12 de novembro de 2008

Na solidão da noite


"Toda a noite, e pelas horas fora, o chiar da chuva baixou. Toda a noite, comigo entredesperto, a monotonia líquida me insistiu nos vidros. Ora um rasgo de vento, em ar mais alto, açoitava, e a água ondeava de som e passava mãos rápidas pela vidraça; ora com som surdo só fazia sono no exterior morto. A minha alma era a mesma de sempre, entre lençóis como entre gente, dolorosamente consciente do mundo. Tardava o dia como a felicidade – àquela hora parecia que também indefinidamente.


Se o dia e a felicidade nunca viessem! Se esperar, ao menos, pudesse nem sequer ter a desilusão de conseguir. O som casual de um carro tardo, áspero a saltar nas pedras, crescia do fundo da rua, estralejou por debaixo da vidraça, apagava-se para o fundo da rua, para o fundo do vago sono que eu não conseguia de todo. Batia. De quando em quando, uma porta de escada. Às vezes havia um chapinhar líquido de passos, um roçar por si mesmos de vestes molhadas. Uma ou outra vez, quando os passos eram mais, soava alto e atacavam. Depois, o silêncio volvia, com os passos que se apagavam, e a chuva continuava, inumeravelmente.


Nas paredes escuramente visíveis do meu quarto, se eu abria os olhos do sono falso, boiavam fragmentos de sonhos por fazer, vagas luzes, riscos pretos, coisas de nada que trepavam e desciam. Os móveis, maiores do que de dia, manchavam vagamente o absurdo da treva. A porta era indicada por qualquer coisa nem mais branca, nem mais preta do que a noite, mas diferente. Quanto à janela, eu só a ouvia. Nova, fluida, incerta, a chuva soava. Os momentos tardavam ao som dela. A solidão da minha alma alargava-se, alastrava, invadia o que eu sentia, o que eu queria, o que ia sonhar. Os objectos vagos, participantes, na sombra, da minha insónia, passam a ter lugar e dor na minha desolação."
Livro do Desassossego
Será que todos chegaremos a isto, algum dia? Cheios de dias. Tão cheios de dias, de luz, de sonhos estilhaçados que vamos querer que nunca amanheça? A madrugada sempre foi símbolo de recomeço, de oportunidade, de possibilidade... será que todos teremos um dia em que a madrugada será apenas e só símbolo de mais um sonho que não se concretiza, de mais um falhanço, de menos uma oportunidade? Será que chegará o dia em que vamos querer apenas e só refugiarmo-nos no conforto da noite? Hoje não tenho respostas, só tenho perguntas.

18 comentários:

Verónica disse...

Quando um dia corre mal eu costumo pensar nesta frase da Scarlett o'Hara: "Amanhã é outro dia" (Lembro-me sempre daquela fantástica cena final).
E esta verdade alivia-me.

@me@@@ disse...

aiii que saudades que eu tinha de ler um excerto assim, adoro Fernando Pessoa!!!

Só ele define tão bem, a noite, a madrugada, o escuro, os dias tão cheios de nadas as noites tão cheias de tudo!!!

Adoroooooooooooooooooooo

Lita disse...

Há dias assim... mas também aprendi o sol acaba, eventualmente, por nascer. Quer o desejemos ou não. E ainda bem que assim é.

Brigitte disse...

À parte do magnifico texto, confesso que adoro a foto...

beijinhos
:)

Ianita disse...

Também eu adoro o génio maior das nossas letras. Nem sempre me identifico com o cansaço dele... com este cansaço da sucessão dos dias e das noites, das desilusões... Com um novo dia, vem uma nova oportunidade de tudo ser diferente, e há esperança num novo amanhã...

Mas será que algum dia nos sentiremos assim? Cansados de tudo? Cansados dos dias que prometem tudo e não dão nada?

....

Kisses

u João disse...

Olá!Existe na prosa de Pessoa, uma ambiência Kafquiana, bem presente no "livro do desassossego". Não sou apreciador da poesia e prosa de Pessoa, continuo a achar que é mais fácil escrever sobre o mal de viver do que o contrário.
Pessoa retrata um tempo- o seu tempo- feito de desesperança, com notável precisão na escolha das palavras certas.
Gostei mais do teu texto Ana, é um facto :)
A noite é boa conselheira-dizem.O amanhecer trás sempre a esperança de um novo dia. É uma verdade de la palisse, mas, acredito que sim.
Por vezes o melhor é;
"Não é necessário sair de casa.
Permaneça em sua mesa e ouça.
Não apenas ouça, mas espere.
Não apenas espere, mas fique sozinho em silêncio.
Então o mundo se apresentará desmascarado.
Em êxtase, se dobrará sobre os seus pés.
Franz Kafka
beijo :)

im disse...

Sinceramente espero não chegar ao dia de me querer apenas refugiar no (des)conforto da noite...mas cada qual sabe da sua verdade!

Acredito no milagre de um novo dia...

beijo

Ianita disse...

João: O meu texto é reflexo de alguém que se cansa da sucessão dos dias e das noites e do desespero dos seus dias, do seu tempo, mas que tem ainda um laivo de esperança... de curiosidade em abrir o livro, em espreitar a próxima página. Mas não deixo de me identificar um bocadinho com este desalento do Pessoa...

Confesso a minha ignorância, não sabia que o Kafka também tinha poesia. Gostei muito. Obrigada :)

IM: Tás a ver quando entras na autoestrada e sabes, naquele momento em que entras, que vais mal? Enganaste-te, não é por aqui que queres ir. Mas não podes fazer marcha-atrás, nem inversão de marcha. Tens de seguir em frente. Preocupada porque estás a perder tempo neste caminho, preocupada porque te vês encurralada e só podes seguir em frente. Esperas que haja uma saída, mais à frente, que te permita mudar de caminho... E não quer dizer que este caminho errado seja mau, mas estás tão obcecada em sair dele que nem olhas para ver a paisagem e aproveitá-lo um bocadinho... Entendes?

Kisses

Nelson Alexandre Soares disse...

Eu, por acaso, já tive uma fase assim... Em que a noite era o meu maior refúgio, o silencio a meu maior desejo, e a escuridão a minha mais desejada luz...


Hoje é diferente, hoje reconheço-me mais como eu próprio, sou mais eu: e vejo a noite e o dia de forma diferente mas encadeados. Distintos em caracteristicas, mas unidos em sentimentos... =)


Stay Well




p.s.: no entanto, não mentiria se dissesse preferir a noite... Tem um encanto e uma familiaridade diferente...

_+*A Elite in Paris*+_ disse...

Tanto lutamos nos para ter momentos com mais sol... ou com o luar da existencia... :)

Beijo meu ♥,

A Elite

Anita :) disse...

adoro Fernando Pessoa!!!um génio e, sempre uma inspiração!!!quanto às tuas persuntas, infelizmente também não tenho respostas para ela mas, nada como viver um ia de cada vez...

beijinho bom*

Ianita disse...

Nélson: Também já tive uma fase de viver mais a noite... mas nunca senti desilusão pelo dia. E hoje vejo-me, não é sempre (felizmente), mas de vez em quando, a sentir desilusão nos dias que não me trazem aquilo por que luto... por ser mais do mesmo... sinto-me encurralada e não vejo a saída nem a 20 km :)

Ianita disse...

Elite: Tens razão... se alguma vez me visse sem o sol, sem a luz da esperança, aí sim haveria de ter razões para depressões, mas...

Ianita disse...

Anita: é ir empurrando com a barriga e esperar que a saída para um caminho melhor esteja mesmo ao virar da esquina, ali depois daquela curva... :)

Kisses

Dawa disse...

Andas tão Pessoana! :P
É o MEU poeta! O maior!
Beijinho

Ianita disse...

Para mim também. É O Génio. Porque ele é muitos e encontramos nele tudo o que precisamos...

Gosto tanto que, quando me batem à porta a perguntar se dou explicações, eu digo logo que sim e peço um preço tão pequeno e simbólico só mesmo para eles não irem a outro lado :)

Depois de um dia de trabalho, lá ia eu para uma hora que era sempre quase duas de Pessoa....... Que delícia... todo o cansaço se desvanece quando transmitimos estas palavras de génio a um aluno e vê-lo entender e gostar e pedir mais....... Não há nada melhor no mundo.....

kiss

im disse...

Ianita, sei e entendo...

Se não é o que queremos pode ser incrivél mas não conseguimos ver as suas maravilhas...

Um dia cansamo-nos de lutar contra o inevitavel e aceitamos...temos então duas hipoteses ou aceitamos rendidas e vivemos a lamentar ou aceitamos e fazemos o impossivel para que esse caminho seja O Caminho. Ainda que doa...


Mas será que não existe uma saída nessa auto-estrada? É só estar atenta...e é tão dificil tantas são as distrações!

beijos

Ianita disse...

IM: Haver saídas acredito que haja... podem é aparecer tarde demais... quando já perdeste muito tempo nesse caminho que não é o teu... Não sei...

Kisses