6 de junho de 2008

Os pequenos nadas...

«Gozo os campos sem reparar para eles.

Perguntas-me por que os gozo.

Porque os gozo, respondo.

Gozar uma flor é estar ao pé dela inconscientemente

E ter uma noção do seu perfume nas nossas ideias mais apagadas.

Quando reparo, não gozo, vejo.

Fecho os olhos, e o meu corpo, que está entre a erva,

Pertence inteiramente ao exterior de quem fecha os olhos

À dureza fresca da terra cheirosa e irregular,

E alguma cousa dos ruídos indistintos das cousas a existir,

E só uma sombra encarnada de luz me carrega levemente nas órbitas,

E só um resto de vida ouve.»


Alberto Caeiro


Não concordo muito com o modo de vida que ele anseja, mas há algo de maravilhoso em, simplesmente, "sit back and enjoy". Deixar que os nossos sentidos apreendam a verdade que nos rodeia e não permitir que a razão nos nuble a vista...

2 comentários:

Verónica disse...

Fernado Pessoa é Fernando Pessoa (passo o pleonásmo)!

Gosto de todos os heterónimos, mas confesso que sinto uma predilecção especial pelo Ricardo Reis, devido à sua formação clássica. O meu trabalho de seminário foi sobre a figura feminina em Horácio e recorri à intertextualidade, nomeadamente com a poesia de Ricardo Reis.

Ianita disse...

Cá eu já sou mais Álvaro de Campos "o mais histericamente histérico de mim"! E gosto também do ortónimo. O meu menos preferido é mesmo o Caeiro, que aqui cito.

Mas mesmo fixe, são as cartas de amor à Ofelinha, libelinha! Lindo!