17 de outubro de 2009

Lourosa - 14 Outubro 1964

Ser ou não ser

Qualquer coisa está podre no Reino da Dinamarca.
Se os novos partem e ficam só os velhos
e se do sangue as mãos trazem a marca
se os fantasmas regressam e há homens de joelhos
qualquer coisa está podre no Reino da Dinamarca.

Apodreceu o sol dentro de nós
apodreceu o vento em nossos braços.
Porque há sombras na sombra dos teus passos
há silêncios de morte em cada voz.

Ofélia-Pátria jaz branca de amor.
Entre salgueiros passa flutuando.
E anda Hamlet em nós por ela perguntando
entre ser e não ser firmeza indecisão.

Até quando? Até quando?

Já de esperar se desespera. E o tempo foge
e mais do que a esperança leva o puro ardor.
Porque um só tempo é o nosso. E o tempo é hoje.
Ah se não ser é submissão ser é revolta.
Se a Dinamarca é para nós uma prisão
e Elsenor se tornou a capital da dor
ser é roubar à dor as próprias armas
e com elas vencer estes fantasmas
que andam à solta em Elsenor.

Manuel Alegre


Ouvi hoje nas notícias o caso do 14 de Outubro de 1964 em Lourosa. Nunca tinha ouvido falar. Ouvi hoje. As senhoras da aldeia não queriam que o Padre fosse transferido e então fizeram uma vigília. O Estado Novo encarou aquilo como uma manifestação, uma rebelião e mandou 1000 agentes da GNR que cercaram a aldeia e entraram a matar. Sim. Morreram pessoas. Senhoras. Uma delas grávida. E o resto da população? Calou-se. Calou-se por medo de morrer também. Apagaram aquele dia das memórias para poderem viver. (mais aqui)

Adoro a poesia portuguesa escrita nas décadas de Estado Novo. Adoro este poema do Manuel Alegre. É dos poemas mais bonitos e mais complexos que conheço. Ainda bem que não há quem hoje escreva assim em Portugal. Nem o Manuel Alegre nem Jorges de Sena nem Alexandres O'Neill nem Arys dos Santos nem Natálias Correia nem Sérgios Godinhos nem Zecas Afonsos nem os milhares de anónimos que deixaram a sua marca. Por mais que goste e admire estas pessoas, fico muito feliz por saber que vivemos outros tempos. Fico muito feliz por sentir que não preciso de esconder sentidos nos sentidos das minhas palavras. Fico muito feliz por ler os poemas que o Manuel Alegre escreve ainda hoje. Bonitos, muito bonitos. Mais bonitos por não serem amordaçados. Palavras que saem soltas e livres.

É muito fácil criticar e dizer que estamos tal e qual se estava há 100 ou 200 anos atrás. Pegar numa frase de um autor antigo, escrita num tempo antigo e dizer que encaixa como uma luva nos tempos de hoje. Os escritores sempre usaram as palavras como armas. As melhores e mais poderosas armas. E gosto de ver que os escritores de hoje, os Saramagos e os Peixotos e os Lobo Antunes e mesmo os Manueis Alegre não escrevem assim... não escrevem como Eça escreveu. Nem o Manuel Alegre escreve como escrevia. Porque não se adapta. Porque por pior que estejamos (e sim, estamos mal e estrasados em mesmo muitas coisas), nunca estivemos tão bem. E o caminho é para se ir fazendo, passo a passo. E confesso que me chateia que as pessoas não tenham sentido de História. Que falem do que não sabem nem conhecem... ou que conhecem só pelos seus olhos.

Gosto de ler poemas como este. São o reflexo e a memória de tempos passados. E fazem-me sorrir... pelo exemplo, pela luta, pela preseverança, e pela mudança. A mudança por que tantos lutaram e que eu vivo hoje.

Não imagino como há-de ter sido para o povo de Lourosa calar este segredo. Não poder nomear os culpados. Não poder sequer pensar no assunto, porque os olhares denunciam os pensamentos e pensamentos maus matavam... Hoje temos o direito de pensamento... o direito de indignação... o direito de falar abertamente... Obrigada aos que lutaram. Obrigada.

5 comentários:

Paulo Lontro disse...

Que triste e ridícula história Ana, como se pode morrer por motivos destes.
Por outro lado é estranho que se conheçam tão poucos pormenores deste drama.

ianita disse...

Paulo: já eu não acho nada estranho... estas pessoas simples, de aldeia, viram duas mulheres serem alvejadas... duas mulheres que iam a passar na rua e que nem estavam envolvidas na vigília, duas pessoas aleatórias. Nenhum jornal falou nisto. Só o Avante, a que muito poucas pessoas tinham acesso na altura. Não imagino sequer o medo... o pânico... e o espírito de sobrevivência falou mais alto. É claro que é bonito falar em insurreição. Mas eu entendo-os. Eles queriam apenas que os deixassem viver em paz... não queriam saber de política nem de politiquices. Queriam viver.

E viveram. E de tal forma calaram isto que foi quase como se tivessem apagado isto das suas memórias... tanto que ainda hoje há quem não queira falar do assunto.

É assustador.

Como é assustador ouvir que antigamente é que era.

VG disse...

Não vi a reportagem na tv do início e fiquei sempre com a sensação que tinha perdido a lógica e a explicação do acontecimento, mas agora, depois de ter lido o artigo do público, continua tudo a não fazer sentido...

ianita disse...

VG: não faz sentido... mas esta história veio reafirmar a minha certeza de que ainda há muito para descobrir sobre o Estado Novo.

Já me doía ir a Peniche e ler as histórias, os testemunhos de tortura física e psicológica a prisioneiros e amigos. Mas dói saber o que se fazia a pessoas comuns... sem qualquer ligação política. É assustador... e mais assustador do que entrarem a matar, foi o terror que se seguiu. Não imagino sequer o que seja viver assim... e ainda bem.

Kiss

bono_poetry disse...

Nao sou de misturar tempos neste assunto,mas se bem me lembro outras etapas recentes ainda nao se escreveram sobre elas,sera que e um estado novo diferente?"o novo estado novo?"
Gosto de Manuel Alegre e outros menos conhecidos e mais "mordidos" pelo tempo e pela ditadura.
bom post como sempre!!beijo!