24 de março de 2010

30 anos

Deixei passar o dia da Poesia... Mas não posso deixar passar os 30 anos do Jornal de Letras. Não é uma data instituída, mas uma data para a qual se trabalhou muito. Um Jornal que não é para intelectuais. Um jornal que defende a portugalidade, a nossa cultura, o que é nosso.

E então, em jeito de festejo, deixo aqui dois registos. Uma música do José Mário Branco (agora mesmo na TV), com poema de Luís Vaz de Camões. Mudam-se os Tempos, mudam-se as vontades. E depois, Fala do homem nascido, poema de António Gedeão, que penso muito adequado a esta efeméride e a uma outra a festejar-se no próximo Sábado, curiosamente, também 30 anos :)




Fala do Homem nascido

Venho da terra assombrada
do ventre de minha mãe
não pretendo roubar nada
nem fazer mal a ninguém

Só quero o que me é devido
por me trazerem aqui
que eu nem sequer fui ouvido
no acto de que nasci

Trago boca pra comer
e olhos pra desejar
tenho pressa de viver
que a vida é água a correr


Venho do fundo do tempo
não tenho tempo a perder
minha barca aparelhada
solta rumo ao norte
meu desejo é passaporte
para a fronteira fechada

Não há ventos que não prestem
nem marés que não convenham
nem forças que me molestem
correntes que me detenham

Quero eu e a natureza
que a natureza sou eu
e as forças da natureza
nunca ninguém as venceu


Com licença com licença
que a barca se fez ao mar
não há poder que me vença
mesmo morto hei-de passar
com licença com licença
com rumo à estrela polar

In Teatro do Mundo, 1958

2 comentários:

Rony disse...

Quando oiço José Mário Branco lembro-me sempre de estar no Clube de Rugby a dançar ao som da sua música, numa noite em que a selecção musical foi surpreendentemente irreverente, lol, só mesmo no Clube... Uma noite memorável, entre tantas outras...

Quanto ao Gedeão, adoro, recentemente (re)descobri este:

Viagem


Aparelhei o barco da ilusão

E reforcei a fé de marinheiro.

Era longe o meu sonho, e traiçoeiro

O mar...

(Só nos é concedida

Esta vida

Que temos;

E é nela que é preciso

Procurar

O velho paraíso

Que perdemos).

Prestes, larguei a vela

E disse adeus ao cais, à paz tolhida.

Desmedida,

A revôlta imensidão

Transforma dia a dia a embarcação

Numa errante e alada sepultura...

Mas corto as ondas sem desanimar.

Em qualquer aventura,

O que importa é partir, não é chegar.

Ps. Vai sair quadro :)

ianita disse...

Rony: José Mário Branco no Clube é qualquer coisa... eles, de facto, às vezes lembravam-se de cada uma... LOL


"Só nos é concedida

Esta vida

Que temos;

E é nela que é preciso

Procurar

O velho paraíso

Que perdemos"

Nem mais nem menos... só nos é concedida uma vida e temos de a viver ao máximo! Enjoy the ride! :)

(depois quero foto)