21 de abril de 2010

(Enlacemos as mãos)

Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio.
Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos
Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas.
(Enlacemos as mãos).

Depois pensemos, crianças adultas, que a vida
Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa,
Vai para um mar muito longe, para o pé do Fado,
Mais longe que os deuses.

Desenlacemos as mãos, porque não vale a pena cansarmo-nos.
Quer gozemos, quer não gozemos, passamos como o rio.
Mais vale saber passar silenciosamente.
E sem desassossegos grandes.


Ricardo Reis


Eras um génio da Literatura, mas um grande tonhó no que toca à vida. Numa coisa tens razão... quer gozemos, quer não gozemos, passamos como o rio. Concordo com a premissa, discordo da conclusão. Mais vale passar pela vida que ver a vida passar por nós. Mais vale enlaçar as mãos. Com força. Mais vale saltar, correr, dançar, sentir a chuva, sentir o vento, a areia, a força do mar, o cheiro da vida, o sabor da vida. Mais vale chorar, rir, gargalhar, chorar mais, rir mais. Mais vale viver que ver viver. Mais vale criar memórias.

(e explicar a um miúdo de 18 anos que só quer é viver a vida, que há quem pense que mais vale não viver? E ouvir "ele era parvo, só pode" LOL ou "mas ele não andava com aquela Ofélia? Platónico? A professora desculpe, mas ele era maluco" LOL eu desculpo... era um génio, mas tadito... não sabia viver)

4 comentários:

Verba Legis disse...

Ana, ler este post fez-me recordar!! Ainda guardo religiosamente o livro que me ofereceste com a dedicatória .Como tu afirmaste naquele saudoso Verão eu sou um bocadinho Ricardo Reis. O medo por vezes paralisa-nos...

ianita disse...

Verba Legis: foi, de facto, um Verão que deixa saudades para a vida. Teria sido ainda melhor, se não fossem as tuas crises existenciais ;)

Espero que pelo menos o menino tenha aprendido alguma coisa :)

LP disse...

Por acaso não gostei muito do RR, preferi o Álvaro de Campos e o próprio ortónimo, o que dá uma grande confusão porque, basicamente, tudo provinha do mesmo(grande) cérebro.

Como está a ser voltar a ser 'aulas'?

ianita disse...

LP: sem dúvida... amo o Campos! Amo mesmo! Eu que não amo nada, amo o Campos :)

Basicamente, podemos encarar os heterónimos como o pôr em prática diferentes filosofias de vida... diferentes formas de evitar ou superar a dor...

O Caiero não pensava. E tentava, pelas sensações e excluindo o pensamento, fugir da dor.

O Reis intelectualizava tudo e fugia da sensação. Fugia do contacto que lhe daria proximidade e logo sofrimento.

O Campos exprimia tudo. Vivia intensamente. Explodia. De modo a evitar o acumular de sentimentos dentro dele e, assim, evitar a dor.

Todas formas aceitáveis de estar na vida... de viver a vida... nenhuma delas bem sucedida. Porque só evitas a dor se não viveres.

A dor e o sofrimento são implacáveis. É impossível fugir deles... sejas Pessoa, Caeiro, Reis ou Campos... ou LP ou ianita. ;) Faz parte :)

Beijos!