5 de novembro de 2009

Assimetrias...

Gosto do calor. Gosto do ar quente na face. Gosto do cheiro a mar e gosto da praia. Gosto do céu azul. Gosto dos decotes generosos e das sandálias altas. Gosto de melão e melancia e de bebidas geladinhas. Gosto de não usar secador depois do banho. Gosto de poder estar ao ar-livre de noite e me sentir aconchegada... como se o ar nocturno de abraçasse e protegesse.

E gosto do frio. Gosto da lareira acesa. Gosto da jeropiga e das castanhas. Gosto das botas e dos sapatos. Gosto dos casacos e das golas altas. Gosto de estar deitada e ouvir a chuva a cair forte lá fora. Gosto de ter muitos cobertores e edredons na cama. Gosto de banhos a ferver. Gosto de enfiar o meu nariz frio em pescoço alheio. Gosto de mãos frias em pele quente. Gosto de chá de ervas, mas sem mel nem açúcar. Gosto da palavra "enroscar" que, para mim, se associa mais ao frio.

Ainda assim... mesmo gostando do frio... hoje custou-me estar ao ar livre e sentir frio... custou-me ter de usar o secador no fim do banho... custou-me ter de calçar meias... custou-me levantar a cabeça para o céu nocturno e não ver estrelas... custou-me sentir as gotas de chuva na minha pele despida...

E eu que gosto tanto de conversar, de falar, de trocar ideias e pensamentos... eu que gosto tanto de discutir... eu que gosto tanto... hoje não gostei... soou-me estranho... desconfortável... como se a simples troca de palavras fosse um sacrilégio... como se o falares-me de coisas banais do teu dia-a-dia me ofendesse... apeteceu-me dizer-te "cala-te". Não te disse "cala-te". Ouvi-te. E tu falaste falaste falaste. De nada. Mas falaste. E eu sempre sem perceber o porquê. Continuo sem saber...

Há coisas assim estranhas... eu que gosto de calor também gosto de frio. E mesmo gostando de frio não gostei de secar o cabelo hoje... nem da chuva... nem da falta de estrelas à vista... nem do arrepio... seria frio? Sim, era frio. E mesmo gostando de falar, não gostei que falasses comigo. E sendo eu tão apologista da verdade, não ta disse. Não desta vez. O tanto que me apeteceu gritar-te "cala-te". E não gritei... quando ouvi a chuva a cair sorri... e enquanto falavas eu ouvia.

7 comentários:

Vera L A F Angélico disse...

Às vezes preciso de medir as palavras, sob pena de comentar mais além do post. Sabes o que eu penso disto. Sabes que às vezes criamos defesas. Ou então sabes só que eu sou uma valente crente...

Eu não sei. Mas vejo mais que o calor e o frio. Vejo mais que o não gostar de ouvir alguém a falar. Talvez a pessoa em questão esteja a dizer as palavras erradas. Ou tu não tenhas neste momento abertura suficiente para ouvir as certas.

O que quero dizer é que nem tudo o que é preto ou branco (sem analogias parvas), vai ser sempre branco, ou preto. A vida muda. As pessoas evoluem, assim como as relações (em geral). Tudo muda. Tudo evolui. Tudo se transforma. E às vezes basta a nossa vontade.

Talvez seja tempo de perceberes se tu mudaste mesmo. Ou se esta é só uma reacção a uma mudança que tens medo de assumir e aceitar.

Nada que não seja bom faz sentido repetir-se. Por isso é que uma boa conversa, um céu estrelado, o calor na pele... são imperdíveis.

Não te digo para viveres mais, com mais intensidade, porque sabes muito bem fazê-lo!

;)

Beijos.

ianita disse...

Vera: mas as defesas têm razão de ser... talvez... a existirem...

Acho que as coisas são o que são... que não vale a pena tentar pôr o quadrado no lugar do círculo... que não vale a pena tapar o sol com a peneira... as coisas são o que são... claro que as pessoas têm em si a capacidade de mudar... mas os sentimentos não se mudam assim... ou existem, ou não.

E sim... uma boa conversa e o céu estrelado são imperdíveis... mas nem uma nem outro! :)

Eu bem que quero dar intensidade à vida... mas a intensidade foge-me por entre os dedos... ainda assim, eu tento... tento mesmo...

Beijos!

Mag disse...

Bem... isto vai provavelmente soar um bocado do "ar", uma vez que nao sei bem de que se trata... loool... mas falo do que posso.

E o que posso dizer é que as coisas não saõ como queremos que sejam. São, sim, como são, simplesmente.
Tudo tem o seu tempo, a sua existência, o seu timing. Não se pode correr contra os ponteiros do relágio (seja para o atrasar seja para adiantar), sob pena de acabarmos com a língua de fora.

É deixar acontecer. Fluir. Viver. O que tem de ser, é. Acontece, simplesmente.

Beijo

VG disse...

Agora fizeste-me lembrar de um filme que vi recentemente: "A estranha em mim"... Espero que te encontres rapidamente :)

Sayuri disse...

Eu gosto do 1º parágrafo todo!
Do segundo só posso apontar a lareira acesa, a jeropiga, as castanhas, os sapatos, o estar deitada e uma chuvada lá fora...e pronto!

ianita disse...

Mag: e quando as coisas deixam de ser o que eram sem nos pedirem autorização? Às vezes o go with the flow é perigoso... e eu sou intensa e gosto de viver, mas não sou inconsequente...

VG: será que me perdi?

Sayuri: não gostas do nariz em pescoço alheio? :)

Mag disse...

Ianita, mas não falo em inconsequência... as nossas escolhas estão presentes a todo o momento! Podemos escolher sempre os caminhos, mesmo que a escolha seja... não escolher!

(há forma de impedir o Mundo de girar conforme lhe dá na telha?)