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26 de fevereiro de 2011

Dormi contigo...

Dormi contigo toda a noite
junto ao mar, na ilha.
Eras doce e selvagem entre o prazer e o sono,
entre o fogo e a água.

Os nossos sonos uniram-se
talvez muito tarde
no alto ou no fundo,
em cima como ramos que um mesmo vento agita
em baixo como vermelhas raízes que se tocam.

O teu sono separou-se
talvez do meu
e andava à minha procura
pelo mar escuro
como dantes,
quando ainda não existias,
quando sem te avistar
naveguei a teu lado
e os teus olhos buscavam
o que agora
- pão, vinho, amor e cólera -
te dou às mãos cheias,
porque tu és a taça
que esperava os dons da minha vida.

Dormi contigo
toda a noite enquanto
a terra escura gira
com os vivos e os mortos,
e ao acordar de repente
no meio da sombra
o meu braço cingia a tua cintura.
Nem a noite nem o sono
puderam separar-nos.

Dormi contigo
e, ao acordar, tua boca,
saída do teu sono,
trouxe-me o sabor da terra,
da água do mar, das algas,
do âmago da tua vida,
e recebi teu beijo,
molhado pela aurora,
como se me viesse
do mar que nos cerca.

Pablo Neruda
(tradução Thiago de Mello)

26 de dezembro de 2010

DIA DE NATAL

Hoje é dia de ser bom.
É dia de passar a mão pelo rosto das crianças,
de falar e de ouvir com mavioso tom,
de abraçar toda a gente e de oferecer lembranças.
É dia de pensar nos outros. coitadinhos. nos que padecem,
de lhes darmos coragem para poderem continuar a aceitar a sua miséria,
de perdoar aos nossos inimigos, mesmo aos que não merecem,
de meditar sobre a nossa existência, tão efémera e tão séria.
Comove tanta fraternidade universal.
É só abrir o rádio e logo um coro de anjos,
como se de anjos fosse,
numa toada doce,
de violas e banjos,
Entoa gravemente um hino ao Criador.
E mal se extinguem os clamores plangentes,
a voz do locutor
anuncia o melhor dos detergentes.
De novo a melopeia inunda a Terra e o Céu
e as vozes crescem num fervor patético.
(Vossa Excelência verificou a hora exacta em que o Menino Jesus nasceu?
Não seja estúpido! Compre imediatamente um relógio de pulso antimagnético.)
Torna-se difícil caminhar nas preciosas ruas.
Toda a gente se acotovela, se multiplica em gestos, esfuziante.
Todos participam nas alegrias dos outros como se fossem suas
e fazem adeuses enluvados aos bons amigos que passam mais distante.
Nas lojas, na luxúria das montras e dos escaparates,
com subtis requintes de bom gosto e de engenhosa dinâmica,
cintilam, sob o intenso fluxo de milhares de quilovates,
as belas coisas inúteis de plástico, de metal, de vidro e de cerâmica.
Os olhos acorrem, num alvoroço liquefeito,
ao chamamento voluptuoso dos brilhos e das cores.
É como se tudo aquilo nos dissesse directamente respeito,
como se o Céu olhasse para nós e nos cobrisse de bênçãos e favores.
A Oratória de Bach embruxa a atmosfera do arruamento.
Adivinha-se uma roupagem diáfana a desembrulhar-se no ar.
E a gente, mesmo sem querer, entra no estabelecimento
e compra. louvado seja o Senhor!. o que nunca tinha pensado comprar.
Mas a maior felicidade é a da gente pequena.
Naquela véspera santa
a sua comoção é tanta, tanta, tanta,
que nem dorme serena.
Cada menino
abre um olhinho
na noite incerta
para ver se a aurora
já está desperta.
De manhãzinha,
salta da cama,
corre à cozinha
mesmo em pijama.
Ah!!!!!!!!!!
Na branda macieza
da matutina luz
aguarda-o a surpresa
do Menino Jesus.
Jesus
o doce Jesus,
o mesmo que nasceu na manjedoura,
veio pôr no sapatinho
do Pedrinho
uma metralhadora.
Que alegria
reinou naquela casa em todo o santo dia!
O Pedrinho, estrategicamente escondido atrás das portas,
fuzilava tudo com devastadoras rajadas
e obrigava as criadas
a caírem no chão como se fossem mortas:
Tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá.
Já está!
E fazia-as erguer para de novo matá-las.
E até mesmo a mamã e o sisudo papá
fingiam
que caíam
crivados de balas.
Dia de Confraternização Universal,
Dia de Amor, de Paz, de Felicidade,
de Sonhos e Venturas.
É dia de Natal.
Paz na Terra aos Homens de Boa Vontade.
Glória a Deus nas Alturas.
António Gedeão

17 de agosto de 2010

Um ponto no Infinito...

Olho o céu e contemplo as estrelas que fulgem.
Busco as constelações, balbucio os seus nomes.
Nasci a olhá-las, conheço-as uma a uma.
São sempre as mesmas, aqui, agora e sempre.

Mas além, mais além, o céu é outro,
Outras são as estrelas, reunidas
Noutras constelações.

Eu nunca vi as deles;
Eles,
Nunca viram as minhas.

A Natureza separa-nos.
E as naturezas.

A cor da pele, a altura, a envergadura,
As mãos, os pés, as bocas, os narizes,
A maneira de olhar, o modo de sorrir,
Os tiques, as manias, as línguas, as certezas.

Tudo.

Afinal
Que haverá de comum entre nós?

Um ponto, no infinito.


António Gedeão, Poemas Escolhidos



Deveríamos olhar mais ao que nos une que ao que nos separa. E o que é que nos une? Qual é o ponto no Infinito? A humanidade. Acima de tudo,todos somos carne e sangue e músculos e ossos... acima de tudo, todos temos um coração que bate. Todos temos sangue a correr-nos nas veias. Todos temos a capacidade de ver com os olhos da alma. Pena que nem todos escolham usar o cérebro com que nasceram e prefiram valorizar as diferenças, que são nadas perante o tanto que nos une.

11 de agosto de 2010

Cada um cumpre o destino que lhe cumpre,
E deseja o destino que deseja;
Nem cumpre o que deseja,
Nem deseja o que cumpre.

Como as pedras na orla dos canteiros
O Fado nos dispõe, e ali ficamos;
Que a Sorte nos fez postos
Onde houvemos de sê-lo.

Não tenhamos melhor conhecimento
Do que nos coube que de que nos coube.
Cumpramos o que somos.
Nada mais nos é dado.

Ricardo Reis

E aprender que tudo passa... e que podemos ter o bom sem termos o mau. O que eu queria era que a Fortuna me sorrisse para me libertar.

25 de abril de 2010

Aos "capitães" de Abril

Ainda me arrepio. Quando ouço. Quando vejo. Sinto como se lá tivesse estado. Vivo com as marcas de um tempo que não é meu. E sinto-o como se fosse.

Sou assim estranha. Tão ligada ao futuro e tão ligada ao passado. Os passados que não são meus. Memórias que não são minhas. Mas que são. Minhas. Eternas. Para sempre.

Fica a inevitável homenagem. Porque enquanto eu viver e puder, esta homenagem será sempre inevitável. Aos poetas... aos guerreiros das palavras...

E se no ano passado ficaram as palavras de Jorge de Sena e de Manuel Alegre, este ano, Ary dos Santos e uma das mais fantásticas letras para uma música de festival... que tão cheia de crítica, ganhou o 1º lugar... Tourada. :)


Não importa sol ou sombra
camarotes ou barreiras
toureamos ombro a ombro
as feras.
Ninguém nos leva ao engano
toureamos mano a mano
só nos podem causar dano
espera.
Entram guizos chocas e capotes
e mantilhas pretas
entram espadas chifres e derrotes
e alguns poetas
entram bravos cravos e dichotes
porque tudo o mais
são tretas.
Entram vacas depois dos forcados
que não pegam nada.
Soam brados e olés dos nabos
que não pagam nada
e só ficam os peões de brega
cuja profissão
não pega.
Com bandarilhas de esperança
afugentamos a fera
estamos na praça
da Primavera.
Nós vamos pegar o mundo
pelos cornos da desgraça
e fazermos da tristeza
graça.
Entram velhas doidas e turistas
entram excursões
entram benefícios e cronistas
entram aldrabões
entram marialvas e coristas
entram galifões
de crista.
Entram cavaleiros à garupa
do seu heroísmo
entra aquela música maluca
do passodoblismo
entra a aficionada e a caduca
mais o snobismo
e cismo...
Entram empresários moralistas
entram frustrações
entram antiquários e fadistas
e contradições
e entra muito dólar muita gente
que dá lucro as milhões.
E diz o inteligente
que acabaram asa canções.



21 de abril de 2010

(Enlacemos as mãos)

Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio.
Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos
Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas.
(Enlacemos as mãos).

Depois pensemos, crianças adultas, que a vida
Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa,
Vai para um mar muito longe, para o pé do Fado,
Mais longe que os deuses.

Desenlacemos as mãos, porque não vale a pena cansarmo-nos.
Quer gozemos, quer não gozemos, passamos como o rio.
Mais vale saber passar silenciosamente.
E sem desassossegos grandes.


Ricardo Reis


Eras um génio da Literatura, mas um grande tonhó no que toca à vida. Numa coisa tens razão... quer gozemos, quer não gozemos, passamos como o rio. Concordo com a premissa, discordo da conclusão. Mais vale passar pela vida que ver a vida passar por nós. Mais vale enlaçar as mãos. Com força. Mais vale saltar, correr, dançar, sentir a chuva, sentir o vento, a areia, a força do mar, o cheiro da vida, o sabor da vida. Mais vale chorar, rir, gargalhar, chorar mais, rir mais. Mais vale viver que ver viver. Mais vale criar memórias.

(e explicar a um miúdo de 18 anos que só quer é viver a vida, que há quem pense que mais vale não viver? E ouvir "ele era parvo, só pode" LOL ou "mas ele não andava com aquela Ofélia? Platónico? A professora desculpe, mas ele era maluco" LOL eu desculpo... era um génio, mas tadito... não sabia viver)

24 de março de 2010

30 anos

Deixei passar o dia da Poesia... Mas não posso deixar passar os 30 anos do Jornal de Letras. Não é uma data instituída, mas uma data para a qual se trabalhou muito. Um Jornal que não é para intelectuais. Um jornal que defende a portugalidade, a nossa cultura, o que é nosso.

E então, em jeito de festejo, deixo aqui dois registos. Uma música do José Mário Branco (agora mesmo na TV), com poema de Luís Vaz de Camões. Mudam-se os Tempos, mudam-se as vontades. E depois, Fala do homem nascido, poema de António Gedeão, que penso muito adequado a esta efeméride e a uma outra a festejar-se no próximo Sábado, curiosamente, também 30 anos :)




Fala do Homem nascido

Venho da terra assombrada
do ventre de minha mãe
não pretendo roubar nada
nem fazer mal a ninguém

Só quero o que me é devido
por me trazerem aqui
que eu nem sequer fui ouvido
no acto de que nasci

Trago boca pra comer
e olhos pra desejar
tenho pressa de viver
que a vida é água a correr


Venho do fundo do tempo
não tenho tempo a perder
minha barca aparelhada
solta rumo ao norte
meu desejo é passaporte
para a fronteira fechada

Não há ventos que não prestem
nem marés que não convenham
nem forças que me molestem
correntes que me detenham

Quero eu e a natureza
que a natureza sou eu
e as forças da natureza
nunca ninguém as venceu


Com licença com licença
que a barca se fez ao mar
não há poder que me vença
mesmo morto hei-de passar
com licença com licença
com rumo à estrela polar

In Teatro do Mundo, 1958

29 de janeiro de 2010

Ignoto Deo

Desisti de saber qual é o Teu nome,
Se tens ou não tens nome que Te demos,
Ou que rosto é que toma, se algum tome,
Teu sopro tão além de quanto vemos.

Desisti de Te amar, por mais que a fome
Do Teu amor nos seja o mais que temos,
E empenhei-me em domar, nem que os não dome,
Meus, por Ti, passionais e vãos extremos.

Chamar-Te amante ou pai... grotesco engano
Que por demais tresanda a gosto humano!
Grotesco engano o dar-te forma! E enfim,

Desisti de Te achar no quer que seja,
De Te dar nome, rosto, culto, ou igreja...
– Tu é que não desistirás de mim!



José Régio, in 'Biografia'

8 de janeiro de 2010

O espectáculo

Eu tenho uma espécie de dever,
de dever de sonhar,
de sonhar sempre,
pois sendo mais do que
um espectador de mim mesmo,
eu tenho que ter o melhor espectáculo que posso.
E assim me construo a ouro e sedas,
em salas supostas, invento palco, cenário,
para viver o meu sonho
entre luzes brandas
e músicas invisíveis.

(Fernando Pessoa)


É mais ou menos isto. Sei que tenho mais audiência. E não posso viver só para mim. Mas, acima de tudo, tenho de viver. Ser eu. Viver a minha vida e não a dos outros. O meu caminho. As minhas escolhas. O meu espectáculo. Onde, acima de tudo, tenho de agradar ao mais importante espectador de todos: EU.

E sonho. Sonhos bonitos. Dos possíveis e dos impossíveis. E sonho que todos possam ser possíveis. E vou vivendo. Um sonho de cada vez. Porque eu prefiro a vida vivida à vida sonhada.

O espectáculo está prestes a recomeçar. Quem quer vir para o espectáculo?

30 de novembro de 2009

Rua da Saudade

A rua onde mais tempo viveu José Carlos Ary dos Santos. Poeta que morreu há 25 anos.

Gosto muito dele. Pela frontalidade. E pela forma como usava as palavras para dizer o que queria, mesmo sem o dizer. Desde a "Desfolhada" à "Tourada". Poemas épicos. Poemas marcantes. Numa época em que nada se podia dizer nem quase sentir.

Um poeta da revolta. Um poeta do amor.

"Rua da saudade" é o nome de um cd com 11 músicas do grande Ary, cantadas por Mafalda Arnauth, Susana Félix, Viviane e Luanda Cozetti. Aqui fica a "Cavalo à solta" (originalmente cantado por Fernando Tordo) por Viviane. E assim, Ary vive... respira ainda... a cada palavra cantada...



Minha laranja amarga e doce
Meu poema feito de gomos de saudade
Minha pena pesada e leve
Secreta e pura
Minha passagem para o breve
Breve instante da loucura
Minha ousadia, meu galope, minha rédia,
Meu potro doido, minha chama,
Minha réstia de luz intensa, de voz aberta
Minha denúncia do que pensa
Do que sente a gente certa
Em ti respiro, em ti eu provo
Por ti consigo esta força que de novo
Em ti persigo, em ti percorro
Cavalo à solta pela margem do teu corpo
Minha alegria, minha amargura,
Minha coragem de correr contra a ternura
Minha laranja amarga e doce
Minha espada, meu poema feito de dois gumes
Tudo ou nada
Por ti renego, por ti aceito
Este corcel que não sossego
À desfilada no meu peito
Por isso digo canção castigo
Amêndoa, travo, corpo, alma
Amante, amigo
Por isso canto, por isso digo
Alpendre, casa, cama, arca do meu trigo
Minha alegria, minha amargura
Minha coragem de correr contra a ternura
Minha ousadia, minha aventura
Minha coragem de correr contra a ternura

7 de agosto de 2009

Dream

“O sonho é ver as formas invisíveis
Da distância imprecisa, e, com sensíveis
Movimentos da esperança e da vontade,
Buscar na linha fria do horizonte
A árvore, a praia, a flor, a ave, a fonte -
Os beijos merecidos da Verdade.”

Fernando Pessoa


Só porque sim.

1 de agosto de 2009

Delas também reza a História

Natália Correia



Nasceu em 1923 em Fajã de Baixo, lugar pequeno, mas muito propício a andarmos perdidos por lá. Mudou-se para Lisboa com apenas 11 anos e foi lá que viveu até morrer em 1993.

Escritora, ensaísta, jornalista, poetisa... mulher. Na televisão tornou-se conhecida com um programa feminino Mátria, onde advoga o matricismo, identificador da mulher como arquétipo da liberdade erótica e passional e fonte matricial da humanidade.

Foi sempre uma mulher de pensamento e de acção. Esteve envolvida em vários movimentos contra o Estado Novo. Em 1980 viria a ser eleita deputada. Os seus discursos ficaram famosos, principalmente quando se deu o debate do aborto, cuja despenalização ela defendia fervorosamente. Coitado do Morgado que era capado :)

Foi sempre uma mulher de M maiúsculo. Casou 4 vezes. Teve muitos amigos. Escreveu. Agiu. Pensou. Escreveu palavras de ternura e de ataque. Escreveu. Poetisa. Mulher.

Legou a maioria dos seus bens à Região Autónoma dos Açores, que lhe dedicou uma exposição permanente na nova Biblioteca Pública de Ponta Delgada, instituição que tem à sua guarda parte do seu espólio literário (que partilha com a Biblioteca Nacional de Lisboa), onde constam muitos volumes éditos, inéditos, documentos biográficos, iconografia e correspondência, incluindo múltiplas obras de arte e a biblioteca privada.

Para terminar, Natália Correia descrita pela mesma, neste belíssimo auto-retrato.





Auto-retrato

Espáduas brancas palpitantes:
asas no exílio dum corpo.
Os braços calhas cintilantes
para o comboio da alma.
E os olhos emigrantes
no navio da pálpebra
encalhado em renúncia ou cobardia.
Por vezes fêmea. Por vezes monja.
Conforme a noite. Conforme o dia.
Molusco. Esponja
embebida num filtro de magia.
Aranha de ouro
presa na teia dos seus ardis.
E aos pés um coração de louça
quebrado em jogos infantis.

2 de julho de 2009

Solidão

Solidão

Aproximo-me da noite
o silêncio abre os seus panos escuros
e as coisas escorrem
por óleo frio e espesso

Esta deveria ser a hora
em que me recolheria
como um poente
no bater do teu peito
mas a solidão
entra pelos meus vidros
e nas suas enlutadas mãos
solto o meu delírio

É então que surges
com teus passos de menina
os teus sonhos arrumados
como duas tranças nas tuas costas
guiando-me por corredores infinitos
e regressando aos espelhos
onde a vida te encarou

Mas os ruídos da noite
trazem a sua esponja silenciosa
e sem luz e sem tinta
o meu sonho resigna

Longe
os homens afundam-se
com o caju que fermenta
e a onda da madrugada
demora-se de encontro
às rochas do tempo

Mia Couto, in "Raiz de Orvalho e Outros Poemas"


(Isto é só porque desde ontem que estou sozinha em casa e eu não gosto... eu sei que estão a pensar que sou uma medrosa e que tenho a mania que quero viver sozinha, mas tenho medo de estar em casa sozinha... tenho medo de estar nesta casa sozinha, que é diferente... uma casa grande, cheia de quartos e com um corredor enorme que faz curva, e um jardim com animaizitos que fazem barulhos estranhos e um quintal onde andam os gatos das vizinhas e que se mandam para cima dos telheiros e fazem um barulho horrível e assustador. Claro que quando viver no meu apartamento num 10º andar não vou ter medo porque os senhores ladrões não trepam tão alto nem há gatos nem pássaros a fazer barulhos estranhos na vegetação que também não existe! Mas já fui quatro vezes ver se tinha tudo fechado e tinha... agora tenho é medo que algum gatuno esteja escondido cá dentro e que daqui a pouco me apareça... ai! Bem... depois de amanhã a família Rei Pinto já me vem fazer companhia... já "só" faltam duas noites... eu consigo!)



(Uma coisa parva de que também não gosto é ter o joelho negro da queda de ontem e a mão inchada e não ter ninguém com quem falar com voz de mimo e mostrar as minhas feridas de guerra... mandei sms à minha mãe a contar que tinha caído e que tinha rebentado o joelho e ela nem me respondeu! Já me conhece bem demais e sabe que é fita, mas podia não ter desvalorizado assim a minha nódoa negra, pah!)

1 de julho de 2009

A bela acordada

Era uma vez uma mulher que tão depressa era feia era bonita, as pessoas diziam-lhe:

- Eu amo-te.

E iam com ela para a cama e para a mesa.

Quando era feia, as mesmas pessoas diziam-lhe:

- Não gosto de ti.

E atiravam-lhe com caroços de azeitona à cabeça.

A mulher pediu a Deus:

- Faz-me bonita ou feia de uma vez por todas e para sempre.

Então Deus fê-la feia.

A mulher chorou muito porque estava sempre a apanhar
com caroços de azeitona e a ouvir coisas feias. Só os animais
gostavam sempre dela, tanto quando era bonita como quando
era feia como agora que era sempre feia. Mas o amor dos animais
não lhe chegava. Por isso deitou-se a um poço. No poço,
estava um peixe que comeu a mulher de um trago só, sem a
mastigar.

Logo a seguir, passou pelo poço o criado do rei, que
pescou o peixe.
Na cozinha do palácio, as criadas, a arranjarem o peixe,
descobriram a mulher dentro do peixe. Como o peixe comeu a
mulher mal a mulher se matou e o criado pescou o peixe mal o
peixe comeu a mulher e as criadas abriram o peixe mal o peixe
foi pescado pelo criado, a mulher não morreu e o peixe
morreu.

As criadas e o rei eram muito bonitos. E a mulher ali era
tão feia que não era feia. Por isso, quando as criadas foram
chamar o rei e o rei entrou na cozinha e viu a mulher, o rei
apaixonou-se pela mulher.
- Será uma sereia ? – perguntaram em coro as criadas ao
rei.

- Não, não é uma sereia porque tem duas pernas, muito
tortas, uma mais curta do que a outra – respondeu o rei às
criadas.

E o rei convidou a mulher para jantar.
Ao jantar, o rei e a mulher comeram o peixe. O rei disse à
mulher quando as criadas se foram embora:

- Eu amo-te.

Quando o rei disse isto, sorriu à mulher e atirou-lhe com
uma azeitona inteira à cabeça. A mulher apanhou a azeitona e
comeu-a. Mas, antes de comer a azeitona, a mulher disse ao rei:

- Eu amo-te.

Depois comeu a azeitona. E casaram-se logo a seguir no
tapete de Arraiolos da casa de jantar.




Adília Lopes


Conclusão? Não sei. Cada um é como é e quaisquer que sejam as voltas que a vida dê, as coisas hão-de acabar no tapete de Arraiolos da casa de jantar.


Adenda (o texto do Ricardo Araújo Pereira sobre a Adília Lopes e a nossa mania de querer interpretar o que não tem interpretação):

Certo dia, quando trabalhava no JL, fui incumbido de entrevistar uma escritora chamada Adília Lopes. A primeira pergunta que lhe fiz foi sobre um poema seu de que eu gostava e gosto muitíssimo. Chama-se Autobiografia sumária e só tem três versos: "Os meus gatos / gostam de brincar / com as minhas baratas." O meu objectivo era impressionar a autora com a minha excelente interpretação do poema. Disse-lhe que aqueles versos eram também o resumo da minha vida. Os meus gatos, isto é, aquilo que em mim é felino, arguto, crítico ("Não é por acaso", disse eu, "que Fialho de Almeida reuniu os seus textos críticos num volume chamado Os Gatos"), aquilo que em mim é perspicaz - e até cruel - gosta de brincar com as minhas baratas, ou seja, com aquilo que em mim é repugnante, negro, rasteiro, vil. E aquela operação poética - que é, igualmente, uma operação humorística - de escarnecer de si próprio era-me tão familiar que podia descrever-me de forma tão competente como à autora do poema.

Os olhos de Adília Lopes humedeceram-se. Fosse qual fosse a noite solitária em que escreveu o poema, estava longe de imaginar que, tanto tempo depois, a sua alma gémea se apresentasse à sua frente, compreendendo-a tão profundamente. Foi então que Adília Lopes falou. Disse o seguinte: "Pois. Bom, comigo, o que se passa é que eu tenho gatos. E tenho também baratas, na cozinha. E os gatos gostam de ir lá brincar com elas." E depois exemplificou, com as mãos, o gesto que os gatos faziam com as patinhas.

Foi naquele dia, amigo leitor, que eu deixei de me armar em esperto. Tinha citado Fialho de Almeida, tinha usado a expressão "operação poética", e tinha-me visto a mim onde só havia gatos e baratas. Os olhos de Adília Lopes estavam húmidos, provavelmente, do esforço que a sua proprietária fazia para não rir. Não eram só os sacanas dos gatos que escarneciam de mim: a Adília Lopes também. E, desde esse dia, tenho constatado que o mundo inteiro, em geral, me mofa (quem aprecia a frase bem torneada fará bem em registar, num caderninho próprio, a elegante construção "me mofa").

Vários filósofos têm reflectido sobre o lixo, sobretudo acerca do modo como a nossa sociedade trata o seu lixo. Eu estou magoado com o modo como a nossa sociedade trata o meu lixo em especial. Não me interessa o tratamento que a sociedade dá ao seu lixo: a forma como trata o meu é humilhante. O lixo de Adília Lopes gera vida e poemas. O meu lixo não só não gera nada como tem uma falta de personalidade que o amesquinha quase tanto quanto me amesquinha a mim. É muito frequente encontrar-me na circunstância de ter lixo na mão e, quando confrontado com os rótulos que hoje designam as várias secções dos caixotes do lixo (cartão, papel, embalagens, vidro), verificar que o lixo que eu possuo se enquadra, invariavelmente, na categoria dos indiferenciados. Quase todo o meu lixo se caracteriza por uma falta de carácter que só posso ser eu a transmitir--lhe. Eis, afinal, a minha autobiografia sumária: "O meu lixo / é tão desinteressante / como eu."

in Visão (26/03/09)

6 de junho de 2009

De Pessoa em Pessoa













Je ne suis rien
Je ne serai jamais rien
Je ne peux vouloir être rien
À part ça, je porte en moi tous
les rêves du Monde.

3 de junho de 2009

Lisboa



Em cada esquina te vais
Em cada esquina te vejo
Esta é a cidade que tem
Teu nome escrito no cais
A cidade onde desenho
Teu rosto com sol e Tejo

Caravelas te levaram
Caravelas te perderam
Esta é a cidade onde chegas
Nas manhãs de tua ausência
Tão perto de mim tão longe
Tão fora de seres presente

Esta e a cidade onde estás
Como quem não volta mais
Tão dentro de mim tão que
Nunca ninguém por ninguém
Em cada dia regressas
Em cada dia te vais

Em cada rua me foges
Em cada rua te vejo
Tão doente da viagem
Teu rosto de sol e Tejo
Esta é a cidade onde moras
Como quem está de passagem

Às vezes pergunto se
Às vezes pergunto quem
Esta é a cidade onde estás
Com quem nunca mais vem
Tão longe de mim tão perto
Ninguém assim por ninguém

(Manuel Alegre)


Se me virem por aí... numa qualquer rua... a passear... a deambular... a comer o melhor bolo de chocolate do Mundo... ou uns pastéis em Belém... a ver o Tejo do teleférico... a ver as lojas no Chiado... sentada à beira do Pessoa... a ver as Múmias no Museu Nacional de Arqueologia... se me virem por aí.... digam-me olá. (Hoje ainda não... a partir de amanhã)

23 de maio de 2009

As Amoras

O meu país sabe as amoras bravas
no verão.
Ninguém ignora que não é grande,
nem inteligente, nem elegante o meu país,
mas tem esta voz doce
de quem acorda cedo para cantar nas silvas.
Raramente falei do meu país, talvez
nem goste dele, mas quando um amigo
me traz amoras bravas
os seus muros parecem-me brancos,
reparo que também no meu país o céu é azul.

(Eugénio de Andrade)

22 de maio de 2009

Sou um guardador de rebanhos.
O rebanho é os meus pensamentos
E os meus pensamentos são todos sensações.
Penso com os olhos e com os ouvidos
E com as mãos e os pés
E com o nariz e a boca.

Pensar numa flor é vê-la e cheirá-la
E comer um fruto é saber-lhe o sentido.

Por isso quando num dia de calor
Me sinto triste de gozá-lo tanto,
E me deito ao comprido na erva,
E fecho os olhos quentes,
Sinto todo o meu corpo deitado na realidade,
Sei da verdade e sou feliz.
(Alberto Caeiro)

Não se pode viver sem sentir... não se pode sentir sem viver... não se pode viver sem viver. (eu sei que já escrevi isto... mas continua a ser verdade para mim)

15 de maio de 2009

Sete Luas

Há noites que são feitas dos meus braços
e um silêncio comum às violetas
e há sete luas que são sete traços
de sete noites que nunca foram feitas
Há noites que levamos à cintura
como um cinto de grandes borboletas.
E um risco a sangue na nossa carne escura
duma espada à bainha de um cometa.
Há noites que nos deixam para trás
enrolados no nosso desencanto
e cisnes brancos que só são iguais
à mais longínqua onda de seu canto.
Há noites que nos levam para onde
o fantasma de nós fica mais perto:
e é sempre a nossa voz que nos responde
e só o nosso nome estava certo.

(Natália Correia)


(Diego Rivera)

14 de maio de 2009

A ilha do Arcanjo


Eu vos direi da ilha que na dorna
do Arcanjo é eterna em chão escasso.
Fulva de gado ao dia. À noite, morna.
Embebida no verde. E o mar colaço.

Ilhado alumbramento em templo torna
a unção de contemplar. Um ténue traço
de garça entre a água e céu. A paz encorna
em lagoa e lavoura o tempo e o espaço.

Tanto silêncio confiado à luz!
Treme um nenúfar se um grilo tremeluz.
Caiaram o sol de azul os agapantos.

Na cevadeira a broa luminosa,
romeiros nos persignam com uma rosa.
Suas rezas joeiram pombos santos.

(Natália Correia)