4 de março de 2010

Do discurso motivacional

Um colega de trabalho mandou-me um e-mail. Não gosto muito de trocar mails com pessoas do trabalho. Primeiro porque tenho mais o que fazer. Depois porque uma pessoa nunca conhece realmente as pessoas e, numa empresa grande como esta, nunca sabemos em quem podemos confiar. Por isso, o melhor mesmo é não dar grandes confianças.

Mandou o e-mail a dizer que me notava diferente. Cabisbaixa e afastada de todos. Algo triste. (Ele vê-me durante 10 segundos num dia e dá-se ao luxo de “saber” estas coisas todas de mim). E que me mandava um beijo motivacional.

Eu, educada, respondi. Disse que estava “apenas” cansada e a precisar de férias. Smile e pronto. Está feito.

Entretanto ele resolve responder… um texto enorme, com aquela história das pedras dentro do frasco e da gravilha que depois ainda cabe e a areia e depois a água e tal. E aconselha-me a acabar com este sentimento de cansaço antes que me leve para caminhos pouco saudáveis (bom conselho, pah!). E conclui pedindo-me que cuide bem das minhas pedras grandes… supostamente, família, amigos e saúde.

Mas de onde me conhece ele? De há dois anos, desde que comecei a trabalhar aqui. Nunca troquei mais que meia dúzia de palavras com esta pessoa. Trabalha noutra empresa do grupo. No rés-do-chão. Quando eu chego ele ainda não chegou. Quando vou embora ele já foi. O pouco que falei com ele foi à hora de almoço e sempre conversa de circunstância.

Pode preocupar-se comigo? Acho estranho, mas pode. Claro. E aquele primeiro e-mail nem foi muito mau. Perguntou se eu estava bem. Eu respondi e deveria ter ficado o assunto por ali. Não ficou. Infelizmente. Porque me irritou solenemente!

Não é a primeira vez que uma pessoa, destas defensoras destas novas teorias new age, do discurso motivacional da treta, me invadem o espaço para me venderem esta charlatanice.
Todas as pessoas têm o direito à sua fé. Eu tenho a minha. Mas não falo dela. Nem a ando a impingi-la a ninguém. Uma coisa é procurarem-me e pedirem-me opinião, pedirem-me que fale da minha fé, da minha experiência. OK. Outra diferente é eu abordar as pessoas do nada e impingir-lhes estas balelas todas.

É tipo testemunhas de Jeová. Não tenho nada contra a fé deles. Mas chateia-me que andem a divulgá-la de porta em porta. Chateia-me que me incomodem quando estou em casa, a tentar descansar. E que me respondam mal quando digo que não estou interessada. Já tenho a minha fé e estou satisfeita, obrigada. Com estas pessoas da conversa motivacional é exactamente a mesma coisa. Andam de porta em porta, de blog em blog, de mail em mail. E quem responde “não obrigada, já estou servida”, respondem com a arrogância de quem sabe tudo e os outros não sabem nada. Respondem com um sorriso sobranceiro, de quem descobriu a pólvora e eu fosse a mulher das cavernas que recusa a suprema sabedoria.

Não. A vossa sabedoria é apenas mais uma. A vossa forma de estar na vida é apenas mais uma. Válida como qualquer outra. Cada um é livre de pensar e viver como quiser… desde que não vá contra as leis do Estado de Direito nem contra liberdades individuais. E estas pessoas invadem a minha privacidade, mandam e-mails que eu não pedi, falam como se me conhecessem, quando não me conhecem de parte nenhuma, dão palpites sobre a minha vida (com que direito?), invadem o meu espaço e desrespeitam a minha liberdade de escolher viver com outra sabedoria. Nem mais, nem menos válida. Apenas diferente. Quanto mais não seja porque não a impinjo a ninguém.

Se alguém de quem eu gosto está triste, ou eu acho que está triste, sou capaz do e-mail ou da mensagem ou do telefonema. Mas se a pessoa me responde que está tudo bem, eu não insisto. Primeiro, porque pode, de facto, estar tudo bem e ser só impressão minha. E depois porque, a não estar tudo bem, tenho de respeitar o facto de a pessoa não querer falar. Dar-lhe tempo e espaço.

Porque eu posso ter problemas, mas não ando a falar deles ao Mundo. Muito menos ao primeiro badameco que me pergunta se está tudo bem. Se precisar de falar, tenho as minhas pedras grandes (lindo, não?)… a minha família, os meus amigos… e se estes me falharem, posso sempre ir a um psicólogo, que é uma pessoa licenciada e formada para o efeito.

Concluindo. Estou bem, de facto. Estou cansada porque dormi mal esta noite, como tenho dormido mal todas as quartas-feiras, porque à 5ªfeira dou explicações e pareço uma miúda de tão excitada! Mas isto digo a quem me apetece. Nunca a pessoas do trabalho, porque não quero que o patronato saiba. Eu sei que não tem mal nenhum, mas prefiro assim.

Há algum aviso, alguma fórmula mágica para afastar os vendedores da banha da cobra ou tenho mesmo que levar com eles?

16 comentários:

Rony disse...

Temos mesmo de levar com eles! Porque para esses "iluminados", nós que vivemos na escuridão não temos capacidade de ver a luz por nós próprios ou à primeira, daí eles terem de insistir. Ao recrutarem-nos estão a salvar um ser coitadinho e ignorante e a cumprir o seu dever de aumentar o rebanho e consequentemente os dízimos, tenham eles a forma que tiverem.

Como lidar com estas pessoas?

1 - Mandá-los enfiar no cú a sua filosofia (resposta politicamente incorrecta, mas que dá um gozo do caraças).

2 - Abafar o primeiro instinto, sorrir, dizer que não estamos interessados, virar costas e esquecer o assunto (resposta politicamente correcta, proporciona um gozo moderado, porque o melhor remédio é mesmo ignorá-los).

Sunshine disse...

Como entendo esse sentimento...Sem absolutamente nada a acrescentar, subscrevo cada palavra!
Devo apenas dizer que pela minha humilde experiência, que estas pessoas (por norma) não têm vida própria!
A fórmula mágica que uso é ignorar e quando sinto que ultrapassaram o limite do razoável "envio" um Aviso a vermelho!!!
Gosto muito deste Blog! ;)

Rachelet disse...

Visto que tens de partilhar o mesmo espaço de trabalho, o melhor é não hostilizar. Simplesmente não dês trela.
Se te mandar um e-mail desses, responde simplesmente com palavras de 2 ou 3 letras como Sim, Não ou Ok.
Se a pessoa insistir em mandar mails, não respondas e se te vier perguntar porque não respondes, relembra com tacto (e fazendo CC ou BCC para o teu superior) que estão no local de trabalho e que o e-mail da empresa é um instrumento de trabalho. Garanto-te que a chatice acaba.

Sayuri disse...

Coitado do rapaz... deve andar a acertar contas com o Snhor lá de cima... a vr e ganha mais uns pontinhos de luz... :)

Dylan disse...

é fácil! Muda de e-mail...

ianita disse...

Rony: só me lembra uma personagem de uma novela brasileira da nossa infência.... "Meninos, eu vi!" LOL

Sunshine: pois... focam-se na vida dos outros e esquecem-se de olhar para o próprio umbigo... tragic!

Rachelet: eis que o senhor insistiu. Hoje recebi um e-mail em como conseguimos controlar uma faca de forma a não matarmos ninguém e de como, da mesma forma, podemos controlar os sentimentos... foi para o mesmo sítio do e-mail de ontem e daqueles e-mails da viagra e afins... LIXO! :)

Sayuri: pois... a "vender" a luz para ganhar mais pontos... a ver se compra o lugar no céu... eu é que não tenho nada a ver com isso!! lol

Dylan: é o e-mail do trabalho... não tenho o poder de o apagar e criar outro... tenho de receber os e-mails e apagá-los e pronto... :(

ianita disse...

Esqueci-me... qualquer dia é despedido e diz mal do patrão... passa os dias a escrever e-mails idiotas enormes e a enviar às pessoas (porque duvido que seja só para mim) e depois o trabalho não aparece feito, como é óbvio!

É o típico "faz asneiras" e quando o mal acontece a culpa é dos outros... tão focado na vida dos outros e em espalhar a luz que se esquece de cuidar da sua vida...

Beijos a todos!

aryabodhisattva disse...

Oh, GOD. Que tipo cansativo. Eu não sei o que faria.
Suponho que esconversaria sempre com o tempo que faz lá fora. Rematando com um "ala que se faz tarde e há trabalho a terminar, certo, colega?"

aryabodhisattva disse...

(By the way, obrigada p'la visita ao meu blog!)

aryabodhisattva disse...

*Suponho que desconversaria sempre

Lita disse...

Alguém que acha que sabe mais do que nós.... acaba por ser isso, não é?

Também me irrita bastante. Que me invadam o espaço. Que se metam onde não foram chamados. Assim como me irrita que me venham "vender" religiões à porta de casa. Ou que subam 3 andares - sem elevador! - para vir pedir dinheiro.

Respeito pelo espaço físico e interior do outro. Porque é que não é simples? :)

ianita disse...

arya: não há pachorra... já não sei o que faça... :(

Lita: Respeito pelo espaço físico e interior do outro... nem mais nem menos! Isso mesmo... e não sei por que é que não é simples... não sei mesmom :(

Paula disse...

Olá
já há muito tempo que não posto por aqui.
O teu blog cada vez tá melhor.
ps: Já pensaste que o rapaz pode simplesmente gostar de ti?

As coisas na vida sõa tão simples

ianita disse...

Paula: casado e recentemente pai da segunda filha... não me parece :)

És a Paula, Paula? De Coimbra? (saudades pah! para quando um cafézinho para me apresentares o rebento?)

chi dura vince disse...

Não era Paula...tava sem querer com o log da minha mulher ligado sorry n ser a Paula de Coimbra

ianita disse...

Chi: eheheh! Bem que estava a achar estranho :) Não há problema nenhum! Lembraste-me de ligar à Paula para combinarmos um café e isso foi uma coisa boa :)

Beijinhos