5 de fevereiro de 2009

Do amor

A vida tem destas coisas. Lia hoje de manhã o post da Sayuri sobre o amor platónico. E, é claro lembrei-me.

Não que tenha sido um amor platónico, mas foi mais ou menos. Eu tinha 15 anos. Aos 15 anos tudo é diferente. Aos 15 anos tudo é mais perfeito, mais dramático, mais intenso.
Foi amor à primeira vista. A primeira e única vez que isto me aconteceu e coisa que eu acho que só acontece quando se tem 15 anos. Um Sábado à tarde numa festa de aldeia. Eu vejo-o ao longe... alto, moreno, bem parecido... e o coração bate mais forte. A minha amiga diz-me que o conhece e que o vai cumprimentar e eu vou também... ele cumprimenta-a... ela faz as apresentações... esta é a Patrícia (outra rapariga que também lá estava)... beijinho beijinho... e esta é a Ana (ainda não era Ianita nestes tempos)... beijinho beijinho.

Fomos a um café ali perto. Eu nunca tinha bebido café, mas toda a gente pediu e eu pedi também. Bebemos café. Falámos. Os quatro. Eu falei pouco. Estava de coração aos pulos e não conseguia falar. Se ele me conhecesse perceberia... saberia que eu não sou calada. Mas estava calada.
Continuámos sempre juntos ao longo da tarde e da noite. Bebemos mais um cefézinho depois do jantar. Junta-se mais gente ao grupo. Amigos dele. Amigas nossas. Com o passar das horas fico mais desinibida e tento algumas conversas. Ele é simpático e fala comigo, mas eu acho que ele gosta da Patrícia. Ela é mais loura, tem os olhos azuis e não é assim tímida como eu...

Acabam as festas e eu vou para casa. Não durmo. Não prego olho nessa noite e nem viria a pregar olho na noite seguinte. Amor? Não... café! Venho a saber que uma das minhas amigas se tinha envolvido com um dos amigos dele. Ela quer o telefone dele, mas não teve coragem de pedir e então pediu que eu ligasse ao N. para conseguir o número do S. (isto são esquemas muito próprios de miúdas de 15 anos). A Sónia deu-me o número do N. e eu, para bem da minha amiga R., liguei. Lembro-me como se fosse hoje. Esperei que os meus pais saissem de casa. Porque não havia telemóveis. Havia telefone fixo, mas daqueles mesmo fixos, agarrados à parede! E eu queria estar sozinha. Disco os dígitos... e só ouço o barulho do meu coração... atende a mãe... depois vem ele... eu falo... digo quem sou e pergunto se ele se lembra de mim... ele diz que sim... depois peço o número do S. e digo que é a R. quem quer... ele acha que o número é para mim, que eu é que estava interessada no S. Um terrível mal-entendido... ele dá-me o número que eu entrego, no dia seguinte à R.

Não vou continuar com pormenores... ainda me lembro que estava a lavar a carpete do meu quarto a primeira vez que ele me ligou. Lembro-me que música tinha a tocar no rádio, eram os Live. Lembro-me de a minha mãe me ir chamar para ir atender o telefone. Lembro-me de o meu coração parar de bater quando percebi que era ele do outro lado a convidar-me para sair.

Não foi um amor platónico porque namorámos... primeiro durante 5 meses... 5 meses que não são nada... mas 5 meses que assustaram uma miúda de 15 anos... que a fizeram terminar tudo por telefone que nem uma cobarde parva. Daí a uns meses voltámos a sair juntos... e voltámos a namorar, desta vez por mais ano e meio. Lembro-me ainda da primeira vez que pedi ao meu pai para me deixar sair com ele. Era Domingo de manhã e estávamos na cozinha a preparar o pequeno-almoço e eu perguntei se à tarde podia ir dar uma volta. E ele perguntou com quem e eu respondi que ia com um amigo... e fui. Lembro-me de a minha avó ir para o jardim para o ver quando ele parasse o carro para me buscar. Lembro-me ainda que tínhamos ido à Batalha beber café quando ele, à vinda para minha casa, acabou tudo comigo. Com muito mais dignidade que eu... ainda assim foram semanas e semanas de choro...

Quando olho para trás, sorrio. Sorrio sempre. Foi o meu primeiro amor. O mais puro, o mais profundo, o mais intenso e quiçá, o mais verdadeiro. Gosto de ter assim boas memórias. Hoje sei-o casado e com filhos e fico feliz por ele. Uma pessoa de carácter forte, de quem gostei muito e que sei que gostou muito de mim... um amor adolescente por uma pessoa que recordo com respeito, mas sem saudades. É engraçado como me lembro de tudo... como não preciso de puxar pela memória.

Para quem persistiu a este olhar pelo meu passado, como se estivéssemos aqui numa qualquer revista cor-de-rosa... é hoje que revelo a música que está, ainda hoje, naquela K7. Aquela que a Vera gravou e me ofereceu no meu 16º aniversário. Não sei como comecei a gostar dela, sei que gosto e sei que lembra o N. Lembro-me que a ouvia vezes e vezes sem conta, enquanto chorava agarradinha à ursa azul. Sorrio sempre que me lembro disto. Gosto de ver que cresci. Que já deixei de ser uma adolescente parva. E fico feliz. Feliz pelo que fui. Feliz pelo que sou.
Ainda hoje acho que esta é uma música que me encaixava enquanto adolescente... eu era assim... insatisfeita com o que era, com o que sentia, com o meu aspecto, com o meu intelecto... com tudo. Sempre com aquela sensação de estar sempre a mais, sempre no sítio errado à hora errada... hoje já não sou tão assim... sou mais eu... sou mais confiante... cresci. Ainda assim, é uma música de que gosto muito muito muito. Uma música que fará sempre parte de mim. Creep, Radiohead.





I don't care if it hurts,
I wanna have control
I want a perfect body
I want a perfect soul

I want you to notice
when I'm not around
You're so very special
I wish I was special

But I'm a creep.....

18 comentários:

Lita disse...

História tão linda!!!! Amei, de verdade.

O meu primeiro amor à primeira vista, completamente platónico, foi aos 13 anos... apareceu numa Gincana de bicicleta, louro, olhos verdes... e para mim parecia que o tempo tinha parado, e nada mais existia que não ele...

Deve ter sido aí que fiquei com panca por olhos verdes...

Ficou-se pelo platonismo, mesmo!!!! Ele nem olhou para mim uma vez! ;)

Ianita disse...

Quando olho para trás parece-me tudo mesmo muito platónico ;) mas vivemos uma história e isso dá beleza ao platonismo...

Uma gincana? ;)

Kiss

Vera Angélico disse...

Bem... sempre que oiço essa música, é inevitável lembrar-me de ti. O quanto gostavas. E ouvias.

Não sou muito nostálgica em relação à adolescência. Até porque fui uma adolescente muito parva (como sei que te recordas), e daí só retirei ensinamentos. Felizmente hoje em dia sou uma pessoa muito diferente. Além disso, tenho aquilo a que costumo chamar de "memória selectiva", e há montes de coisas relativas a esse período da minha vida das quais já não me recordo.

Mas gosto de alguns detalhes. E de saber como as coisas eram estupidamente simples. De como o amor era simples nessa altura.

(E fiquei delicidada a ler-te).

Ianita disse...

Acho que a parvoíce é condição sine qua non para se ser adolescente...

E sim, era tudo muito mais simples... nós é que complicávamos... porque era sempre o fim do Mundo... e porque nunca mais íamos gostar de outra pessoa da mesma maneira! O drama! LOL :)

Hoje somos mais sábias... e damos mais valor ao que vamos tendo. Eu gosto de olhar para trás... gosto de recordar... gosto do sorriso que me vem aos lábios sempre que a minha memória me leva a esses tempos. Mas não tenho saudades. Gosto muito do meu tempo. :)

E memória selectiva penso que temos todos! :)

Kisses

PAULO LONTRO disse...

Esta é daquelas entradas de Blog que são contagiantes, desde a nostalgia aos pedacinhos de coisas comuns, vem tudo à tona da memória.
Está excelentemente escrito, simples, cristalino.
Crescer é passar por tudo isto e poder lembrar com serenidade e carinho o tempo passado.

Ianita disse...

A culpa é da Sayuri... quando li o post dela as memórias surgiram-me em catadupa...

E eu que sou uma esquecida, surpreendo-me com a clareza de algumas memórias do meu passado. e gosto... gosto de lá voltar... faz-me bem... sinto-me lá bem. Como se visitasse um grande amigo... o meu passado é assim, como um bom amigo que gosto de visitar de vez em quando... que me faz sorrir... e que me faz ir em frente :)

Obrigada. Acho que sim, que cresci...

Kiss

Sayuri disse...

Adoro a música também! E fico muito feliz por te ter inspirado, por te ter levado lá atrás, onde deixámos as nossas coisas de há uns anos atrás e que, de alguma forma, nos acompanham no presente.
Um beijinho

Gabriela disse...

Mais uma vez não resisto... Porque enquanto lia o teu post, só me lembrava do teu grande dilema da altura... (Ou pelo menos um deles, porque naquela idade é tudo um dilema gigantesco, trágico, dramático... Ehe) Mas voltando ao dilema, e se ele te convidasse para almoçar em casa dele e a mãe fizesse esparguete?? :D Porque tu e o esparguete aguado nunca se deram lá muito bem...

Enfim, como sempre, adorei ler o teu post e gostava de escrever qualquer coisa bonita e profunda acerca dos dilemas da adolescência mas.... enquanto lia e recordava esses tempos, em que tu andavas com "aquele" papelinho na carteira (e não, não é um eufemismo para preservativo, ou qualquer outra figura de estilo, que já me voaram quase todas da memória) só conseguia lembrar-me do esparguete!! Deve ser como dizia a Vera: uma partida da memória selectiva...

Beijinhos!

Anita disse...

adorei a história e adorei a musica:))
Os Belle and Sebastian têm uma música fantástica sobre amores latónicos:"Funny little frog" é fantástica:)

Beijinho

Dylan disse...

Grande som, aliás como todas as músicas do grupo. Mas esta tem qualquer coisa de especial...

Ianita disse...

Sayuri: levaste mesmo! Obrigada pela viagem :)

Kiss

Ianita disse...

Gabriela: o problema era ainda maior que esse! Eu não conseguia comer esparguete de faca e garfo como as pessoas normais! Comia só com o garfo na mão direita... e se fosse comer a casa dele, ia passar vergonha!! LOL!!! A verdade é que nunca fui a casa dele, como ele nunca foi à minha. E depois dele, também ninguém foi a minha casa... nem eu nunca fui a casa de ninguém.

Quanto aos papelinhos... ainda os guardo a todos. Está tudo no baú das recordações... e boas que são! :)

A memória é mesmo selectiva e é engraçado como nos lembramos de umas coisas e de outras não... antes de te ter reencontrado aqui há uns anos no Opera Prima e me teres falado precisamente desta cena do esparguete, eu já não me lembrava... e o engraçado é que continua a fazer pleno sentido!! Porque ainda hoje não consigo parecer uma senhora quando como esparguete!

Beijinhos

Ianita disse...

Anita: esta é uma música daquelas para a vida toda... essa que indicas, vou averiguar ;)

Kiss

Ianita disse...

Dylan: esta é a balada perfeita. Eles tentaram depois escrever uma balada que apagasse esta... apagar não, mas que a deixasse mais na sombra. Escreveram a fantástica Karma Police, mas o Creep é sempre o Creep... e não há música que lhe faça sombra... :)

Kiss

Verónica disse...

Escreves muito bem, já o sabes, o texo cativa do princípio ao fim, mas a 'Pièce de résistance' é sem dúvida: Amor? Não... café!

BRILHANTE, como dizemos aqui, escanequei-me a rir!

Quanto à música.... marcou toda a nossa geração.

Ianita disse...

Acho que não fui eu quem escreveu, mas a minha memória... :)

E sim... não queria que pensassem que tinha logo ficado sem dormir por causa de um rapaz :) se até o café solúvel me tira o sono... LOL

a música... é qualquer coisa! :)

LP disse...

Tudo perfeito; a começar pela história, continuando na tua escrita, no divertimento nas tuas palavras, e concluindo com a música!! Lindo!

Beijinhos

Ianita disse...

Acho que se notam os meus sorrisos a espreitar em cada palavra, não é? São boas memórias estas...

E uma música fantástica...

Kiss :)