4 de janeiro de 2010

Do casamento...

"Compadecendo-se, por fim, Zeus lança mão de outro artifício e muda-lhes para diante os órgãos genitais. (...)
Ao mudar-lhes, pois, os órgãos genitais para diante, Zeus determinou que a geração humana passasse também a efectuar-se de uns para outros, mediante tais órgãos - na fêmea por intermédio do macho. E eis o que tinha em vista: se acaso o acoplamento se desse entre homem e mulher, o resultado seria procriarem e perpetuarem a espécie; se entre dois varões, haveria pelo menos a plenitude da união e, uma vez apaziguado o desejo, poderiam voltar às suas tarefas e interessar-se por outros aspectos da vida.
Dessa época longínqua data, sem dúvida alguma, a implantação do amor entre os homens - o amor que restabelece o nosso estado original e procura fazer de dois um só, curando assim a natureza humana. "


Banquete, Platão

Havia regras. O activo na relação homossexual tinha de ser o mais velho e de posição social mais elevada. De resto, era plenamente aceite. O casamento servia para procriar. O que não queria dizer necessariamente que, tanto homens como mulheres, não tivessem os seus amantes. Do mesmo sexo.

Os tempos são outros. Nestes milhares de anos muitas coisas mudaram. Fala-se agora no casamento homossexual. Ou noutra coisa qualquer que os senhores do PSD lhe querem chamar porque supostamente não se pode usar a palavra "casamento". Casamento "é o vínculo estabelecido entre duas pessoas, mediante o reconhecimento governamental, religioso ou social e que pressupõe uma relação interpessoal de intimidade, cuja representação arquetípica são as relações sexuais, embora possa ser visto por muitos como um contrato." Simples. Para quê complicar o que é simples? Tão simples.

A Igreja é contra. Está no seu direito de não casar pessoas do mesmo sexo. Mas o Governo Civil pode. Uma coisa não implica a outra, pelo menos desde o 25 de Abril. E ainda bem.



(Dei com este texto hoje e tive de o partilhar... há mais de dois mil anos era assim... não percebo por que é que temos a mania de não aprender com os antigos... não percebo mesmo.)

6 comentários:

Brigitte disse...

Feliz 2010....

:)

Pax disse...

Por mim, desde que não volte a moda dos eunucos... está tudo bem! ;)

NI disse...

É, de facto, muito simples.

E a nossa constituição proíbe a discriminação mas parece que os nossos deputados fazem vista grossa ao documento fundamental do País.

Rony disse...

Complicar o simples é próprio do ser humano... E viva as falsas moralidades.

Estou a ler "O Conde d'Abranhos"(eu sei que é um crime só o fazer agora... ainda por cima eu que adoro Eça) e é impressionante a sua actualidade. O retrato do Conde é fabuloso, ele é um poço de virtudes, um defensor dos bons costumes, um devoto fervoroso, um político exemplar... Claro que ele próprio não segue aquilo que proclama, o que é perfeitamente aceitável, desde que nunca se venha a saber!

Rice Man disse...

Uns dizem que temos de aprender com o passado, outros dizem que temos de evoluir. O que muita gente ignora é que uma coisa não impede a outra. :S

ianita disse...

Brigitte: Feliz 2010!

Pax: eu disse "aprender", não disse "copiar" :)

Ni: mas há quem queira sempre complicar o que é simples, não há?

Verónica: tens de ler "A queda d'um anjo", do Camilo. Uma temática muito semelhante e anterior!! :) Já te disse que o Eça não fez nada melhor que o Camilo ;)

Rice: aprender não é copiar. Aprender implica crescimento. Amadurecimento. Reflexão. Logo, evolução :)