26 de janeiro de 2010

Estundatina...

Coimbra.

É uma palavra que me emociona só de a lembrar.

Vejo agora o documentário sobre os estudantes da Briosa, antes do 25 de Abril. Contestatários. Como o Manuel Alegre. Adriano Correia de Oliveira. Tantos.

Ainda hoje via no Telejornal o que se passa na Venezuela. O Presidente Chavez mandou fechar um canal televisivo, apenas e só por ter uma linha editorial contra o Governo. Os estudantes saíram à rua e já morreram dois deles. Fora os feridos.

Os estudantes estão sempre na linha da frente. Pela juventude. Pela irreverência. Pelo sonho que ainda os comanda. Não têm ainda filhos nem hipotecas nem trabalho. Não têm responsabilidades. Têm ideais e defendem-nos.

Aconteceu em França, no Maio de 68. Em Coimbra, em 69. Na Venezuela hoje.

Coimbra esteve na linha da frente na contestação ao Estado Novo. Não sei o porquê de ter sido Coimbra e não outra cidade. Talvez por ser uma cidade pequena e quase exclusivamente de estudantes. Greve aos exames. Cancelamento da Queima das Fitas. A Académica onde jogavam estudantes da Briosa. Alguns destes acontecimentos já retratados no "Conta-me como foi".

Estão a falar dos saraus... das tertúlias.... da poesia e da música... estou arrepiada. Emocionada.

Sinto-me orgulhosa de ter vivido naquela cidade. Mesmo noutros tempos. Acho que ainda hoje a cidade está cheia de mística. A mística de ser uma cidade onde se fizeram tantas coisas... uma cidade onde se viveram tantas coisas. Coimbra.

Gostava de poder viver num tempo em que não fosse preciso ver pessoas sair à rua...

Como não podia deixar de ser... deixo uma música de uma das melhores duplas da música portuguesa... letra de Manuel Alegre, música e voz de Adriano Correia de Oliveira.




Capa negra, rosa negra
Rosa negra sem roseira
Abre-te bem nos meus ombros
Como o vento numa bandeira.

Abre-te bem nos meus ombros
Vira costas à saudade
Capa negra, rosa negra
Bandeira de liberdade.

Eu sou livre como as aves
E passo a vida a cantar
Coração que nasceu livre
Não se pode acorrentar.

7 comentários:

Luisa Moreira disse...

Adorei este post, Ianita.
Coimbra tem algo de especial.
Ouçamos Adriano

Beijinho

Luisa

Rony disse...

Sim, é mais fácil lutar quando não há constrangimentos de diversos níveis e se tem uma enorme vontade de mudar o mundo. Ainda bem que temos a sorte de viver numa democracia sem aspas, mas também acredito que uma geração que tem de lutar pelos seus ideais, pela sua liberdade, é mais rica e forte do que outra que não tem... paradoxos.

ianita disse...

Luísa: é fantástico, não é? A voz dele transpira autenticidade. É linda!

Rony: sim, tens razão. Notou-se bem isso nas pessoas que falaram hoje no documentário... estive quase a ter inveja. Mas depois lembrei-me que eles viveram em Ditadura e isso não é motivo para inveja... paradoxos! :)

Rui da Bica disse...

Ianita, eu não “vivi” Coimbra, mas “vivi” o Porto, numa época anterior à revolução, em que reconheço, Coimbra tinha “mais encanto” !
Mesmo no Porto, o estatuto de estudante não dava para ficar sossegado. Recordo bem os cuidados que tínhamos que ter à mesa do café, onde estudávamos, quando se abordavam temas políticos, felizmente apenas esses. Olhávamos em volta, para ver se alguém nos poderia ouvir, antes de “desancarmos” nas políticas ou nos políticos. Todo o cuidado era pouco.
O Fado Coimbra e aquelas vozes, sempre me emocionaram e continuam a emocionar, até aos olhos.
É com muita saudade que recordo aqueles tempos e os imediatamente posteriores ao 25 de Abril.
Cantei, do coração, a Grândola, Vila Morena, em conjunto, muitas vezes.
Entretanto, não passou um ano para que todo o entusiasmo se desvanecesse e a partir daí poucos foram os momentos de plena satisfação.
Entre vários outros, o Adriano Correia de Oliveira, o Zeca Afonso, o Ary dos Santos, eram os expoentes. Todos se foram e com eles, ... tanta coisa !...
.

ianita disse...

Rui: as expectativas eram muitas... e é mais difícil ver a evolução das coisas, vendo as pequenas coisas todos os dias. Mas se analisarmos o que mudou nestas décadas, a mudança é radical e, felizmente, para melhor.

Ainda bem que houve quem lutasse para, entre outras coisas, podermos estar aqui livremente a dizer o que pensamos. Eu que não vivi sem ser em Democracia, acho que essa conquista é inestimável.

Kiss

Rui da Bica disse...

Ianita: as “coisas” não foram bem assim, como se “pintam” agora. Isso é só “meia verdade”.
A autêntica “libertação” durou apenas meio ano (até 11 de Setembro 74).
Entrou-se depois numa outra ditadura, igual ou pior que a anterior, mas inversa:

Se se andasse na rua com um emblema do CDS ou do PSD, corria-se sérios riscos de apanhar uma tareia, ou no mínimo de insultos ;
Num comício do CDS no Porto, os aderentes tiveram que lá permanecer 24 h., fechados ;
No 1ª de Maio de 75, o Mário Soares foi impedido de entrar não estádio do Inatel, para se reunir à Festa do Trabalhador e começou o chamado “Verão Quente de 75”;
O Otelo (Copcom) criou mandatos de captura para aqueles que cometeram o crime de ser riscos (que tiveram que fugir do país) e ameaçou que ia fazer uma matança (pessoas) na Praça de touros do campo Pequeno;
Disse na Suécia, ao Olaf Palm que em Portugal ia acabar com os ricos e “aguentou” como resposta que lá, tiveram, foi a preocupação de acabar com os pobres ;
As Brigadas Revolucionárias, estabeleceram o terror ;
Se alguém fosse ouvido a “dizer mal” corria sérios riscos de linchamento;
Vasco Gonçalves “destruiu” por completo tudo o que poderia fazer de nós um país próspero;
Os sindicatos criaram o caos nas empresas;
As leis de trabalho criadas pela Assembleia Constitucional, ainda hoje desmotivam empresas estrangeiras a investir em Portugal;
As empresas foram descapitalizadas e lavadas à ruína, com perda total de concorrência ;
Os compradores estrangeiros, com medo de incumprimentos de entrega de encomendas (dada a situação) deixaram de nos comprar;
muitas empresas foram “obrigadas” a fechar, por falta de trabalho;

Já passaram mais de 35 anos e ainda estamos na cauda da Europa !
A Democracia e a liberdade são boas, mas há cada vez mais gente a passar fome. A economia e a produtividade, têm que criar riqueza.

... e tantas, tantas mais coisas, que não “cabem” no âmbito dum comentário de blog ....

ianita disse...

Rui: sei bem o que foi o 25 de Abril e o que significou, assim como sei bem o que foi o 25 de Novembro de 1975 e o que significou.

Como sei do episódio da Marinha-Grande que terá valido a eleição ao Mário Soares.

Não o vivi, mas aprendi. E tens razão quando dizes que estamos ainda na cauda da Europa. Estamos. Mas eu sinto orgulho. Do tanto que fizemos em apenas 30 anos. Inglaterra ou França nunca tiveram uma Ditadura. Logo, nunca tiveram de recuperar de uma.

A II Guerra Mundial, devastadora para a França principalmente, ajudou a catapultar as economias americanas e britânicas, como bem sabes. E nessa altura nós estávamos "orgulhosamente sós". A França recebeu ajudas e apoios à reconstrução e a Alemanha está como sabemos.

Estamos na cauda, mas estamos cada vez menos na periferia. A diferença com Espanha, que era abismal, é ainda grande, mas cada vez menor.

É tudo uma questão de perspectiva. Tu olhas apenas para o que falta. Eu olho para o que foi feito. Para o caminho fantástico que fizemos. O 25 de Abril e o 25 de Novembro abriram-nos as portas para o momento mais importante da História de Portugal, no que toca ao sair da periferia da Europa, a entrada na União Europeia.

Nós crescemos imenso nestes 30 anos. Desenvolvemo-nos muito. Mas, logicamente, os outros países não ficaram parados à nossa espera. E se a diferença é menor é porque o nosso índice de crescimento é maior. Se poderia ser ainda maior? Talvez. Mas qualquer crescimento, para não vir abaixo à primeira coisa, terá de ser sustentado. Com alicerces fortes.

O caminho é longo ainda, mas estamos aí para a luta. Estamos aí para o caminho.