24 de agosto de 2013

Da morte do autor

"Falou-se muito naquela altura da morte do autor porque de vez em quando decidimos matar qualquer coisa, matamos a arte, a literatura, dizemos que já não haverá mais... Começámos por tentar matar Deus, mas ele tem sete fôlegos como os gatos e ainda não o conseguimos realmente. Foi também o caso de Roland Barthes ao afirmar que o autor morreu. Se esta sentença já tivesse sido executada como é que seria no caso do D. Quixote? Se tivessem morto o Cervantes antes de ele começar a escrever o livro gostava de saber quem é que o iria escrever. Perde-se demasiado tempo em cabriolas e pequenas acrobacias que apenas querem é agitar as coisas gratuitamente. Não é que as coisas não devam ser agitadas, mas, segundo creio saber, o Barthes mais tarde matizou esta afirmação tão peremptória de que o autor tinha morrido. 

Porque eu pergunto, por exemplo, uma peça de teatro é uma obra literária? Também é, e onde está o narrador? Onde está? Não está. Às vezes diz-se, para sair da dificuldade, «está na didascália, porta à direita, mesa no meio». Não, não, não! Falar é, digamos, do complexo que é o diálogo, das situações que são vividas pelos atores, sem citar o narrador. Até se pode pôr lá um narrador, alguém que está encarregado de preencher um vazio numa situação ou noutra e que em vez de estar no palco está a dizer «isto, aquilo, como vão ver». O que, no fundo, é voltar ao contador de histórias, ao narrador oral. Portanto, quando digo que não há narrador, sou eu o responsável - eu autor, eu, eu pessoa, eu José Saramago - porque sou eu quem está a escrever

Que lá na universidade venham para aqui falar de narrador implícito e de mais aquilo e do narratário, é confuso e é uma teoria que não me ajuda em nada. Não se vai de uma teoria para uma prática, começa-se sempre por uma prática e depois organiza-se uma teoria. Uma teoria que mais ou menos explica essa prática. Também ninguém começou por elaborar uma teologia para justificar um deus, começou-se por afirmar a existência de Deus e depois elaborou-se a teologia que vai explicá-lo. Então, se sou eu quem está a escrever, se sou eu em quem maneja, eu quem cria as personagens e as situações e tudo o mais, há realmente uma proximidade e uma voz, a voz que eu sou, que eu tenho - assim vejo eu e têm-mo dito - e que cria uma proximidade entre o autor e o leitor. A um leitor de um livro meu não lhe ponho distâncias, eu de alguma maneira estou a falar com ele sem saber quem ele é. Estou a lançar palavras num papel ou num ecrã do computador e não estou a pensar no leitor a que me estou a dirigir. Não penso num tipo determinado, ninguém pensa nos leitores quando está a escrever, pensa em si próprio, pensa no que está a escrever, no trabalho que está a realizar. É uma forma de manejar o discurso como se fosse uma longa história contada em voz alta.

Repare, quando eu publiquei o Levantado do Chão, de onde se instala esse estilo e essa forma de narrar, ofereci o livro a um amigo que dois dias ou três depois me estava a telefonar para dizer que não percebia nada. Tinha lido três páginas e não entendia nada do que eu tinha escrito. E eu disse: «Oh pá, não gosto de ouvir isso, evidentemente, mas enfim... Experimenta ler em voz alta». E, passados uns dias, ele telefona-me a dizer: «Já sei o que é que queres. Queres que eu ouça na minha cabeça aquilo que estou a ler». E é assim, eu estou a contar uma história com esta boca, esta língua, estes dentes e estas cordas vocais. Com a diferença de que isto está a ser posto com signos, que são letras, são palavras, num papel ou no disco duro do computador."


João Céu e Silva, Uma longa viagem com José Saramago, pp.101-102



3 comentários:

Fernanda disse...

Cruzes! Para conseguir ler isto tive que pôr o zoom a 250%. Desisti!

Rafeiro Perfumado disse...

A morte do autor não sei, mas a morte da minha visão esteve perto! Mete-me isto maior, mulher!

Ana Francisco disse...

Este pessoal moderno e mania das tabletes, pá! :)

Se tivesses um computador do século passado, já não tinhas este problema :)

Beijinhos