproveitar e deixar a tempestade entrar dentro de nós. Deixar que a água lave as coisas más... deixar que o vento forte varra os maus pensamentos. Deixar que as trovoadas exorcisem os nossos pecados. E renascer.

Quando abrirmos os olhos... quando acordarmos, de alma limpa e renovada, poderemos ver esta verdade. Poderemos ver que somos os nossos sonhos. Poderemos ver que o instante mágico existe e que está nas nossas mãos mudar... é claro que dependemos dos nossos para sermos plenamente felizes... mas a nossa felicidade e a das pessoas que nos rodeiam está também nas nossas mãos. Basta decidirmos que queremos. Basta limparmos a alma de tudo o que a suja. Basta sonharmos. Basta sermos do tamanho dos nossos sonhos.

30 de janeiro de 2009

As esquinas do Tempo

Foi mais uma tarde louca e de sonho e, fosse qual fosse a faixa do tempo em que se encontrassem, sentiram-se, como todos os amantes, fora de qualquer espaço e de qualquer tempo. Fizeram um amor sagrado, um amor profano, um amor devoto, um amor transgressor , um amor nómada, um amor sedentário, um amor viajante por ares e mares e terras e rios e desertos e florestas, um amor de bichos, um amor de deuses.
Ontem de manhã fui ao médico. Sabia que ia ter de esperar e então levei um livro. Não levei o Roma porque é demasiado grande para andar na mala. Levei o novo da Rosa Lobato de Faria porque me andava a fazer comichão. Comecei a ler, a ler, a ler, a ler.
Fui chamada para o consultório e acho que emiti um "Já?". Lá fui e depois tive de vir trabalhar... mas tinha deixado a leitura incompleta... a meio de uma página... a meio de tudo. Quando cheguei a casa, ao fim do dia, tinha imensas coisas para fazer. Sendo o imensas, tomar banho, secar o cabelo, vestir o pijama, jantar e levantar a mesa :) Ainda vi o Two and a half Men e depois recomecei a leitura...
Fui para a cama quando o terminei. Caramba! Deve ser bom ter-se certezas destas. Deve ser tão bom saber-se escrever assim. Reconheço ali o Post-Modernismo, mas só nas suas partes boas. Na parte em que nos aproxima do narrador, na parte da escrita corrida que nos engole... as partes chatas do Post-Modernismo não estão ali. Que delícia de escrita. Que delícia de história.
Mas, mais uma vez e tal e qual aconteceu em O romance de Cordélia, a Rosinha dá-nos a volta e leva-nos para um fim que não era o nosso. Um fim que nos angustia. Caramba! Mil vezes caramba! Esta mulher escreve bem! Não posso dizer que seja especialista... li, com este, 5 livros dela... Este "As esquinas do tempo" acaba por ser uma mistura de Romance de Cordélia (na forma como acaba tão fora das nossas expectativas) com A trança de Inês (nas viagens...), precisamente os dois livros dela de que mais tinha gostado.
As esquinas do Tempo... que livro fantástico. Que leitura enriquecedora. Que escrita tão tão boa. Que delícia de livro. Caramba que a Rosinha escreve bem! Deixa-me sempre a leste... Caramba! Que dinheiro tão bem empregue! Caramba!

13 de janeiro de 2009

Certezas, precisam-se!

Preciso urgentemente de adquirir meia dúzia de valores absolutos,
inexpugnáveis e impenetráveis,
firmes e surdos como rochedos.

Preciso urgentemente de adquirir certezas,
certezas inabaláveis, imensas certezas, montes de certezas,
certezas a propósito de tudo e de nada,
afirmadas com autoridade, em voz alta para que todos oiçam,
com desassombro, com ênfase, com dignidade,
acompanhadas de perfurantes censuras no olhar carregado, oblíquo.

Preciso urgentemente de ter razão,
de ter imensas razões, montes de razões,
de eu próprio me instituir em razão.
Ser razão!
Dar um soco furibundo e convicto no tampo da mesa
e espadanar razões nas ventas da assistência.

Preciso urgentemente de ter convicções profundas,
argumentos decisivos,
ideias feitas à altura das circunstâncias.
Preciso de correr convictamente ao encontro de qualquer coisa,
de gritar, de berrar, de ter apoplexias sagradas
em defesa dessa coisa.
Preciso de considerar imbecis todos os que tiverem opiniões diferentes da minha,

de os mandar, sem rebuço, para o diabo que os carregue,
de os prejudicar, sem remorsos, de todas as maneiras possíveis,
de lhes tapar a boca,
de lhes cortar as frases no meio,
de lhes virar as costas ostensivamente.
Preciso de ter amigos da mesma cor, caras unhacas,
que me dêem palmadinhas nas costas,
que me chamem pá e me façam brindes
em almoços de camaradagem.
Preciso de me acocorar à volta da mesa do café, e resolver os problemas sociais
entre ruidosos alívios de expectoração.
Preciso de encher o peito e cantar loas,
e enrouquecer a dar vivas,
de atirar o chapéu ao ar,
de saber de cor as frequências dos emissores.
O que tudo são símbolos e sinais de certezas.
Certezas!Imensas certezas! Montes de certezas!
Pirinéus, Urais, Himalaias de certezas!
(António Gedeão)

2 de outubro de 2008

Brasileiros

O post da Dawa de hoje pedia um poema do Carlos Drummond de Andrade.
Lembrei-me então do Vinicius de Moraes, o meu poeta brasileiro preferido... Há alguns poemas de que gosto mais do que estes que aqui publico, mas os outros são um bocadinho mais deprimentes e hoje não me apetece... :)


Soneto do amigo

Enfim, depois de tanto erro passado

Tantas retaliações, tanto perigo

Eis que ressurge noutro o velho amigo

Nunca perdido, sempre reencontrado.

É bom sentá-lo novamente ao lado

Com olhos que contêm o olhar antigo

Sempre comigo um pouco atribulado

E como sempre singular comigo.

Um bicho igual a mim, simples e humano

Sabendo se mover e comover

E a disfarçar com o meu próprio engano.

O amigo: um ser que a vida não explica

Que só se vai ao ver outro nascer

E o espelho de minha alma multiplica...




Como dizia o poeta

Quem já passou por essa vida e não viveu


Pode ser mais, mas sabe menos do que eu


Porque a vida só se dá pra quem se deu


Pra quem amou, pra quem chorou, pra quem sofreu


Ah, quem nunca curtiu uma paixão nunca vai ter nada, não


Não há mal pior do que a descrença


Mesmo o amor que não compensa é melhor que a solidão


Abre os teus braços, meu irmão, deixa cair


Pra que somar se a gente pode dividir


Eu francamente já não quero nem saber


De quem não vai porque tem medo de sofrer


Ai de quem não rasga o coração, esse não vai ter perdão


Quem nunca curtiu uma paixão, nunca vai ter nada, não

E, quem pensa em Vinicius, não pode deixar de pensar em Tom Jobim, ele que deu música e voz a muitos poemas do Vinicius. Da Garota de Ipanema à A luz dos olhos teus ou a Eu sei que vou te amar.

Eu tinha dito que hoje não queria coisas deprimentes, por isso, em vez do vídeo do "Eu sei que vou te amar", vou deixar "Águas de Março" e a minha homenagem a uma outra grande voz, Elis Regina.