12 de dezembro de 2010

O anjo branco

É tal e qual isto...

"Sabe, inspector, desde miúdo que ando a tentar perceber o que é isso do bem (...). De certo modo foi essa busca que me levou a esta profissão. Apercebi-me de que um médico é uma pessoa que faz o bem. O bem das pessoas ou, como o senhor diz, o bem da nação. O bem, porém. (...) Mas afinal o que é isso do bem? Se antes da guerra Hitler estivesse a morrer e eu tivesse salvo, será que tinha praticado o bem? Se ajudar um amigo a obter um emprego, estarei a fazer o bem? Então e a outra pessoa que deixa de ir para esse emprego só porque pus lá o meu amigo? Ao fazer o bem a uma pessoa não estarei a fazer o mal à sua concorrente ou às suas futuras vítimas?
(...)
Tive a resposta a este enigma no momento em que vi o mal naquela aldeia. Vi-o impregnado nos corpos carbonizados que se espalhavam pelos escombros, vi-o quando me questionei sobre o que levaria os homens a fazerem uma coisa tão cruel. E depois deparei-me com uma criança que saiu viva e intacta de baixo do corpo queimado de uma desgraçada que os soldados quase haviam morto e percebi que há coisas que o mal, por mais que tente, não poderá conquistar. O amor daquela mãe foi mais poderoso do que o mal daqueles homens. Mas só agora, enquanto estava aqui a ouvi-lo falar, é que consegui transformar em palavras a ideia que desde então me andava a ruminar na mente (...) sabe o que na verdade é o mal?
(...)
É a incapacidade de nos pormos no lugar do outro. Quando soldados matam mulheres e crianças como quem mata formigas, estão possuídos pelo mal porque não conseguem pôr-se no lugar das vítimas, não conseguem perceber a posição delas nem sentir o que elas sentem. O mal é a incapacidade de imaginar os sentimentos do outro e de os sentir como se pudéssemos ser nós."

José Rodrigues dos Santos, O anjo branco

Adorei. Acho que mais que os outros. Gosto dos policiais históricos com o Tomás Noronha. Mas este... este tocou-me fundo. Principalmente na última parte. O Inferno. E confesso que me caiu uma lágrima ao ler as notas finais do autor. E continuo sem perceber como é que as pessoas vivem depois disto. E como é que insistem em cometer os mesmos erros... os mesmos, desde que o Mundo é Mundo.

4 comentários:

Rony disse...

O J.R.S. continua em altas, que bom teres gostado. E um livro autografado não é para todos! :)

ianita disse...

Rony: obrigada pela prenda :) gostei mesmo mesmo muito :)

Rony disse...

Apesar de não ter sido uma surpresa, correu mesmo bem eu ter crédito na gradiva, o valor sentimental é muito maior quando temos um livro que gostamos autografado pelo autor.

ianita disse...

sim :) e a parte do autógrafo foi surpresa ;)

vai ficar na estante de gala :)