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7 de março de 2010

An afternoon at the Theatre

"Ó habitantes de Tebas, nossa pátria, olhai: este é Édipo que conhecia os famosos enigmas e era o mais poderoso dos homens; ele, a quem nenhum dos cidadãos contemplava sem invejar a sua sorte, em que procela de desgraça se vem precipitar! Assim, aos olhos dos mortais que esperam ver o dia derradeiro, ninguém pareça ser... feliz, até ultrapassar o termo da vida, isento de dor." Sófocles, Rei Édipo

Sozinha. Nunca tive medo de estar sozinha, porque não me sinto sozinha. E sempre achei útil passar tempo comigo. Com os meus pensamentos. Ainda assim... nunca tinha ido sozinha ao cinema, muito menos ao teatro.

Aliás... tinha a mania de dizer que nunca tinha ido sozinha a parte nenhuma. Às vezes não olhamos bem as coisas que fazemos e têm de ser pessoas de fora a apontar o dedo e dizer... é mentira... não foste para a Amadora sem conhecer lá ninguém, arranjaste trabalho e casa e foste sozinha? Não foste 2 meses para Albufeira? Carregaste o carro e foste... sem ter ninguém conhecido à espera e sem saber bem ao que ias?

Verdade. Enchia eu a boca para dizer que nunca tinha ido sozinha a parte nenhuma, que era medricas e afinal já fiz muitas coisas... já venci muitas barreiras. Barreiras minhas. Internas. Pessoais.

Ainda assim... dessas duas vezes fui para trabalhar... em lazer é mais complicado andar sozinha... não quer dizer que não vá sozinha à praia... ou que não vá às Capelas Imperfeitas em busca do príncipe... ou tomar um chá a um cafézinho à beira-mar. Mas tudo aqui na minha zona de conforto... no meu ambiente...

Ontem fui ao cinema. Sozinha. Vi o filme sem ter com quem o comentar. Com quem rir. Com quem chorar. E ri na mesma o que tinha de rir.

Hoje fui ao teatro. Uma peça que queria muito ver. Em Lisboa. Comprei o bilhete há já duas semanas. E fui. Sozinha. Com planos de um café com uma amiga depois de almoço. Fui às compras... fui almoçar... fui tomar o chá à Brasileira... vi material importado de primeiríssima qualidade... caminhei até ao Rossio e fui ao Teatro. Sozinha. Sem ter com quem comentar a performance fantástica do Diogo Infante. Sem ter com quem comentar o fantástico jogo de luzes. Sem ter com quem comentar a música... Minto. Fui comigo. E gostei muito da companhia.

A primeira fase do meu plano está completa. Foi superada com sucesso. Venha a segunda!





(o Rei Édipo, a par da Medeia, é, para mim, a melhor tragédia da história das tragédias... como um homem sábio se pode perder... com um homem inteligente e até visionário não vê o que está mesmo à sua frente... "maior cego é aquele que não quer ver", n'est pas? Édipo cega-se, mas já estava cego há muito, embora visse a luz. Todo o conflito, o drama, a inevitabilidade dos Fata... tudo ali, muito bem representado. Já li esta peça uma dúzia de vezes, tendo até traduzido excertos, mas uma peça só se concretiza no palco. E vê-la ali assim... foi como se nunca a tivesse lido... Recomendo... a quem goste dos Clássicos... a quem goste de psicologia... a quem goste de teatro. Na sala Garrett, no Teatro D. Maria II)